Eu também engulo sapos. Quase literalmente.

Talvez por sempre termos tido animais, os meus filhos adoram tudo o que seja bichos. Sim, bichos. Mesmo daqueles repugnantes, cheios de patinhas espetadas e carapaças crocantes.

Nunca me hei-de esquecer do dia em que, tendo um gafanhoto dentro de casa, os meus filhos impuseram logo a regra de não o matar, tendo pegado no bicho com quase tanto carinho como aquele que eu lhes tenho dado desde que nasceram.

Vivo tranquilamente com isto, até porque sei que estes meus filhos mais novos acabam por ser a minha salvação sempre que alguma bicharada aparece por perto. “Tiago e Tomás, está um lagarto na cozinha!”. “Tiago e Tomás, há um gafanhoto na porta da entrada”. E nestas situações – não sei se pela sensação de me protegerem ou apenas pelo poder viril que tal arrojo lhes dará - lá vão eles sempre de peito erguido livrar-me de “todo o mal” rastejante.

Cá em casa, temos dois gatos, dois cães e uma tartaruga, sendo que, até há poucos meses, também chegámos a ter pássaros, peixes, porcos-da-índia, coelhos, esquilos e ratos (pois, ratos…). Sentimos que a nossa família somos nós e estes nossos cinco animais, mas eu, muito sinceramente, acho que fechei a loja no que diz respeito a aumentar o número de membros com mais de duas pernas. A responsabilidade, a dedicação e o investimento são demasiado elevados para que eu consiga, no final de cada dia, ainda ter tempo e dinheiro para beber um simples café.
Mas, há dias, os meus filhos tinham ido brincar com um amigo, quando, a dado momento, apareceram extasiados à porta de nossa casa, com uma caixa na mão.

- Tu não imaginas o que encontrámos!

Pensei em tudo. Podiam ter encontrado algum brinquedo. Ou, com alguma sorte, um conjunto de notas de 500 euros. Mas não. Mal os meus filhos abriram a caixa, vi a Mikas. E a Mikas não era mais que um pombo com uma asa magoada que eles encontraram na rua. Durante uma semana, a Mikas foi a grande distração destes miúdos. Mal acordavam iam dar-lhe migalhas e água, depois do almoço iam tratar-lhe a asa e, no final do dia, dedicavam-se a reensiná-la a voar. Com a graça dos anjos das aves, a Mikas conseguiu voar em direção a outras bandas ao fim de sete dias.
Entretanto, as crianças foram passar uns dias com o pai. E, numa bela manhã, resolveram telefonar-me fora do horário habitual.

- Mãe, encontrámos dois sapos bebés! Podemos levá-los para casa?

Obviamente que não. Obviamente que eu não queria dois sapos viscosos a atrapalhar o meu caminho quando, a meio da noite, eu me levantasse para ir à casa de banho. E obviamente que nem me passava pela cabeça ter de tocar neles. Mas…

- Ok, tragam lá os sapos…

No final da tarde, chegaram os meus filhos, com um entusiasmo desmedido e uma garrafa de água turva nas mãos. Pedi para ver os dois sapinhos e espantei-me ao ver não dois, nem três, mas antes 13 sapos em fase de transmutação. 13 bichos fugidios que me fizeram torcer o nariz e segurar no estômago, sentido um mar de girinos a invadir-me as entranhas.

Por isso, neste momento tenho quatro filhos, dois gatos, dois cães, uma tartaruga e 13 sapos bebés. E, qual mãe sofrida e enjoada que vê 13 anfíbios num aquário de cada vez que entra na cozinha, procuro desesperadamente uma excelente desculpa para que estes novos membros retomem rapidamente à sua casa-natal.

 

Alda Benamor 

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