“O Made in Portugal no têxtil é sinónimo de qualidade”

Entrevista a Paulo Vaz, director geral da Associação de Têxtil e Vestuário de Portugal

A indústria têxtil e de vestuário em Portugal representa 11 por cento do total das exportações nacionais. Como tem enfrentado os tempos menos áureos da nossa economia?

A ITV portuguesa tem demonstrado uma grande capacidade de resistência à adversidade, adaptando-se, reestruturando-se, reinventando-se, de modo a poder continuar viva e mais forte, o que neste caso significa mais competitiva e mais concorrencial quando enfrenta a concorrência externa. Muitas empresas não têm resistido aos sucessivos choques que o Sector vai enfrentando – a abertura do comércio mundial entre 1995 e 2005, a crise económica e financeira internacional em 2008, por exemplo -, mas as que se modernizam tecnologicamente, apostam na excelência da gestão, em maior agressividade comercial e nos mercados externos, suportadas por uma grande intensidade de serviço e em fatores críticos de competitividade (moda, marca, logística, etc.), têm conseguido superar sucessivamente as dificuldades e encontram-se hoje na primeira linha daquelas que contribuem para a recuperação económica do país.

Que medidas podem ou estão a ser tomadas no sentido do sector se prevenir ao máximo da crise?

Três grandes áreas constituem as prioridades de ação da ATP para o sector, consubstanciando-se em medidas consequentes: o financiamento às empresas (mais fácil e mais barato), o crescimento dos negócios (pelo aumento do esforço exportador e pela substituição das importações, já que o mercado doméstico afetado pelas medidas de austeridade será terreno difícil para este propósito) e a melhoria da competitividade das empresas (pela diminuição dos custos de contexto em que as empresas operam, permitindo que estas possam ter produtos concorrenciais à escala global). Muitas das medidas necessárias, nomeadamente as de cariz estrutural, encontram-se consignadas no Memorando de Entendimento que Portugal celebrou com a “troika”. São medidas duras, mas absolutamente necessárias para realizar o saneamento financeiro do país e lhe permitir que se apresente mais ágil e competitivo, pois só assim pode voltar a crescer e gerar emprego.

Qual o papel da Associação nesta fase?

O papel da ATP nesta fase é posicionar-se como parceiro social e económico do Governo, sempre com sentido de independência e crítico, para que as medidas necessárias a promover a competitividade do Sector possam ser postas em prática. Este é um tempo de fazer. O tempo das palavras já se esgotou e tudo o que havia para dizer já está dito. Agora é tempo de executar e de realizar, pois a situação extrema a que chegamos, enquanto país, assim o exige.

As feiras e os salões internacionais têm contribuído para a internacionalização dos produtos?

Estamos certos que sim. A nossa aposta na internacionalização das empresas, implementando importantes programas de participação em feiras e missões comerciais, tem servido para conservar os mercados tradicionais do sector, mormente a Europa e os Estados Unidos, mas, igualmente, penetrar em novos destinos, agora vulgarmente designados como emergentes, e que já constituem importantíssimos mercados de consumo e com um potencial gigantesco de crescimento. A América Latina e a Ásia estão assim na diversificação mais prioritária das exportações têxteis nacionais, consubstanciada pela presença cada vez mais intensa de empresas nas feiras têxteis e de moda nesses países. Os números muito positivos das exportações têxteis e vestuário português, nos tempos mais recentes assim o demonstram: mais de 6% em 2010 e mais de 12% só nos primeiros 5 meses deste ano.

Os costureiros internacionais já procuram tecidos portugueses. É verdade?

Sempre procuraram. A Têxtil portuguesa tem uma reputação feita de décadas de trabalho. Felizmente esse reconhecimento começa a chegar ao cidadão comum e a Têxtil nacional a ser valorizada pelos portugueses como nunca antes o havia sido. O “Made in Portugal” no têxtil, tal como no calçado, é sinónimo, à escala global de produto de alta qualidade, disputando mercados neste nível com a Itália.

E a introdução de tanto vestuário de marca, por exemplo, espanhola. Como é que isso influi na nossa mão de obra têxtil?

A Espanha possui, mais do marcas reputadas, excelentes modelos de negócio no retalho moda, de que são bons exemplos a Zara ou a Mango. Sendo ofertas de produto moda, muito atrativas pelo preço, pelo design das coleções, pelos espaços das lojas e pelo serviço associada, tornam-se um êxito extraordinário, não apenas em Portugal mas em todo o mundo. Uma boa parte da Indústria Têxtil e Vestuário portuguesa, especialmente a que trabalha em “private label” ( subcontratação para marcas estrangeiras ) tem beneficiado desse facto, pois as marcas espanholas encontram na proximidade geográfica e cultural da nossa fileira uma vantagem que aproveitam, especialmente no que se refere aos produtos mais sofisticados e que exigem um “lead time” mais curto. A proximidade, a flexibilidade e a resposta rápida, são, sem dúvida um grande ativo que a ITV portuguesa possui e que as marcas espanholas deixam de aproveitar em benefício mútuo.

Quais os objectivos da ATP para este ano?

Os objetivos da ATP para este ano é possibilitar que a ITV portuguesa continue a crescer, especialmente no mercado externo, ajudando a recuperação económica do país, gerando e distribuindo riqueza, assegurando empregos e auxiliando a coesão económica e social do país, tão importante no momento difícil que vivemos. A execução de um forte programa de apoio à presença de mais de 120 empresas do Sector nos mercados externos, em cerca de 50 feiras e 12 missões, representando um investimento partilhado de quase 8 milhões de euros, é a prova do nosso empenho e nosso trabalho concreto. De igual modo, a apresentação de um conjunto de medidas, entre as quais se incluem a continuidade dos já citados programas de internacionalização, para estímulo à atividade empresarial e ao crescimento do sector fará parte da agenda, a trabalhar com o Governo, e que será apresentada depois do Verão.

artigo do parceiro: Nilza Rodrigues

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