Nasceu no dia de Santo António

Linda, claro. Perfeita e com os meus genes, que a fizeram nascer com uma constituição “demasiado grande” para o parto que ninguém acreditava poder ser natural.

Conheceu o mundo num choro estridente de quem ameaçava já uma personalidade forte, acalmando-o no instante em que sentiu o cheiro da minha pele. Fixou-me na visão enublada que apenas um amor inabalável consegue perfurar, e contorceu o corpo, colada a mim, quando me ouviu dizer-lhe o quanto já a amava.

Era minha. Há 13 anos, esta bebé tinha saído do meu corpo, sem que nunca tivesse deixado de lhe pertencer. Os meus olhos, o meu cabelo, o meu nariz e os meus sinais replicados num corpo pequeno que, afinal, eu parecia conhecer desde sempre. Ela e aquele cheiro a leite que, tantos anos depois, o meu olfato de mãe ainda lhe descobre por trás das orelhas carnudas e dos longos cabelos dourados que se tornaram a sua imagem de marca.

Há dias, ela surpreendeu-me com a imagem de uma menina-mulher que o convívio diário me parecia camuflar. Espreitei-a pela porta do quarto, e vi-a deitada, a ocupar toda uma cama e a escrever no seu caderno de confidências, com um corpo de formas já adultas que cabem nas minhas roupas de mulher crescida. Um metro e sessenta que ainda “ontem” sobrava nos meus braços.

Esta menina mulher todos os dias diz que me ama. Agarra-se a mim, fecha os olhos e pergunta-me se vamos ficar sempre juntas. “Mas sempre, mãe, mesmo quando fores velhinha?”. Respondo-lhe que sim, que nada nos afastará nunca, sabendo no entanto que pouco falta para que seja ela a querer distância. Para que estes 13 anos depressa se tornem 16, 18, 25. Para que ela pegue numa mala e me informe que vai seguir a sua vida, com as asas soltas e livres que sempre lhe incuti.

Olho para ela e revejo-me ainda, não só no seu corpo, mas sobretudo na sua personalidade. Determinada, sincera, responsável, organizada, convincente. E com uma sensibilidade que é tão fácil de melindrar. É ela fora de mim, mas como se tivéssemos sempre o cordão umbilical, já transparente e inquebrável, a unir-nos em corações que pulsam em separado. Que nos permite um entendimento e uma leitura muda que ninguém consegue entender ou descodificar.

Nasceu no dia de Santo António, e mudou a minha vida para sempre. Por isso, mesmo que “amanhã” ela siga o seu caminho e se esqueça das promessas de uma união indestrutível, esta não será nunca apenas a minha primeira filha. Esta menina, que há 13 anos chamei Mafalda, será sempre a minha parte metade, que me ensinou a maior lição de todas: amar de uma forma realmente eterna e incondicional, e não apenas “até que a morte nos separe”.

Alda Benamor

artigo do parceiro: Susana Krauss

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