Mochila às costas. Sem eles.

Conto pelos dedos de uma mão as vezes que viajei apenas com uma mochila às costas e sem filhos no meu colo. E, por melhor que me saiba uma “escapadinha” sem filhos, a verdade é que o maldito remorso tende sempre em dar sinal.

Há qualquer coisa que quase nos estupidifica quando temos filhos. Mesmo pessoas que, como eu, sempre se assumiram muito liberais e independentes, totalmente autónomas para fazer a sua vida sem pensar no que fica atrás, são de repente assoladas por uma tendência filho-dependente que chega a roçar o ridículo. Pelo menos, por mim falo.

Por ser divorciada, tenho direito a quatro noites mensais sem crianças. Claro que, nesses dias, aproveito para fazer tudo aquilo que, normalmente, a maternidade e a disponibilidade me impedem de fazer nos restantes. Vou jantar a restaurantes diferentes, assisto a peças de teatro “para a minha idade”, visito locais que ainda não conhecia ou aproveito para dançar naqueles locais onde, daqui a poucos anos, com certeza as minhas filhas me pedirão para ir. E não é raro que, nesses momentos em que eu devia pensar em tudo menos nos miúdos, eu dar por mim a imaginar precisamente o quanto eles iriam gostar daquelas experiências. Sou então assolada por dois sentimentos: o da saudade, e o dos remorsos, por me estar a divertir sem eles.

(Lá está: estupidificação absoluta!)

Há 13 anos que viajo com crianças. Já domino a arte de embalar roupas de cinco pessoas, e levar quatro miúdos em viagens de curta ou longa duração já é tarefa fácil. Tal como visitar cidades e seguir roteiros turísticos sempre com eles agarrados às minhas saias, curiosíssimos com cada nova aventura.

Mas conto pelos dedos de uma mão as vezes que viajei apenas com uma mochila às costas e sem filhos no meu colo. E, por melhor que me saiba uma “escapadinha” sem filhos, a verdade é que o maldito remorso tende sempre em dar sinal.

Tenho neste momento ao meu lado uma mala de viagem, um mapa de uma grande cidade e os bilhetes que me levarão para milhares de quilómetros de distância dos meus filhos. Quatro dias. Apenas quatro dias, mas os suficientes para me terem já feito pensar que, se calhar, eu deveria desmarcar este aparente gesto de “egoísmo”.

Saber que me posso divertir longe deles, num destino que ainda lhes é estranho, é coisa que me parece absurdamente anti maternidade. E já sei que, em cada deslumbre que a cidade de destino me assole, em cada gargalhada que vá soltar, em cada fotografia que vá tirar, lá estarão eles os quatro a assombrar a minha lembrança.

Sei que vou regressar carregada de histórias e de saudades, e que os dias que seguintes serão repletos de uma dose extra de mimos, carinhos e paciência. E que eles me receberão de braços abertos, como se tivesse acabado de chegar de uma viagem de mil anos.

Mas o meu coração de mãe, esta ingrata fonte de estupidificação, faz-me partir já com vontade de regressar.

Alda Benamor 

artigo do parceiro: Susana Krauss

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