O fado da Nisse

Estando longe de casa, conseguimos ver e absorver o que nos rodeia de uma forma totalmente diferente, o que faz com que exista uma outra perspetiva sobre a vida.

A vida é, de facto, efémera e devemos preservar e dar valor aos momentos simples e mágicos que nos passam à frente dos olhos, vivendo cada dia, de cada vez, bem ao jeito da célebre frase, um tanto caída em cliché “Carpe Diem”.

Com o ritmo tão intenso de gravações da novela "Escrava Mãe", de 2ª a sábado, das 8h às 23 horas (hora à qual normalmente chego a casa) e para evitar “Torres Eiffel” de pratos no lavatório, tive de contratar uma senhora que me viesse fazer umas limpezas e cuidar da roupa, uma vez por semana.

De seu nome Nisse, vejo uma senhora baixinha, magra, de coluna curvada e com um sorriso maior que a própria cara, que lhe marcam as profundas rugas de um rosto que, sem trocarmos uma palavra, se adivinha sofrido e com uma história de vida um tanto pesada. Começa por me pedir repetidas desculpas por ter chegado atrasada, mas não encontrava a rua de minha casa. Por outro lado, o autocarro, onde viajou durante 3 horas, tinha-a deixado longe do destino. Apressou-se a calçar as havaianas, tamanho não maior que 34 que tinha na mala de tira-colo, e perguntou-me: “Por onde o senhor quer que eu comece?”.

Entre vidros e panelas, pó e roupa para passar, ia cantarolando umas músicas brasileiras, em tom baixinho, que eu desconhecia.

Enquanto eu fazia a decopagem dos episódios da novela, aquela senhora que andava de um lado para o outro foi-me causando alguma curiosidade.

Entre poucas frases, mal construídas, disse algo que me tirou a atenção daquilo que estava a fazer e me deixou gélido e sem reação. O seu filho mais novo, teria exatamente a minha idade, caso fosse vivo.

Os seus olhos rapidamente se encharcaram, embora com uma emoção contida, habituada com o passar dos anos a não desmoronar, talvez, ou por já ter desmoronado por completo.

O seu filho tinha sido assassinado aos 16 anos, na rua da sua humilde casa, de telha descoberta, onde ainda hoje vive, por um gangue de rapazes que eram a sua companhia de brincadeiras de rua. Todos os dias a Nisse vai para aquela mesma casa. Passa por aquela mesma rua. Desde que cheguei ao Brasil que me deparei com esta triste realidade. Nos noticiários é presença assídua a notícia de assassinatos.

Estou verdadeiramente apaixonado por estas gentes, pela cultura brasileira, pelo samba no pé, mas adoraria ter em mim o poder mágico de conseguir acabar com a violência que ainda se faz sentir em algumas favelas ou bairros. Parece quase estúpido ou até infantil dizê-lo, mas, não sei, custa-me aceitar que nos dias de hoje, para alguns, a vida valha tão pouco ao ponto de alguém, por qualquer motivo supérfluo, decida tirá-la a outro ser semelhante.

Fiquei impressionado com esta história. É a primeira vez que me deparo com uma realidade assim e logo eu que acredito que viver é uma dádiva e viver com saúde, uma benção.

O Brasil é isto. Uma triste realidade num país lindo.

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artigo do parceiro:
Pedro Carvalho

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