Fernando de Pádua em entrevista

Os conselhos do médico que se dedica há 60 anos à defesa da (nossa) saúde cardiovascular

Nasceu em Faro em 1927 e grande parte dos seus últimos 60 anos foram dedicados ao estudo, ao ensino, ao exercício da cardiologia e à defesa da cardiologia preventiva.

Fernando de Pádua tem sido o rosto de muitas campanhas de promoção da saúde em Portugal, nomeadamente na redução do consumo de sal, aquela que tem sido uma das suas grandes batalhas.

O laço que usa no lugar da gravata é a sua imagem de marca e um acessório que o acompanha desde os anos  da década de 1950, quando foi para a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos da América. Em entrevista à Saber Viver, falou-nos da sua carreira, bem como da história da cardiologia preventiva em Portugal, na qual desempenhou um papel principal.

Quando decidiu que queria especializar-se em cardiologia?

No meu quarto ano de medicina, quando fui aluno do professor Eduardo Coelho que me ensinou a compreender e a tratar as doenças do sistema cardiovascular. Classificou-me com 19 valores e convidou-me para seu assistente.

Não aceitei de imediato, pois ainda não tinha escolhido a especialidade. Mas a verdade é que ele me entusiasmou de tal maneira que, no final do curso, comecei a trabalhar com ele.

Em que consistia esse trabalho?

Colaborava no cateterismo cardiovascular, um exame em que o professor Eduardo Coelho era pioneiro em Portugal, mas muito criticado. Diziam que se tratava de um exame perigoso. Mais tarde percebeu-se que este seria o futuro da medicina e hoje é raro o dia em que não se recorre a esta técnica.

Como surgiu a oportunidade de ir estudar para os Estados Unidos da América?

A minha experiência com o professor Eduardo Coelho, associada ao facto de ter sido o melhor aluno da Faculdade de Medicina no meu ano, permitiu-me ganhar uma das bolsas de estudo atribuídas pela Fundação Rotária Internacional e candidatar-me à Universidade de Harvard.

Entrei para um curso de um ano de duração, com oito horas de trabalho diário e 50 professores (entre eles Paul White, o melhor cardiologista americano do século XX) para uma turma de apenas 12 alunos, de todo o mundo, que tinham sido aceites. Aí me especializei em cardiologia.

Que diferenças encontra entre a cardiologia dessa altura e a de hoje?

Está completamente diferente. No meu tempo o exercício da cardiologia andava à volta dos sopros do coração, do aperto mitral, do reumatismo articular agudo, das anginas... Hoje as preocupações são a doença coronária e a hipertensão.

Há quase um século, quando o professor Paul White escolheu a cardiologia, muitos o quiseram convencer a desistir, pois era uma especialidade considerada de somenos importância. O que havia naquele tempo eram doenças infecciosas (pneumonia, malária) e raramente eram diagnosticadas outras doenças do coração, para além das cardiopatias valvulares provocadas pela febre reumática.

A que se deveu esta mudança?

Por um lado ao progresso social e aos antibióticos, por outro, ao aparecimento das doenças da vida moderna, as doenças da abundância ou, como dizem os americanos, made by man. Durante milhões de anos o homem teve de trabalhar arduamente, para caçar e comer e não existiam máquinas.

Nessa altura, ingeriam-se milhares de calorias por dia, mas também se consumiam milhares de calorias. Hoje, continuamos a comer muitas calorias, talvez menos do que antigamente, mas precisamos de muito menos energia. O ser humano podia até ser apenas um cérebro, pois já não precisa de andar para se deslocar.

Toda a gente tem carro e até a televisão se liga com um comando à distância. Como resultado sobram calorias, que se transformam em obesidade, diabetes e hipertensão. Quando curarmos estas doenças provavelmente surgem outras.

Como serão essas doenças do futuro?

Hoje já começamos a ter viroses do coração e doenças degenerativas do miocárdio que não se sabe como surgem.

Quais são as principais inovações dos últimos 50 anos, na área da cardiologia?

Um dos aspetos que mais evoluiu foi a terapêutica cirúrgica. Quando me formei, lembro-me de um homem que entrou de urgência no Hospital de S. José devido a uma facada no coração. Naquela altura era inconcebível pensar em cozer o coração.

