Luís Rojas Marcos em entrevista

Psiquiatra fala sobre o poder da resiliência e explica como vencer a depressão

Define a resiliência como «a força natural que nos ajuda a superar as piores dificuldades».

Numa altura em que a humanidade enfrenta uma das mais graves crises de sempre, o psiquiatra Luis Rojas Marcos partilha o seu
conhecimento e experiência em saúde mental, num livro que nos ajuda a conhecer enquanto seres humanos e que pode servir de pilar nos momentos de dificuldade.

«Superar a Adversidade - O Poder
da Resiliência», publicado em Portugal pela editora Planeta, lembra como é importante não perder a esperança
e o espírito positivo, mesmo nas situações mais difíceis.

Em tempos difíceis como os que vivemos, onde podemos encontrar
otimismo?

As pessoas resistem a terríveis infortúnios movidas pela paixão de viver. A maioria luta contra as adversidades e não desiste por não querer afastar-se, abandonar
ou perder os entes que lhes são queridos. O medo da morte, algo natural, é outro motivo universal para viver. Em momentos difíceis, evocar situações complicadas que superámos no passado alimenta a esperança.

Por outro lado,
as pessoas que localizam o centro do controlo no interior de si mesmas e acreditam que podem fazer algo para minimizar os efeitos nefastos das circunstâncias resistem melhor do que aquelas que se sentem indefesas, pensam que não controlam a vida, desvalorizam as suas decisões e depositam as esperanças em poderes alheios como a sorte ou seja o que Deus quiser.

O pensamento positivo nasce
com a pessoa ou conquista-se?

Os estudos indicam que a herança genética determina cerca de um terço
da nossa perspetiva otimista. Os genes também influenciam o desenvolvimento de mecanismos de defesa, como a intuição, a sociabilidade e a extroversão ou a tendência para desabafar. Além disso, traços da personalidade e as experiências positivas e negativas nos primeiros 15 ou 20 anos também moldam o nosso carácter, assim como
as expetativas, os costumes e os valores culturais.

Um ambiente familiar amoroso, seguro e estimulante cultiva
a confiança. Pelo contrário, em circunstâncias de falta de afeto, tende-se
a desenvolver uma disposição
de desconfiança e receio.

Como devemos agir?

Todos podemos trabalhar para fortalecer o pensamento positivo e a capacidade para superar as adversidades. Praticar
o sentido de controlo sobre os nossos comportamentos em diferentes circunstâncias ou ver como gerimos o quotidiano ajuda a neutralizar as emoções negativas, a resistir aos fatores de stress
e a
protegermo-nos de sentimentos perigosos de impotência ou desamparo.

A capacidade de suportar
os momentos difíceis é maior
nos homens ou nas mulheres?

Para começar, o par de cromossomas femininos XX tem vantagens sobre
o parceiro XY quando é necessário oferecer defesas para certas doenças.
Nas mulheres, um gene X danificado
é neutralizado pelo companheiro X saudável, o que permite livrar-se de certos males, como é o caso da hemofilia. Pelo contrário, o cromossoma Y não só não pode ser substituído no caso do companheiro X ter problemas, como
não é resistente.

É um facto universal
que as crianças e os adolescentes do sexo masculino morrem com mais frequência por acidentes e, quando adultos, têm
o dobro da probabilidade de morrer em confrontos pessoais violentos, acidentes de automóvel, de trabalho e na prática desportiva.

E em caso de depressão?

Embora a ansiedade e a depressão sejam diagnosticadas com mais frequência no sexo feminino, a taxa de suicídio dos homens é três vezes mais alta. De facto, depois da morte da companheira ou perante o desemprego, os homens têm um risco de suicídio sete vezes superior ao das mulheres.

A realidade implacável
é que, desde o momento do nascimento, em cada etapa do ciclo da vida morrem mais homens, o que explica que a maioria dos países tenha uma população maioritariamente feminina. Em média, elas vivem mais sete anos do que eles.


Veja na página seguinte: Como vencer as duras batalhas da vida

Qual é a origem da resiliência?

A mistura natural de força e flexibilidade, física e psicológica, a que chamamos resiliência, existe em mais pessoas
do que imaginamos.

Só assim, na minha opinião, se explica
a evolução contínua da Humanidade.


A maioria das pessoas que enfrenta muitas dificuldades
comove-se mas
não sofre de transtornos psicológicos e, se porventura sofrer, é de forma temporária.

Além
disso, muita gente aprende algo de
positivo com as experiências negativas
e, depois de recuperar ou, pelo menos,
de se adaptar, reconhece ter vivido
mudanças favoráveis na perceção de si
mesma e nas relações com os outros.

Como é que as batalhas da
vida, como lhes chama, conseguiram produzir essas
mudanças positivas?

Quem vive situações adversas vê-se,
muitas vezes, obrigado a enfrentar
momentos extremamente stressantes que
testam todos os seus recursos e que, em
simultâneo, ajudam a descobrir forças
positivas que desconheciam. É compreensível
que a sensação de ter vencido
a adversidade constitua uma injeção
de confiança e autoestima. No entanto,
ao contrário do que se possa pensar,
o sofrimento
não nos torna mais fortes.


