Ágata: "Não deixo que ninguém me humilhe, nem que me julgue loira burra"

Ágata conta com quase 45 anos de carreira recheados de momentos bons e momentos maus, públicos e privados que sempre se misturaram, fazendo da vida da cantora um livro aberto para os fãs. Em entrevista ao Vozes ao Minuto, a artista recorda o passado, mas deixa claro que é importante acompanhar as mudanças do presente para não perder lugar no futuro.

Tinha 14 anos quando o primeiro disco gravado e, desde então, Ágata não tem parado. Convites para espetáculos não faltam, afinal todos se lembram de grandes temas como ‘Perfume de Mulher’, ‘Maldito Amor’ ou ‘Comunhão de Bens’.

O último single tem uma sonoridade diferente pois, explica, é preciso acompanhar os ventos da mudança e admite que é o filho Francisco que a tem influenciado a adotar estilos musicais mais modernos.

Quanto à sua carreira, Ágata garante estar realizada e, por isso, não tem ideia de fazer qualquer dueto. Relativamente aos colegas músicos, a cantora, que já conta com 44 anos de carreira musical, diz faltar “partilha” e lança ainda críticas a quem prefere os playbacks.

Como é que nasceu o amor pela música?

Já canto desde que me conheço. Pulava para cima das cadeiras e punha-me a cantar. A minha avó era professora e levava-me para escola e eu cantava nas festas todas.

Então teve o apoio da família desde cedo.

Sim, da minha mãe e da minha avó. Pagavam-me um professor de canto, frequentei uma escola de arte e assim comecei desde muito cedo a frequentar uma escola de música.

Fez parte das Cocktail e depois das Doce. Como foram esses tempos?

Foram muito interessantes. Trabalhar em grupo, dividir o palco com outras pessoas é super interessante porque conseguimos fazer coisas mais bonitas em termos vocais. E na altura éramos nós que preparávamos as nossas coreografias e desenhávamos os nossos fatos.

Gostou muito dessa experiência, portanto.

Adorei.

Mas não voltou a repetir.

Não, porque o meu plano era mesmo a minha carreira a solo.

Mesmo antes de entrar para as Cocktail?

Estive oito anos nas Cocktail. Quando deixei o grupo tinha duas lojas de desporto e uma padaria e estava pronta para começar a minha carreira a solo. Mas então fui convidada. No início fiquei um pouco reticente, porque estava mesmo pronta para arrancar com a minha carreira a solo, mas como vi que elas estavam com dificuldade em arranjar alguém decidi aceitar.

Naquela época não era como é agora em que se dá um pontapé numa pedra e aparecem 500 pessoas a cantar

Estavam com dificuldades porquê?

Naquela época não era como é agora em que se dá um pontapé numa pedra e aparecem 500 pessoas a cantar. Naquela altura não havia muitas mulheres para cantar e dançar e, então, aceitei o convite e atrasei a minha carreira a solo em dois anos.

É mais difícil gerir uma carreira a solo ou em grupo?

Acho que é mais difícil em grupo. Em grupo são muitas cabeças a pensar, muitos caminhos por onde ir. E numa carreira a solo não. Decidimos por nós, ou pelo manager. Temos sempre alguém que nos ajuda, mas num sentido só.

O nome Ágata só surge depois das Cocktail e das Doce...

Sim, nessa época mantive sempre o meu nome de batismo.

E porquê assumir o nome Ágata na carreira a solo?

Foi um nome que sempre fez parte de mim. Nunca aceitei muito bem o meu nome de batismo e o nome Ágata surgiu assim como se viesse do céu. Surgiu como uma ideia luminosa, como se esse nome fizesse parte da minha pessoa.

Hoje em dia ainda há quem lhe chame Fernanda?

Não, ninguém. Nem mesmo a família e há muitos anos.

Então se alguém passar por si e a chamar de Fernanda não vai responder?

Não, não irei responder porque não me identifico. Já não estou habituada a esse nome. É uma coisa tremenda, não consigo identificar-me.

A certa altura teve o programa televisivo ‘O Meu Nome é Ágata’. O que retira dessa experiência?

Essa foi uma altura muito má. O meu pai estava muito doente e acabou por morrer. Eu estava com muito pouca paciência e, além de tudo, acho que a SIC tinha um produtor que não deixava fazer o meu dia como eu queria. O meu dia era muito mais interessante do que aquele que ele escrevia.

Sou muito boa pessoa, mas quando me põem o pé em cima 'cai o Carmo e a Trindade'

Então as imagens que passavam para nós não eram verdadeiras?

As imagens eram organizadas. As visitas eram organizadas pela produção e não por mim. Idas aqui, idas acolá eram escolhidas pela produção e eu achei que não estava correto. Achava que eles estavam a querer troçar da minha pessoa. Sou muito boa pessoa, mas quando me põem o pé em cima ‘cai o Carmo e a Trindade’. Não deixo que ninguém me humilhe, nem que me julgue loira burra. Eu sou uma mulher muito humilde, mas de burra não tenho nada.

Arrependeu-se da exposição pública a que se sujeitou, em especial com este programa?

Não, nunca me arrependo do que faço. O programa foi muito bom para mim porque as pessoas pessoas ficaram a saber o tipo de pessoa que sou. Não me recordo de todo o programa, mas lembro-me que houve uma visita que eles marcaram e que eu não gostei e então saí logo do programa.

A sua vida sempre foi muito pública. Sabemos que teve de lidar com situações complicadas como a dependência das drogas por parte do seu irmão. Como lidou com isso?