Achava-se que não se podia tocar naquele órgão e afinal hoje pode-se. Até é possível substitui-lo. Mas o avanço que considero mais valioso foi o desenvolvimento da cardiologia preventiva, especialidade que eu quis promover em Portugal quando voltei dos Estados Unidos, mas que inicialmente não foi bem recebida.

Porquê?

Não era comum os médicos dirigirem-se às pessoas sãs, para as ajudar a prevenir a doença. No início, ainda cheguei a falar para a comunicação social mas senti que tinha de parar. Dediquei-me então ao ensino, fui assistente da faculdade, fiz o meu doutoramento e só depois, quando já ninguém me podia acusar de querer protagonismo, é que voltei a dedicar-me à prevenção. Mas ainda passei um ou dois anos a sentir que as pessoas não gostavam daquilo que tinha para lhes dizer.

Quando é que sentiu que houve uma mudança de mentalidade?

Em 1976 ou 77, eu e o o professor Pereira Miguel, com quem andava nas campanhas contra a hipertensão, trouxemos a Portugal três homens, grandes autoridades dos Estados Unidos, da Organização Mundial de Saúde e da Escola de Saúde Pública de Londres.

Durante mais de uma hora, estiveram em horário nobre da televisão a falar sobre hipertensão e doença coronária, enquanto nós traduzíamos em simultâneo. Como a televisão era recente e só havia um canal, toda a gente viu aquela entrevista. No dia seguinte, o panorama nacional mudou. As pessoas interiorizaram a mensagem.

Em que consiste a cardiologia preventiva?

Compreende todas as actividades que procuram prevenir as doenças do coração e consiste, por exemplo, em chamar a atenção das pessoas para o facto de que o exercício é fundamental para manter o nosso motor activo e desimpedido, pois o colesterol, os açúcares são mais consumidos com o exercício.

Consiste também em chamar a atenção para o facto de a alimentação ser outra causa muito importante de doença, nomeadamente hipertensão, obesidade, diabetes e aterosclerose. Mas também para o facto que o álcool por si pode atacar directamente o coração, provocando cardiomiopatias alcoólicas ou doenças cardíacas congénitas. Ou que o tabaco pode provocar enfartes do miocárdio.

A quem se dirige esta prevenção?

À população em geral, devendo incidir, nos sub-20, pois quando estamos a pedir para deixar de fumar ou emagrecer estamos a atacar a posteriori.

Tratando-se de um público especial, de que forma podemos sensibilizar os mais novos para este tema?

Em vez de proibir, devemos dar-lhes esta educação, como lhes ensinamos os caminhos-de-ferro ou o nome das cidades, para que possam escolher por si, em vez de irem à procura de coisas escondidas que os adultos fazem e não os deixam fazer.

E de que forma desperta os adultos para a mudança de hábitos?

Os adultos receiam que o médico lhes proíba tudo o que gostam, mas há muita coisa de que gostamos e podemos ter, desde que saibamos escolher. Costumo dar o exemplo do Titanic. Aquele barco foi ao fundo porque passou de raspão pelo iceberg.

Bastava um desvio de cinco graus para toda aquela gente sobreviver. Faça isso na sua vida e vire os cinco graus. Tire um bocadinho daqui e dali, nas coisas piores, e isso deve dar-lhe mais cinco, dez ou 20 anos de vida saudável. Se deixar tudo o que lhe faz mal poderá dar a volta ao mundo.

Quais os sinais de doença cardiocerebrovascular a que devemos estar particularmente atentos?

Acima de tudo, não devemos esperar pelos sinais, porque os sinais aparecem no fim da picada. A doença básica das doenças cardiocerebrovasculares é a aterosclerose, a degenerescência do interior das artérias. Se os vasos que vão para o cérebro entopem ou rompem dá-se uma trombose ou uma hemorragia cerebral.

Se as artérias que vão para o coração entopem, dá-se a angina de peito ou o enfarte do miocárdio. Se os vasos que vão para os intestinos entopem, temos angina abdominal ou trombose da artéria mesentérica. Esta doença é como o envelhecimento dos canos na nossa casa, começa a desenvolver-se assim que nascemos.

