A praxe: Das coisas que não percebo

Leio aqui, leio acolá, uns contra e outros tantos a favor. Agitação e exaltação da maioria e silêncio (inexplicável) de outros. Manifestações para provar uma questão, que por muito que tente perceber, simplesmente transcende-me.

Não consigo compreender como à luz dos trágicos acontecimentos de dezembro passado, a infelicidade ocorrida na praia do Meco, onde seis estudantes universitários perderam a vida em supostos rituais da praxe, ainda há (muitas) pessoas que defendem a praxe com unhas e dentes, e afirmam que não deverá ser erradicada.

Analisando por partes, e vendo por agora só o ato da praxe em si, parece-me algo estranho e até absurdo como é que é delegado em jovens de vinte e poucos anos, que pouco da vida sabem, acabadinhos de sair da casa dos pais, sem quaisquer conhecimentos em psicologia, em relacionamentos intrapessoais e team-building, sem nenhuma avaliação psicológica feita previamente (por especialistas), sem experiência nenhuma em cargos de liderança e gestão de pessoas, sem know-how em sistemas de motivações pessoais e recompensas - basicamente sem saberem nada sobre nada - a árdua tarefa de fazer com que um grupo de outros jovens de vinte e poucos anos se sintam integrados, motivados, e com espírito de equipa e união.

Ora, pessoalmente encontro vários problemas neste primeiro passo. Problemas graves, e que possivelmente foram a origem das várias tragédias já associadas  a rituais da praxe. Como é que miúdos sabem liderar outros miúdos? Se já experientes CEO's por vezes se depararam com obstáculos neste campo e vêem-se forçados a recorrer a (verdadeiras e reconhecidas) equipas de experts na matéria, porque é que nós, povo português , achamos que a nossa camada jovem está melhor preparada do que estes tubarões empresariais? Consideramos nós que temos em Portugal, a nata dos adolescentes iluminados que nasceram com conhecimentos e sabedoria infinita?

É do conhecimento geral que os rituais da praxe giram à volta da humilhação, da vergonha, do uso de força e de pressões psicológicas por vezes agressivas. Mesmo assim, todos aceitaram que este modelo de liderança e de integração é superior aos modelos usados nos países considerados de primeiro mundo e mais civilizados do que o nosso.

Abraçamos assim a  ideia que estamos a formar futuros líderes assentes no principio humilhação, do castigo, e da opressão.  Não haverá problemas futuros derivados deste principio? Serão estes os líderes que devermos ter?

Em vez do cenário negro e  cinzento que é típico da praxe, com os caloiros de quatro, insultados, e a olhar para o chão, porque não usar festas para promover a integração? E porque não usar eventos desportivos ou lúdicos para fomentar o espírito de equipa? E porque não olhar para os países mais avançados do que nós, e limitar a copiar as ideias com resultados já provados?

Mas, o que me ainda me espanta mais, é como à luz destes acontecimentos recentes,  com conhecimentos que houve mortes, casos de tetraplégicos, casos de existências de traumas profundos, e outros tantos episódios infelizes, é como conseguem arranjar forças para defender convictamente que a praxe deve ser mantida.

Mas será que ainda não aprendemos?

Quantas mais famílias terão sofrer?

Marta Andrade Maia

My baby blue blog

artigo do parceiro: Marta Andrade Maia

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