O tudo no nada

A história e o relato foram marcantes. A dor que ecoava das palavras era acutilante. Mas a força de viver que aquele casal revelava era simplesmente pedagógica

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Hoje, enquanto estava a fazer o jantar, reparei numa sombra esvoaçante que teimava em pairar numa parede da cozinha. Primeiro ignorei, mas, ao reparar no tamanho da dita e no facto de apresentar duas asas evidentes, parei imediatamente o que estava a fazer para tentar encontrar o inseto gigante que teria invadido o meu espaço. Só minutos depois percebi que se tratava de uma pequena mosca que voava em torno do candeeiro, projetando-se como algo radicalmente maior. Pensei imediatamente na analogia mais evidente: a dos dramas da vida. Na quantidade de vezes que nos precipitamos a encarar uma simples dor de cabeça como sendo quase um derradeiro tumor cerebral.

E depois lembrei-me da Lynn e do Len. Um casal mais velho, nascido e criado no Canadá, que conheci há dias numa daquelas casualidades da vida. Eu estava de férias com uma amiga e, num país que nos era totalmente estranho, tivemos a enorme sorte de conhecer estas duas pessoas, com quem partilhámos trivialidades, desabafos gargalhadas e lágrimas durante um magnífico par de horas.

A Lynn parecia, à primeira vista, uma senhora algo fútil. Vestida com uma indumentária apromada, começou por falar na qualidade do chefe de cozinha do hotel em que estava instalada e na magnitude da cozinha francesa que, segundo ela, é a melhor do mundo. O Len, mais discreto, lá ia corroborando as palavras da mulher, não hesitando em avisar que ela gostava tanto de comer como de falar. Não tardámos a comprovar esta confidência quando a senhora começou a relatar praticamente passo-a-passo os seus já quase 70 anos de vida.

Até que ela revelou a mais dolorosa experiência. A da filha que havia perdido. Uma rapariga de 27 anos, com um futuro promissor tanto a nível profissional como pessoal. Uma rapariga muito desejada que fora adotada aos 11 dias de vida por este casal que se julgava incapaz de ter filhos biológicos. Uma rapariga que, quando já mulher, viu uma simples dor de cabeça transformar-se num agressivo tumor cerebral que, qual “mosca” gigantesca, lhe tirou a vida em menos de um ano.

A história e o relato foram marcantes. A dor que ecoava das palavras era acutilante. Mas a força de viver que aquele casal revelava era simplesmente pedagógica. “Passamos um ano a poupar para, no verão seguinte, cumprirmos o que prometemos à nossa filha: aproveitar a vida e conhecer locais por onde ela gostaria de ter passado”. As lágrimas escorreram pelo rosto da Lynn, emoldurando um sorriso sincero de quem sabe que nem a morte apaga a intensidade do amor por um filho. E revelando que toda aquela alegria festiva não era mais que uma homenagem a quem, não lhes tendo sido de sangue, era (e será para sempre) de alma.

Este casal aprendeu, à força, que um inseto gigante pode transformar-se numa mosca milimétrica. E vice-versa. Que as dores violentas, mesmo aquelas que nunca passam, podem ser um convite a uma forma de vida que, sendo diferente, tem também muito de bom para se viver. Com o filho biológico que entretanto acabou mesmo por nascer. Com as duas netinhas que recebem todas as semanas. Com o golf que partilham com amigos. Com as pequeninas coisas que, mesmo tendo sempre feito parte dos seus dias, ganharam um sentido muito especial. Numa emergência de viver que não tira maturidade nem diminui a dor da perda.

Regressei a casa ansiosa por abraçar os meus filhos. Por lhes dizer, uma vez mais, que os amo acima de tudo. E por lhes prometer que qualquer mosca com que nos cruzemos não será mais do que isso. Apenas isso.

Alda Benamor

artigo do parceiro: Alda Benamor

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