Como assim?

Existem bebés que já têm manchas de gordura, não se sabe se estas desaparecem ou não, mas, por vezes, quando chegam aos 20 anos, aparentemente cheios de saúde, já têm a doença. As artérias entupidas até meio ainda não provocam sintomas, mas através de ecografia é possível ver a aterosclerose e até revertê-la um pouco, se se cumprir rigorosamente os cuidados ligados à dieta, ao tabaco e ao controlo da tensão.

O coração doi?

Doi e de que maneira. A angina de peito provoca uma dor a meio do peito, relacionada com o esforço, que desaparece ao interrompermos a atividade ou com um comprimido vasodilatador sob a língua. Perante um enfarte do miocárdio aquela dor não passa.

E pode haver dor sem doença?

Sim. Lembro-me de aos 16, 17 anos estar à espera de uma carta de namoro que ainda não tinha tido reposta e de sentir um peso no peito, uma dor que não passava. Se a pessoa está bem, não tem mais nada senão a dor, é um sinal de ansiedade.

A outra, a do enfarte, doi de, tal forma que a pessoa sente uma dor mortal. O médico, ao ouvir a descrição da dor, é capaz de descobrir se essa dor é um enfarte do miocárdio ou se é simplesmente um problema de ansiedade.

É possível prever um enfarte ou um AVC?

Pode-se ter a sorte de se ser avisado e, por isso, costumo citar o professor Eduardo Coelho, que diz que «a dor é a amiga do homem». No entanto, pode haver enfarte sem dor e é por isso que toda a gente deve fazer um eletrocardiograma.

No caso do AVC este pode ser precedido por uma tontura, uma perda de visão momentânea, uma mão ou um braço que durante segundos parecem paralisados, mas depois volta tudo ao normal. Aí a pessoa pensa que aquilo afinal não é nada mas é. Trata-se de um acidente isquémico transitório, que precisa de ser avaliado pelo médico.

As doenças cardiovasculares afectam mais o sexo feminino ou o masculino?

No homem a doença é mais precoce, mas é tratada mais facilmente. Na mulher a doença surge, regra geral, 10 ou 20 anos mais tarde. No entanto, é mais grave e difusa, não se sabe bem porquê nem se é a hormona feminina que a protege até à menopausa. Sabe-se apenas que o enfarte do miocárdio causa mais mortalidade no sexo feminino e que a mulher que fuma tem a doença dez anos mais cedo do que aquela que não fuma.

É verdade que tomar uma aspirina por dia pode ajudar a prevenir o enfarte?

Os ingleses defendem que toda a gente deve tomar não uma aspirina, mas um quarto de aspirina por dia. No entanto, eu não concordo, no sentido em que não existem estudos que comprovem essa eficácia para todos. Penso que é melhor evitar, do que correr o risco de a aspirina provocar hemorragias gástricas. Essa protecção apenas se tornou evidente após um enfarte do miocárdio e, portanto, os meus doentes apenas passam a tomar para prevenção de um segundo episódio.

O que ainda falta descobrir no campo da cardiologia?

O que falta descobrir é sempre inesperado, mas felizmente, deverá incidir em novas vias de tratamento. Neste momento, a comunidade médica está com grandes esperanças na utilização de células estaminais para a reconstrução do coração. Em animais já é possível refazer as células do coração destruídas após um enfarte do miocárdio. A reconstrução de novos vasos é outra possibilidade que está a nascer.

O que faz para preservar a saúde do seu coração?

Tudo o que posso. Não fumo, bebo ocasionalmente e prefiro verduras e fruta. É claro que em dias de festa como mais, mas normalmente a comida é frugal. Reservo o carro só para o fim de semana e todos os dias ando, pelo menos, cinco mil passos.

Subo sempre pelas escadas, mas desço de elevador, que é para isso que ele serve. Descer escadas praticamente não queima calorias, o peso do corpo afecta as articulações e ainda arrisco tropeçar e partir uma perna ou um braço.

Texto: Vanda Oliveira

artigo do parceiro:

Comentários