Manuel Marques: “O meu avô Francisco foi quem mais me incentivou a seguir aquilo que eu gosto”

Manuel Marques tem 40 anos. A sua infância esteve bastante relacionada com Setúbal. Trabalhou com o Herman José nos programas Herman SIC e Hora H entre outros. É irmão da apresentadora de televisão Ana Marques e é uma presença constante, tanto da televisão como nos palcos.

Retratos Contados (R.C.): Os Retratos Contados apresentam-se como um projeto único, diferenciador e inovador uma vez que nos focamos numa área diferente do habitual. O nosso objetivo é falar das ligações entre avós e netos, a importância dos avós na vida dos netos e vice-versa. O que é que achas de um projeto como este?

Manuel Marques (M.M.): Eu acho fantástico e ao mesmo tempo maravilhoso! Eu tive avós que foram determinantes para ser a pessoa que sou hoje. Os avós não têm a mesma responsabilidade dos pais. Portanto, a relação dos avós com os netos é uma coisa mais lúdica e educativa e ao mesmo tempo mais leve, mais divertida, com menos responsabilidade do que a educação que é transmitida pelos pais. Os meus avós, por exemplo, foram determinantes na minha educação, até em termos de carreira o meu avô Francisco foi quem mais me incentivou a seguir aquilo que eu gosto!

R.C.: Através deste site queremos ainda falar do envelhecimento ativo, do abandono dos idosos, dar a conhecer atividades para ser feitas pelos mais velhos… Quando olhas para o nosso país, como é que vês a população mais velha? Quando ouves num noticiário que mais um idoso foi abandonado, mais um idoso foi vítima de violência… Achas que deveria ser necessário uma revolução de valores?

M.M.: Eu não consigo perceber com esta distância, nem sou especialista … nem sei o que é que isso provocará. Vai provocar problemas com certeza na Segurança Social. Em termos de saúde, eu creio que os cuidados de saúde também melhoraram muito. Agora com outro problema grave, as pessoas mais novas não vão conseguir nem criar riqueza nem ter capacidade para tomar conta de todos os idosos e de todas as pessoas mais velhas. Isso é capaz de ser um grande problema. Essa coisa horrível do abandono de idosos em hospitais é cada vez mais normal.

R.C.: Que diferenças sentes entre os avós que vivem nos grandes centros urbanos e os outros que vivem em meios mais rurais?

M.M.: Eu tenho a sensação (se calhar estou errado), que no interior e nas aldeias é de certa forma mais fácil ser idoso do que numa grande cidade. Eu vejo os idosos em Lisboa completamente perdidos e nas aldeias como já são populações muito envelhecidas eles ajudam-se uns aos outros e aquilo funciona.  Têm as sociedades recreativas e têm entretenimento. Nas cidades vejo os idosos perdidos.

R.C.: Há uns anos atrás discutia-se muito o problema de ter a televisão ligada durante a hora das refeições, pois as pessoas não conversavam umas com as outras. Hoje, essa conversa está completamente desatualizada. As pessoas estão permanentemente ligadas à internet com os telefones de última geração e afins. Existe uma distância muito maior das pessoas mais velhas. Hoje não se conversa?

M.M.: Em minha casa é obrigatório desligarmos a televisão na hora do jantar. Isto porque temos de conversar quando estamos juntos à mesa. A minha filha mais velha tem 8 anos, esta geração inevitavelmente está agarrada às novas tecnologias. A hora das refeições é aquele momento que nós temos para conversar! Quando era criança, nós tínhamos a televisão ligada, mas depois também não tínhamos mais nada! Íamos brincar para a rua mas também tínhamos tempo de qualidade com os nossos pais e hoje em dia não é tanto assim! Portanto, tem de haver esse tipo de cedências.

R.C.: Qual foi a ligação que tiveste com os teus avós? Conheceste os avós e os bisavós, ou só os avós?

M.M.: Os meus bisavôs não conheci! Tive uma grande ligação com os meus avós maternos. Estes fizeram parte da minha educação, mesmo porque a minha mãe trabalhava, eu tinha as escolas perto da casa dos meus avós, ia lá almoçar e passava o dia inteiro na casa dos meus avós.

R.C.: Na zona de Setúbal?

M.M.: Exatamente! Os meus pais iam buscar-me ao fim do dia. Os meus avós tinham muito tempo e muita disponibilidade para mim e para minha irmã. Os trabalhos de casa eram feitos em casa dos meus avós. Portanto nesse sentido, os meus pais tinham menos uma preocupação… A minha avó era doméstica, mas o meu avô era um homem cheio de força e trabalhou praticamente até morrer. Também conduziu até morrer, embora só conduzisse em Setúbal. Mas o meu avô era uma força da natureza, era maravilhoso!

R.C.: E o relacionamento com os avós paternos?

M.M.: Os avós paternos viviam em Azeitão. Estavam mais próximos dos meus primos, filhos da minha tia que moravam lá perto.

R.C.: Hoje em dia o que recordas mais?

M.M.: Tenho recordações fantásticas do meu avô materno, por este ser uma força da natureza. Este meu avô viveu muito para os netos. Foi G.N.R., não tinha carta de condução, andava de mota e de bicicleta em Azeitão. Quando teve a primeira neta surgiu uma nova oportunidade de vida. Ele ia reformar-se da G.N.R. com uma reforma miserável e houve um primo nosso que lhe sugeriu dedicar-se à venda aos Seguros. Depois de reformado, teve uma segunda vida mesmo. Aos 50 e tal anos 60, tirou a carta de condução, dedicou-se aos Seguros e quando ia à GNR receber a reforma até se ria com o que recebia de lá, porque ele fez uma pasta de Seguros tão grande que ganhava imenso dinheiro.

Ele viveu muito para os netos ao mesmo tempo que tinha outras atividades. Aquilo foi uma força inacreditável. Este meu avô é o meu ídolo. O meu sentido de humor devo-o ao meu avô.

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