Filhos e futebol

Há dias, fui assistir ao jogo Portugal-Alemanha. Sem crianças, mas munida de um elevadíssimo espírito nacionalista.

Não sou uma mulher dada ao mundo futebolístico e, deste universo, apenas conheço os nomes daqueles jogadores cujos atributos físicos me parecem bem mais interessantes que os profissionais. Não significa isto, no entanto, que não goste de assistir a um jogo num estádio ou que não torça de cada vez que a nossa seleção joga. Mas confesso que, mesmo aí, passo 90 minutos a avaliar mais as pernas dos jogadores do que a sua prestação em campo, ou a ansiar por um belo de um pão com chouriço diretamente saído da bancada do senhor Manel, enquanto percebo que a última coisa que os adeptos sentem é o estômago a dar horas. Sou um péssimo elemento da torcida futebolística, ansiando sempre pelo minuto em que o jogo finalize e o resultado seja finalmente público (afinal, o pão com chouriço espera-me ansiosamente à saída de qualquer estádio).

Há dias, fui assistir ao jogo Portugal-Alemanha. Sem crianças, mas munida de um elevadíssimo espírito nacionalista, que obviamente me fazia torcer pelos Ronaldos e Coentrões que parecem fazer esquecer – mesmo que apenas pontualmente – a desgraça em que este país se encontra. Sentei-me numa relva desconfortável, rodeada de milhares de pessoas que nunca vi antes, e fui levando com o palavreado interdito a menores de 18 e com o cheiro a ‘maconha’ que nascia a 10 metros de mim. Um, dois, três golos depois, os adeptos nacionais revoltavam-se contra as injustiças do árbitro e da vida, como se a subsistência das famílias endividadas disto dependesse. Ao quarto golo da equipa adversária, estava já instalado um total desânimo, que se manifestava em lágrimas desenfreadas, palavrões incontroláveis e mais um ou outro “cigarro ilegal” que, com sorte, poderia aliviar a dor dos mais deprimidos.

E eu, ali sentada no meio daquela relva quente e espalmada, apercebi-me que o futebol não é assim tão diferente da maternidade. A entrada dos jogadores em campo, inchados do protagonismo e da esperança, é como a altura em que nos entregam um bebé nos braços e em que nos sentimos as estrelas de um palco onde só tudo de bom pode acontecer. O bebé é lindo, encaixa perfeitamente no nosso colo e os esgares de sorriso naquele rosto bolachudo só nos faz acreditar que a vitória é o caminho mais óbvio. Até que ele chora. Berra, esperneia, faz birras para comer, dormir, brincar e simplesmente respirar. E aí percebemos que, afinal, o jogo pode ser bem mais difícil do que esperávamos. Sofremos o primeiro golo quando a depressão pós-parto bate à porta, o segundo quando percebemos que não voltaremos tão cedo a dormir uma noite inteira, e o terceiro quando outras “profissionais da maternidade” insistem em exibir os seus bebés calmos e bem comportados, e a sua vida isenta de roupas bolsadas e olheiras indisfarçáveis. São as “alemãs” do campeonato maternal que, por trás daquela aparência simpática e cordial, escondem afinal uma tática de jogo tremendamente feroz, cruel e perigosa. E, nisto, o árbitro lá de casa (vulgo marido ou companheiro) lá vai acenando ocasionalmente o cartão amarelo quando acha que estamos a autoinfligir-nos e, com alguma sorte, o vermelho quando se oferece para assumir ele uma noite a velar o sono e a alimentação do bebé.

A maternidade é, afinal de contas, um campeonato quase eterno e que, tanto para sorte como para azar, não nos leva para o centro do relvado (e das dificuldades) apenas de quatro em quatro anos. Vivemos vitórias constantes e derrotas também frequentes, com a diferença de que, a não ser por alguma grande atrocidade, não aparecemos nas capas dos jornais nem somos patrocinadas por marcas de roupa interior ou de champôs para a caspa. Com alguma sorte, lá recebemos de vez em quando umas amostras de fraldas ou toalhitas, que abraçamos sempre como se tivéssemos também acabado de receber a mais invejada bola de ouro.

Depois desta viagem pelo criativo mundo da minha imaginação, o jogo terminou e eu abandonei aquele espaço onde já apenas restavam vestígios de tabaco, cerveja e lágrimas com uma gargalhada sarcástica a ecoar no meu cérebro. Afinal, a derrota dos nossos portugueses estava a escassos segundos de se transformar em infindáveis notícias críticas e contestatárias por este mundo fora.

Já eu (bem como todas as outras mães), que erro constantemente neste jogo da maternidade, tenho todos os dias a oportunidade de recomeçar e de conquistar uma vitória. Daquelas que valem mais que o banco onde se pode ganhar o mesmo que o Ronaldo.

Alda Benamor

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