O chapéu maternal

Porque as crianças não são sempre maravilhosas…

Há algo de extraordinário nesta coisa que é a maternidade. Obviamente que há as mudanças de rotinas, de prioridades e de vida, para além daquele instinto protetor que parece nascer no mesmo instante em que um pequeno ser sai do corpo da sua mãe. Há tudo isto, mas também há aquilo que eu habitualmente chamo de “chapéu maternal”. É um chapéu de formas e tecidos diversos, com modelos tão distintos quanto as pedras que calçam o chão português. Há os largos, os estreitos, os coloridos e os monocromáticos, que vão enfeitando de forma discreta (ou não!) a cabeça de quem habitualmente se passeia com os filhos no colo ou no coração.

Este chapéu poderia ser igual a qualquer outro, não se desse o fato de apenas dever ser utilizado por quem efetivamente é mãe ou pai. Que me perdoe quem ainda não tem filhos, mas este “chapéu maternal” não tem as medidas certas para quem não viveu ainda o amor por alguém que saiu do nosso sangue, da nossa pele, do nosso corpo.

Quando alguém “sem filhos” me dá conselhos sobre a forma como educar os meus, tenho a mesma sensação que teria caso a freira mais devota da minha paróquia resolvesse organizar um debate sobre as posições do Kama Sutra. Não lhe consigo, simplesmente, reconhecer grande validade.
Bem sei que também eu, quando estava ainda longe de ser mãe, era perita em mandar bitaites sobre os filhos dos outros. Mas hoje reconheço de que terão sido pouquíssimos (ou nulos!) os conselhos que foram realmente acertados. Ou fundamentados, vá.

Já estive com várias pessoas sem filhos que acharam que ficariam bem com o tal “chapéu maternal”. Pessoas que, sem terem nunca acompanhado a educação de uma criança, lá devem ter julgado que isto da maternidade é uma coisa simples e universal, o que lhes daria, pelos vistos, a total autoridade para comentar a vida dos outros. Claro que o chapéu nunca encaixa muito bem nestas cabeças, levando-me a ter já ouvido coisas como esta que nunca esqueci: “devias dar menos beijos aos teus filhos”.

[A sério, há limites para a quantidade de vezes que beijamos os nossos filhos? É que, existindo e estando regulamentado ou registado em alguma obra científica, terei de apresentar queixa dos meus pais, que devem ter feito de mim uma das crianças mais amadas e beijadas de sempre.]

No fundo, tudo se resume a isto: tenho uma amiga que é contabilista numa grande empresa. Assumindo eu que sou especialista em usar os dedos para fazer contas de somar, nunca me atreveria a sugerir-lhe novos métodos de apuramento de resultados contabilísticos. Pelo sucesso do seu negócio, mas, sobretudo, pela saúde da nossa amizade.

O meu chapéu maternal está em permanente aperfeiçoamento. Só o uso há 12 anos e, como tal, nem me arrisco a tecer grandes considerações sobre, por exemplo, o que será gerir adolescentes rebeldes, piercings a saltar daqueles corpos ou os seus primeiros namorados a quererem jantar lá em casa.

Quanto muito, faço como o outro: prognósticos? Só depois do jogo!

Alda Benamor

 

Licenciada e consultora em Comunicação Empresarial, é mãe de quatro crianças. Os filhos dizem-lhe que é a melhor do mundo, mas que não conhecem mais nenhuma mãe que seja assim “tão extrovertida”. Ela reconhece o papel, assumindo que isso afasta, por enquanto, potenciais genros e noras que queiram aparecer para jantar.

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