A dor é um veneno para a felicidade que
nos amarga a existência e nos consome
a energia vital. O que pode ser uma fonte
favorável é a coragem para superar
as circunstâncias que provocam
o sofrimento.

O que acontece se perdemos
um dos pilares da resiliência?

Os pilares da resiliência são elementos
distintos que se complementam entre si.
Se perdemos um deles, o mais frequente
é que um dos outros seja reforçado. Há
pessoas que se vão abaixo perante desgraças
insuportáveis porque a resiliência
não é imune aos efeitos tóxicos de certos
estados emocionais, como o pânico,
o aturdimento, a depressão e a apatia.


Outra das causas de vulnerabilidade
é ter-se sido vítima de vários acontecimentos
traumático
no passado. É inevitável
que um historial de desgraças
esgote a resistência das pessoas. Todos
temos um limite para o número de
desgraças que conseguimos suportar
sem perder o equilíbrio emocional.

Como é que se consegue ultrapassar
uma depressão?

Acredito que a depressão é o veneno
mais nocivo da resiliência humana.
Esgota a energia vital, afasta-nos dos
outros, destrói a confiança em nós
próprios e rouba a esperança, o pão
da vida.

Quando falo de depressão,
não me refiro aos momentos normais
de desânimo que salpicam as nossas vidas,
mas sim como doença. Felizmente, hoje
existem tratamentos psicológicos e
farmacológicos muito eficazes para curar
ou, pelo menos, controlar este mal.

A morte prematura de alguém
querido causa muito sofrimento.
Como se pode superar?

Num período que não costuma durar
mais de dois anos, quase todas as pessoas
que perdem prematuramente um ser
querido e passam por um período
de dor, recuperam. Não quer dizer que
esqueçam, mas tornam a ser capazes
de funcionar no dia a dia, alimentam
ilusões e voltam desfrutar da vida.

Numa altura em que o desemprego
é elevadíssimo, o que devem fazer
os pais nesta situação para evitar que
os filhos sejam afetados?

Depende da idade dos filhos.
É recomendável que os pais respondam
honestamente e com seriedade às
perguntas dos mais pequenos. Devem
transmitir esperança e a ideia de que
podem fazer algo para minimizar
as consequências e de que são capazes
de os proteger.

De que forma a resiliência pode
ajudar alguém a sobreviver a uma
doença grave?

Em primeiro lugar, a principal fonte
de ajuda são as ligações afetivas com
as outras pessoas. Depois, é necessário
adotar uma perspetiva otimista
porque corresponde à vontade viver
e de lutar contra a doença sem perder
a esperança, a essência do pensamento
positivo.


Veja na página seguinte: O que fazer para conseguir manter a estabilidade emocional


Também é muito importante
procurar informação credível, inteligente
e útil, que forneça conhecimento sobre
a doença, aumentando a cooperação
do paciente com o tratamento e as
probabilidades de cura ou de melhoria.


Expressar sentimentos e partilhar o que
nos preocupa é outra estratégia de defesa
comprovada.

Permite-nos esclarecer,
validar e enfrentar os receios. O sentido
de humor é outro mecanismo mental
extremamente saudável quando temos
de reduzir a intensidade emocional,
pois protege-nos dos estados de ansiedade
e depressão.

No dia a dia, o que devemos
fazer para manter a estabilidade
emocional?

Aceitar que, para viver uma vida saudável
e completa, é importante conhecer e
valorizar os aspetos favoráveis da nossa
natureza, que nos ajudam a defender
e a superar os duros golpes que
assombram a vida.
Aceitar igualmente que todos somos
vulneráveis às desgraças, mas que as
evidências provam que a maioria dos
seres humanos recupera dos ataques
mais fortes. O meu conselho é que nos
familiarizemos com os ingredientes
da resiliência, essa força natural que
nos ajuda a enfrentar e a superar as piores
adversidades.


Os pilares da resiliência

Estes são os que o psiquiatra Luís Rojas Marcos aponta:

- Ligações afetivas e
executivas gratificantes

- Capacidade para controlar
as emoções

- Identificar objetivos
e programar os passos
para os atingir

- Localizar o centro de
controlo no interior de
cada um de nós, em vez
de o deslocar para forças
externas

- Autoestima saudável

- Receber e explicar as
coisas de forma positiva

- Consciência de motivos
pessoais que confiram
significado à própria vida


O perfil de Luis Rojas Marcos

Nascido em Sevilha em 1943 Luis Rojas Marcos emigrou, com apenas 25 anos, para Nova Iorque, onde se tem dedicado à medicina, psiquiatria e saúde pública. É professor de Psiquiatria na Universidade de Nova Iorque e membro da Academia de Medicina da mesma cidade.

Em Espanha, colabora com instituições que se dedicam a questões sociais e de saúde. Autor de «La Pareja Rota», «Las Semillas de la Violência», que venceu o prémio Espasa Ensaio, Luis Rojas Marcos já editou em Portugal «A Força do Optimismo» e «A Auto-Estima», ambos por A Esfera dos Livros. «Superar a adversidade - O poder da resiliência» (Planeta)
é o seu mais recente livro em português.

Texto: Fátima Lopes Cardoso

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