Mafalda Arnauth: «Há pessoas que fazem da velhice uma prisão emocional»

Os Retratos Contados encontraram a Mafalda Arnauth na sede da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, onde lhe pedimos para partilhar connosco as suas memórias de infância, as recordações e ensinamentos que fazem dela a mulher que é… Este foi o resultado da conversa!
créditos: Retratos Contados

Retratos Contados (R.C.): O que é que achas dum projeto como os Retratos Contados?

Mafalda Arnauth (M.A.): Acima de tudo, acho que é algo de grande dignidade. O papel dos avós é mais do que nunca essencial nesta sociedade e as famílias têm de recorrer cada vez mais aos avós. Parece-me é que nos estamos a esquecer um bocadinho de dignificá-los também, dar aos mais novos essa noção de herança, de valores e de raízes, de continuidade. Os avós estão mais presentes do que nunca nesta sociedade.

R.C.: Acabaste por fazer ponte para a próxima pergunta, que é: Quando olhas para o nosso país como é que vês a população mais velha?

M.A.: Há um número grande de avós que estão a ser chamados a dar apoio e a dar continuidade à  educação dos filhos dos seus filhos, e isso mostra muito da força que há nesse amor duplo, enquanto pais dos pais… Tenho uma visão disto mais precisa agora, se calhar há alguns anos era um bocadinho menos atenta. Mas isto tem um revés: a percentagem de avós que têm realmente oportunidade de viver em plenitude essa liberdade de se ser mais velho, de ter mais experiência, outras vivências, acaba por não acontecer tanto. Mesmo os avós que não estão a trabalhar têm direito a viver a sua reforma doutra maneira, a não terem de ser novo cuidadores…

R.C.: Para ti, qual é o drama maior dos idosos? Será a solidão, as doenças, o abandono?

M.A.: Como saio muito para outros países, tenho visto outro tipo de dinâmica da parte das pessoas mais velhas, da sua procura de algo mais na velhice, e do próprio interesse. Aqui é muita tradição e as obrigações, há um bocadinho essa prisão emocional. Mas são as próprias pessoas que criam esse espírito. Também me parece que há muita negligência no manter dos laços, na tentativa de fazer a ponte entre as gerações. Isto agrava cada vez mais a solidão, e até para os mais novos ela começa cada vez mais cedo. Se há uma guerra familiar, essa guerra resolve-se com «nunca mais se falam, nunca mais se vêem, nunca mais se encontram». Há uma falha na nossa capacidade de superação, não é à toa que os casamentos duram cada vez menos e a família também.

R.C.: Então existe uma crise de valores?

M.A.: Eu acho que é onde ela se reflete.

R.C.: Achas que é necessário fazer uma revolução de valores?

M.A.: Há coisas que têm de mudar. Por exemplo, é curioso porque os meus sobrinhos dizem que eu sou a única adulta que não lhes dá o telemóvel para brincarem. Dizem: "Mas só tu é que não nos emprestas tia." Eu não sou como as outras pessoas.

R.C.: Um dia mais tarde eles vão perceber que não é por ser má que a tia não dá.

M.A.: Mas eu explico, e são várias as razões. Se eu lhes der algo mais interessante para fazer, é fácil desviar a atenção do telemóvel.

R.C.: Vamos falar de histórias de família. O que é que tu sabes dos teus avós maternos e paternos?

M.A.: A minha situação é realmente particular porque os meus pais são os dois mais novos dos filhos mais novos de famílias numerosas. Convivi com o meu avô paterno até aos dois anos, mas os pais da minha mãe eu nunca conheci porque a minha mãe ficou órfã aos quatro, cinco anos. Parte do meu universo familiar é feito das histórias que ouvi e acho que ao longo dos anos aquilo de que me lembro será mais um misto de filme que eu própria criei e do acreditar que realmente tenho uma qualquer comunicação com eles. Eu acho que isso vai preenchendo os espaços em branco. Mas desses dois anos de convívio há realmente memórias que são para sempre.

Os meus avós paternos são da Beira Baixa, do interior do país; famílias humildes, e onde o campo e os animais eram para mim o melhor brinde da vida. Portanto há toda essa ligação à terra, ao fazer o pão, a levar as ovelhas ao pasto. O meu pai andava sempre com câmaras de filmar e filmou-me a mim e ao meu avô uma vez, uma bulha qualquer por causa do microfone. Tenho essa imagem bem presente, aliás toda a vida me lembro de ter sentido saudades de conviver com os avós e de achar que os avós viriam pôr ordem no desassossego que às vezes os filhos deixam imperar. Quem é que põe os meus pais em ordem? (risos)

Quando o meu avô morreu nós estávamos no Algarve de férias, não havia telemóveis e só encontraram o meu pai pela rádio, foi assim que soubemos da morte dele. Os meus pais dizem que eu tinha estado o dia inteiro a chamar pelo meu avô.

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