Ode às mães imperfeitas

Não gosto de pessoas com falsos princípios. Pessoas que apregoam aos sete ventos valores que defendem, mas que não praticam

Pessoas que criticam atitudes que elas mesmas assumem (normalmente de forma dissimulada, claro). “Sabes a Maria, aquela antipática que anda sempre mal vestida e que se meteu com o primo da irmã da amiga, depois de se ter envolvido com o vizinho? Pois, teve o desplante de dizer mal de mim!”. É mais ou menos isto.

Também não gosto de pessoas perfeitas. Pessoas que têm um amor-perfeito, uma casa perfeita, um emprego perfeito e, claro, filhos perfeitos. Daquelas vidas em que tudo é lindo e cor-de-rosa, sem quaisquer rasgos de um cinzento que lhes pareça dinamizar os dias. Cozinham lindamente, são profissionais de mérito, nunca discutem com a cara-metade e são exímias a educar as crianças. É assim quase como o cenário de uma telenovela mexicana, em que tudo é tão perfeito e maravilhoso que só nos apetece mudar de canal.

Deixei de tentar ser perfeita há muito, muito tempo. Na verdade, assumo até com algum orgulho os meus defeitos, que me caraterizam e diferenciam, por mais incomodativos que eles possam ser para quem convive comigo. Que são. Tenho mau feitio, digo sempre o que penso, tenho uma determinação que me faz normalmente cortar sem dó nem piedade os “cancros da vida” e reconheço um orgulho que nem sempre consigo controlar. E não sou uma pessoa dotada de grande paciência.

Os meus filhos conhecem muito bem os meus limites. Sabem que me desarmam facilmente com uma piada mordaz ou com um choro sentido, mas também percebem que, quando as minhas feições se alteram para um registo mais duro, é hora de ficar em sentido. Se eu gritar, então, é ver os miúdos alinhados como se tivessem acabado de sair de uma rigidíssima escola militar, começando a aspirar as migalhas do chão, a apanhar os brinquedos perdidos e até mesmo a lavar a loiça que sobrou do jantar. Sem que eu diga rigorosamente nada – o que os meus filhos, na verdade, até devem agradecer.

Significa isto que eu erro muito. E todos os dias. Não tenho, felizmente, dias perfeitos e cor-de-rosa. Os meus filhos fazem asneiras, eu grito com eles para se despacharem e portarem bem, o trabalho nem sempre corre como eu quero e há alturas em que a pilha de roupa acumulada me parece o Evereste, quando não tem mais que 30 centímetros de tecidos empilhados. Os meus dias são, na verdade, um arco-íris cheio de cores radiantes, mas salpicado de uns cinzentos a roçar o preto.

E aqui que entra a minha imperfeição. Como disse, sou orgulhosamente imperfeita. E faço questão de que os meus filhos saibam disso. A utopia de uma “mãe do Ruca”, sempre alegre, pedagógica e pronta para brincar e educar, está longe de ser replicada em minha casa. Os meus filhos sabem das minhas conquistas, como mãe, mulher e profissional, do mesmo modo que conhecem os meus fracassos, as minhas dores e as minhas fragilidades. Erro muito, e reconheço-o. Peço-lhes desculpas quando o meu mau-feitio titânico se faz sentir (e que eles já conseguem antever) e explico-lhes sempre por “A+B” o porquê de ter tido comportamentos incorretos.

Vem tudo isto a propósito de há dias me terem dado os parabéns por ser uma mãe perfeita. Acredito que as pessoas dizem isto porque tenho “muitos” filhos. É, aliás, raro o dia em que não me perguntam como consigo conciliar a minha vida pessoal, profissional, social, doméstica e familiar, como seu eu tivesse uma espécie de poderes sobrenaturais. Portanto, imagino que, qualquer mulher com mais de 6 ou 7 filhos, tenha direito a uma estátua em frente à maternidade Alfredo da Costa. Com alguma sorte, mais que 10 descendentes poderá dar lugar a uma estrela no hollywoodesco passeio da fama.

“Não sou, nem quero ser uma mãe perfeita”, respondi à pessoa que me elogiou. Agrada-me muito muito mais a ideia de ter quatro crianças que crescem com uma “mãe humana”. Que chora, grita, refila e erra. Uma mãe que lhes ensina que errar é fundamental para que os caminhos certos se tornem mais óbvios. Uma mãe que lhes ensina a perceber que existe sempre o tal arco-íris atrás das incomodativas nuvens cinzentas, mas que os encoraja a superá-las de forma coerente e verdadeira com os seus próprios princípios.

Gosto muito de pessoas que se assumem como são: seres errantes. E que, para além de o reconhecerem, aprendem, crescem e ainda se riem com isso.

Pois, não acredito em mães perfeitas e pertenço ao grupo de “progenitoras humanas”. E tenho, realmente, muito orgulho disso.

Alda Benamor  

artigo do parceiro: Susana Krauss

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