Dizer não: Quando temos que ceder

Por vezes confesso que sou eu a primeira a ceder. Claro que se for uma situação que veja que não há perigo, que não magoa, não parte não estraga, às vezes tenho que ceder.

Tenho um bebé de 16 meses em casa. Um bebé que, apesar de dormir  que nem um anjo, de dormir tranquilamente e profundamente tanto à noite como durante o dia, não pára quieto um minuto que seja.

Este bebé, que dorme que nem um anjo, tem uma especial apetência para qualquer objeto, móvel, peça, brinquedo, tudo o que seja considerado de possivelmente perigoso.  Este bebé, que descansa tranquilamente no vale dos lençóis, adora porém, escalar sofás, trepar prateleiras,rappel nas cadeiras, salto em altura de tudo o que tiver mais de 70cm. Este delicioso bebé, que deixa dormir (e muito ) os pais e o irmão, tem um certo fascínio de enfiar os seus dedinhos pequeninos e gordinhos em todos os orifícios que encontre, sejam eles no nariz, olhos e ouvidos (do próprio ou alheios), tomadas elétricas, frinchas de portas, gavetas mal fechadas, armários entre-abertos.

Este meu querido bebé, que me presenteia com noites inteiras para dormir e sestas prolongadas durante as tardes, tem uma aptidão natural,  para se meter em locais bizarros, em cantos estreitos e apertados, em descobrir meios (que todos desconhecíamos) para atingir certos objetos, em colocar-se em posições estranhas e que requerem para além de destreza muita flexibilidade corporal.

E como conclusão, passo o dia a dizer "não", "não mexas", "está quieto" e todas as variáveis e conjugações  possíveis destas frases.  Ouve repetidamente o mesmo, que sei que sabe o seu significado, mas reage como se tivesse ouvido o oposto. Claro que não há um teimoso sozinho e ficamos os dois frente-a-frente, num braço de ferro invisível a ver qual é de nós cede mais cedo.

Por vezes confesso que sou eu a primeira a ceder. Claro que se for uma situação que veja que não há perigo, que não magoa, não parte não estraga, às vezes tenho que ceder.

Digo "tenho" que ceder, porque na minha consciência pesa-me o facto de estar sempre e constantemente a dizer não, e todas as variáveis desta imposição. Pesa-me saber que a maioria das palavras que ouve é o não. E sinto a responsabilidade  de ter que dar-lhe liberdade ( embora que controlada e vigiada), alguma abertura para explorar, para conhecer, para aprender.

As crianças precisam de descobrir e de se aventurar. Precisam de estímulos , de desafios, e de curiosidade para se desenvolverem e crescerem. Não podemos (ou pelo menos não posso) fechar o círculo à volta do bebé, criar uma redoma, uma bolha de segurança e privá-lo de aprender, de viver. Mas também não posso criar um adepto da república das bananas. Como mãe, sinto que tenho a obrigação de dar asas aos meus filhos para aprenderem a voar e protegê-los dos perigos. Sinto que tenho que dar-lhes as "ferramentas"  e deixar que desbravem caminho, mas ao mesmo tempo dar a proteção necessária  que as crianças requerem para se sentirem em segurança.

Claro que tem que haver regras, regras pelas quais não posso mesmo ceder, regras que conduzem a comportamentos seguros e socialmente corretos e aceites. Mas dou por mim a ter que "escolher" em quais terei que ceder, e nas quais não posso fechar os olhos. A ter que gerir um equilíbrio harmonioso tanto para mim como para ele, a dar alguma coisa mas não tudo, a repreender seletivamente mas deixar espaço para cultivar o interesse, a curiosidade, o desenvolvimento.

Marta Andrade Maia

My baby blue blog

artigo do parceiro: Marta Andrade Maia

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