Todas as vidas têm altos e baixos. O meu irmão estava doente e precisou da ajuda de pessoas especializadas, de clínicas. E ainda bem que assim foi porque depois de ter a filha, e até aos dias de hoje, nunca mais necessitou desses químicos. No fundo, a droga não deixa de ser uma doença, é um vício, uma dependência. Mas não quer dizer que as pessoas que se entregam a essa dependência sejam más pessoas. O que tenho detetado é que as pessoas melhores, mais frágeis, mais puras e mais sensíveis são as que muitas vezes se perdem rapidamente. São as fracas de espírito.

Como foi ver o seu irmão nesta dependência?

Foi muito difícil, muito difícil mesmo. Nessa altura gravei um tema num dos meus álbuns dedicado a ele e tudo. Estive sempre presente, ajudei sempre a minha família.

Nunca me arrependo do que façoEstá tudo normalizado com a sua sobrinha Romana?

O que lhe posso dizer é que, muitas vezes, as revistas procuram arranjar conflitos onde eles não existem. A única coisa que posso dizer é isso. Porque as pessoas para venderem têm de arranjar manchetes que mexam com a curiosidade do público. Dão a volta a tudo.

Então não houve qualquer conflito com a sua sobrinha?

O que temos de fazer é respeitar as opções da família, seja quando anda ocupada, quando anda com trabalho, apaixonada… eu também tenho guerras com os meus filhos, mas não são guerras de andarmos à ‘trolitada’ um com o outro.

Em 2014 anunciou o fim da sua carreira. O que a fez mudar de ideias?

Às vezes precisamos de tempo para respirar, para pensar e repensar e ter mais vivências para podermos continuar. Nessa época tive vontade de desistir. Achei que os espetáculos estavam todos a ser muito competitivos e as ofertas eram feitas pelas pessoas e não éramos nós que dispúnhamos do nosso trabalho.

O novo single, ‘Tá Bonito’, tem uma sonoridade diferente das músicas a que a Ágata nos habituou. Porquê esta mudança?

Temos de nos atualizar. Temos de parar, ver o que está à volta e tentar fazer algo que acompanhe os tempos.

Mas o que alavancou essa mudança?

O meu filho tem um estúdio de gravação e está ligado à música ligeira, pop, romântica, R&B… Trabalha com muita gente e vai-me influenciando, tanto que resolvi fazer um ‘featuring’ com o rapper Danito dos SoundPlay. São influências da malta mais moderna. Acho que ficou giro, gosto do som e dá outra sonoridade e, graças a Deus, está a ter muito sucesso na internet.

Como vê o panorama musical português nos últimos 20 anos?

Tenho reparado que, de tempos a tempos, há sonoridades que entram na moda. Às vezes é o slow, outras vezes é o rock, a kizomba… tudo tem o seu tempo e as pessoas apostam sempre nos novos sons. A tecnologia também vai avançando e temos de acompanhar os novos tempos e a tecnologia.

Acha que de há 20 anos para cá a atenção que é dada à música nacional tem vindo a diminuir?

Acho que não. Cada vez mais aparece gente interessada em cantar em português, a escrever, a compor, gente com muita capacidade, com muito talento, gente jovem que sabe cantar português e isso é uma coisa que me deixa muito feliz.

A música popular tem vindo a perder terreno?

A música popular continua a fazer parte de muitos artistas, de todas as festas, porque é uma tradição. É como o fado, o folclore português, a música romântica.

Uma das coisas que devia ser abolida era o playback

É possível viver só de música em Portugal?

Depende, mas julgo que não. Poucos são aqueles que vivem só da música, exceto algumas pessoas que realmente têm uma sorte estrondosa, mas também a sorte é passageira. Os CDs deixaram de se vender, a pirataria começou a crescer cada vez mais, as editoras começaram a perder terreno e as coisas começam a complicar-se, está tudo disponível na internet. E não só. Por exemplo, uma das coisas que devia ser abolida era o playback.

Porquê?

Porque há muitos músicos com imenso talento no nosso país que estão sem emprego, estão em casa e têm de recorrer a dar aulas de música porque não têm concertos.

E isso acontece porquê?

Porque as pessoas que contratam os artistas acham que é mais simples e mais barato fazer playback do que ter uma banda em palco.

A Ágata não vive só da música?

Graças a Deus não. Tenho o meu património.

Há algum artista com quem gostaria de trabalhar e nunca teve oportunidade?

Neste momento sinto-me realizada com a minha carreira. Já fiz muitos duetos com muita gente e agora não tenho ideia de fazer duetos com ninguém ou partilhar o palco com alguém. Se acontecer, acontece. A música é uma dádiva e quando há necessidade de fazer uma partilha musical isso sente-se.

Algum artista com quem tivesse trabalhado e com quem jamais voltasse a trabalhar?

Não. Sou uma pessoa que não gosta de criticar ninguém. Cada pessoa tem o seu método de trabalho e cada pessoa é livre de fazer o que quer e eu tenho de respeitar.

Não me misturo, estou no meu cantinho, não falo mal de ninguém. Já ando aqui há muitos anos e ninguém tem nada a apontar

Os cantores dão-se bem entre si?

Acho é que devia haver mais partilha entre os colegas e sinto que não há. Acho que não são verdadeiros, não gostam de partilhar. Nem todos são aquelas pessoas que gostaríamos de encontrar. Por isso eu não me misturo, estou no meu cantinho, não falo mal de ninguém. Sempre levei a minha vida desta forma. Já ando aqui há muitos anos e ninguém tem nada a apontar.

Não gostam de partilhar em que sentido?

Por exemplo, há uma série de colegas meus que só faz programas durante a manhã ou a tarde e à noite não é convidada. Ou seja, quando há galas, por exemplo, são sempre os mesmos que são convidados. Até pessoas que não cantam aparecem a cantar… e mal. Devia haver programas para as outras pessoas, não deviam ser sempre as mesmas pessoas no mesmo tipo de programa.

artigo do parceiro: NM

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