Freire dos Santos em entrevista

Um cirurgião plástico que já exerceu medicina em três continentes

A Medicina entrou na sua vida com apenas
quatro anos. Em permanente contacto com
a ciência que viria a ser decisiva na escolha
da sua profissão, o cirurgião plástico Freire dos Santos não
se ficou por Portugal e exerceu Medicina
em três continentes.

«A minha vida está cheia de
histórias alegres e histórias tristes», desabafa.

Tinha quatro anos e já assistia a conversas sobre Medicina, em casa da sua avó, em Coimbra.
«Muitos estudantes, colegas de um tio meu, colocavam-me pastas de fitas amarelas
na mão e chamavam-me colega. Sem dúvida, marcaram o meu imaginário de criança
e a escolha deste curso foi uma opção natural», confessa Freire dos Santos. A diversidade da especialidade (que vai desde a microcirurgia ao tratamento da mão,
das anomalias congénitas ao tratamento de tumores, da cirurgia de queimados, da cabeça
e pescoço até à cirurgia estética) sempre o apaixonou.

Depois dos anos próprios de estudo, estagiou nos hospitais de Witwatersrand, na República
Sul Africana. Esteve durante quatro anos a ter formação na especialidade em
quatro hospitais universitários. Mas a internacionalização de Freire dos Santos não se
ficou por aqui. «Dada a projecção internacional da cirurgia plástica brasileira, nomeadamente
no capítulo da cirurgia estética, concorri a residente para diversos serviços
no Brasil, tendo optado pela Clínica Fluminense de Cirurgia Plástica, onde trabalhei até
poder candidatar-me ao titulo de especialista, e tornei-me no primeiro estrangeiro especialista
pela Associação Médica Brasileira e pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica», afirma.

Continuou no Brasil como bolseiro no Instituto Nacional do Câncer do Rio
de Janeiro e como estagiário da Clínica Integrada de Cirurgia Plástica (hoje, Hospital da
Plástica), a maior clínica de Cirurgia Plástica da América do Sul. «Durante mais de quatro
anos trabalhei com nomes incontornáveis da cirurgia estética mundial, tais como, Ronaldo
Pontes, Liacyr Ribeiro, Farid Hakme, Ruy Vieira e Ivo Pitanguy», recorda. De seguida,
rumou a Paris e, nos últimos 20 anos, tem integrado uma equipa multidisciplinar de patologia
mamária nos Hospitais da Universidade de Coimbra onde, actualmente, é Chefe
de Serviço de Cirurgia Plástica. Acumula ainda o exercício da especialidade no sector
privado, tendo avançado, em 2009, para a abertura da BIO ART Clinic, em Lisboa.

O que mais gosta no teu trabalho?

Desde pequeno sempre gostei de montar kits de casas, carros, barcos, aviões...
A Cirurgia Estética é uma cirurgia de detalhe, minuciosa, onde faz toda
a diferença a posição das incisões, aquilo que se retira e se deixa, os pontos
de sutura, o penso que se faz... Mas toda esta precisão não faz sentido sem
uma perfeita ligação com os pacientes. O cirurgião plástico tem que ser como
um membro da família.

Já se submeteu ou submeter-se-ia a alguma cirurgia plástica?

Acredito nos resultados do que faço, pelo que aceito a possibilidade de me
submeter a uma intervenção ou a qualquer outro procedimento estético.

Já operou alguém da sua família?

Não tenho razão para tratar os familiares de forma diversa de outros pacientes.
Já operei muitos familiares.

Já algum paciente o comoveu de forma especial? Porquê?

Estou licenciado em Medicina há 32 anos. Exerci em três continentes. Tive
verdadeiramente contacto com a Medicina dos países ricos e dos países
pobres. Fiz missões de cooperação na Swazilândia e na Guiné. Felizmente,
a minha vida está cheia de histórias alegres e histórias tristes. Histórias de filas
de 300 doentes, em que apenas uma dúzia pode ser seleccionada para
tratamento e só dois ou três são operados.


Veja na página seguinte: O momento mais marcante na carreira deste cirurgião

Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

A carreira de um cirurgião faz-se todos os dias. Os momentos mais importantes
têm a ver com os resultados e a satisfação dos doentes.

Quais os hábitos de vida que considera mais saudáveis?

Sono repousante (sesta sempre que possível), alimentação rica em frutos
e legumes frescos e com pouca carne e exercício físico moderado.

O que faz nos tempos livres?

Sempre que possível viajo em Portugal e no estrangeiro.

A praia é um destino
de eleição e a escolha é determinada pelos desportos que pratico com
a minha família, nomeadamente mergulho com garrafa, vela, ski aquático e wakeboard. Visito
regularmente exposições, museus, sobretudo de Arte Contemporânea,
sempre com os meus filhos. Os comboios a vapor exercem um verdadeiro
fascínio em mim. Continuo a adquirir miniaturas de colecção.

O que seria se não fosse cirurgião plástico?

Faço o que gosto e gosto do que faço! Aos 14 anos, fiz um teste de orientação
profissional que revelou aptidões para Arquitectura e Medicina.

Qual o avanço científico por que mais anseia?

A regeneração e modelação tecidular. A partir de uma célula ou várias células
ser possível criar um órgão, por exemplo uma mama, que pudesse
substituir perfeitamente uma mama inexistente ou que tivesse sido retirada
por doença. Já é possível criar pele em laboratório e uma equipa japonesa
deu passos importantes no caso da mama, mas estamos ainda no domínio
do experimental.


Percurso profissional

Licenciado em medicina pela Universidade de Coimbra, Freire dos Santos especializou-se em cirurgia plástica reconstrutiva e estética. É diplomado em microcirugia pela Universidade de Pierre e Marie Currie (Paris). Hoje é chefe do serviço de cirurgia plástica dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Além disso, é regente de mestrado em Ginecologia Oncológica e de numerosos cursos de Microcirurgia e de retalhos da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

Texto: Cláudia Pinto

Foto: Estúdio António J. Homem Cardoso

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