João Baptista Fernandes em entrevista

Como o cirurgião plástico encara a sua profissão e a relação com os seus pacientes

Podia ter sido arquiteto, biólogo ou engenheiro do ambiente. Mas nenhuma destas opções o desviaram da medicina, seguindo os passos do pai.

Fascinado pela cirurgia plástica desde cedo, confessa que na sua carreira nunca há dias iguais. Por influência do pai, um dos primeiros cirurgiões plásticos do país, João Baptista Fernandes optou por descobrir a sua vocação.

A sua infância foi sempre ligada à cirurgia plástica, conforme confidencia. «O meu pai tinha um arquivo enorme com fotografias, modelos, máscaras de gesso, entre outros materiais, numa cave da casa que servia de estúdio com os seus objectos profissionais», recorda. Apesar de o pai nunca o ter pressionado, mostrou-se orgulhoso com a sua decisão.

«Senti o peso da responsabilidade porque todas as pessoas me associam ao seu nome. O facto de ter ido estudar para o Porto, aos 19 anos, foi positivo porque ajudou me a distanciar um pouco desta associação. O meu pai era professor da Faculdade de Medicina de Lisboa e eu estava noutra cidade, o que facilitou a clara identificação entre ambos», refere.

Apesar de ter nove irmãos, João Baptista Fernandes foi o único que escolheu seguir medicina. Depois de 22 anos a trabalhar no Hospital de Santa Maria, atualmente dedica-se de corpo e alma à clínica privada. Como compensação, ganhou tempo para si e para a sua vida pessoal, para além de uma evidente melhoria na gestão do stress.

João Baptista Fernandes tem agora «uma vida mais calma», confidencia. Considera que a cirurgia plástica em Portugal «está ao nível do que se faz em todo o mundo, desde a Europa aos EUA». Critica apenas a «desorganização pela qual peca a área estatal da medicina», acrescentando que «trabalhar num hospital público é muito complicado. Os médicos sentem que trabalham imenso, têm horários muito alargados com prolongamentos, serviços de urgência demasiado frequentes que incluem trabalho nocturno e aos fins de semana em muito más condições e sem qualquer tipo de compensações».

O seu grande objetivo, todos os dias, na profissão que decidiu abraçar, é dar qualidade de vida aos doentes. «O médico tenta ser o mais correcto possível e corresponder às expetativas que o doente tem, seja na cirurgia estética ou na reconstrutiva». Para João Baptista Fernandes, o aspeto mais positivo da cirurgia é «ver a satisfação dos pacientes e os resultados obtidos».

O que mais gosta no seu trabalho?

O facto da minha especialidade não ser rotineira. Operamos da cabeça aos pés. Não há dias iguais e todos os doentes são diferentes. Isso é que é fascinante na cirurgia plástica. Um dia, fazemos reconstruções faciais complicadas e, no dia seguinte, estamos a operar um pé...

O que mais o atrai no corpo humano?

Aprecio tudo o que esteja relacionado com a face. As cirurgias nesta parte do corpo humano são as que nos dão maiores desafios, sobretudo se estão associadas a reconstruções. Em simultâneo, dão mais trabalho e mais prazer ao verificarmos os resultados.

Já se submeteu a alguma cirurgia plástica?

Nunca tive necessidade de me submeter a uma cirurgia plástica.

Já operou alguém da sua família?

Tenho realizado pequenas cirurgias a familiares mas não a nível estético. Apenas cirurgias pequenas. Com 10 irmãos e mais de 20 sobrinhos, de vez em quando tenho trabalhos de casa sem estar à espera...

Já algum paciente o comoveu de forma especial?

Cruzo-me sempre com histórias comoventes no meu dia a dia. Um médico que trabalha num hospital em que aparecem situações complicadas permanentemente fica mais sensibilizado com alguns pacientes. Lembro-me de uma rapariga que trabalhava numa fábrica e que meteu as mãos numa máquina de prensar, ou de vários pacientes que sofreram acidentes de aviação e que ficaram com a cara desfigurada.

São casos que nunca mais se esquecem e, como tratamos esses pacientes durante muito tempo, estabelecemos alguma ligação com eles. Ainda recebo antigos pacientes que me visitam como se fossem ter com um amigo.

Qual foi o momento mais importante da sua carreira?

Não tenho nenhum marco para registar. Estou sempre a procurar fazer melhor e a evoluir, o que me dá imensa motivação.

Qual o hábito de vida que considera mais saudável?

Há muitos hábitos que são bons para a nossa saúde, desde as rotinas diárias, como a alimentação saudável, ao desporto. Tento fazer ginásio sempre que posso, com alguma regularidade, durante a semana. Participo nas mini-maratonas e faço kitesurf que é uma atividade que gosto imenso. Adoro desportos náuticos.

Que conselho daria a quem quer fazer uma cirurgia plástica?

As pessoas têm de ter uma perspectiva real do que se pode fazer porque muitas delas têm expetativas muito exageradas. Devem ser esclarecidas e informadas, estar conscientes do que vão fazer e conhecer os riscos de cada cirurgia.

Têm de procurar referências para não correrem riscos desnecessários. Se não conhecerem nenhum cirurgião plástico credenciado, peçam uma opinião ao médico de família e consultem dois a três antes de optarem por um.

O percurso profissional deste médico

Licenciado em medicina pelo Instituto de Ciências Biomédicas Dr. Abel Salazar, no Porto, João Baptista Fernandes especializou-se em cirurgia plástica reconstrutiva e estética. Completou o Internato de Especialidade no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde ficou posteriormente a trabalhar durante 22 anos.

Hoje é diretor clínico da Clínica de Todos-os-Santos em Lisboa e exerce a sua atividade de cirurgião plástico no Hospital da Luz e no Hospital de Jesus, ambos em Lisboa. Este cirurgião é também membro da Sociedade Portuguesa da Cirurgia Plástica Reconstrutiva e Estética.

Texto: Cláudia Pinto
Foto: Estúdios António J. Homem Cardoso

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