Entrevista à Duquesa de Cadaval

Diana escolheu para protagonista do seu segundo romance a conturbada vida de Maria Francisca de Sabóia.

Depois de “Eu, Maria Pia”, Diana, duquesa de Cadaval, apresenta “Maria Francisca de Sabóia”, um romance que nos leva até à corte portuguesa do séc. XVII, num período de ameaça espanhola. Maria Francisca de Sabóia, princesa francesa que aos 20 anos se torna rainha e se casa com dois irmãos, protagoniza um dos episódios mais curiosos da história de Portugal, ao pedir a anulação do seu primeiro casamento.

Primeiro escolheu Maria Pia, agora Maria Francisca de Sabóia. São personagens particularmente inspiradoras?

Muito inspiradoras! Duas jovens princesas estrangeiras que vieram aos desconhecido. Duas meninas que de um dia para o outro se tornaram rainhas de Portugal, influenciando os hábitos da corte, contribuindo para a mudança. Mas o mais interessante é os dilemas, os conflitos e as diferenças que elas experimentaram nessa mudança. E o impacto que elas tiveram na sociedade portuguesa.

Volta a escolher uma mulher para tema do seu segundo livro. As mulheres têm vidas mais ricas?

As mulheres e os homens sempre tiveram vidas muito ricas, diria mesmo muito complexas. Mas talvez por ser mulher me sinta mais à vontade para ler, estudar, pesquisar e escrever sobre as minhas pares…

O que tinha de especial Maria Francisca de Sabóia para ser sua protagonista?

Maria Francisca viveu grandes conflitos existenciais e teve um percurso muito conturbado como rainha de Portugal. A vida dela constituiu um episódio fascinante da História de Portugal. Diria mesmo que é um percurso único enquanto rainha de Portugal.

Princesas e rainhas tiveram papel relevante na história de Portugal e nas cortes europeias. Maria Francisca de Sabóia é uma dessas figuras?

É muito relevante a influência das princesas estrangeiras nos hábitos e nas mentalidades da corte portuguesa. E, acima de tudo, tornando-se rainhas, não se pode esquecer o quanto os próprios soberanos terão sido influenciados por essas consortes que vinham de outros mundos e de outras culturas. Porque, apesar dos tempos remotos, a mulher com carácter, personalidade e cultura tinha um grande ascendente no rei e até no governo da nação.

Como se documenta para contar as suas histórias?

Tenho o apoio de grandes pesquisadoras. E procuro, por todo o lado, tudo o que diz respeito à época e aos personagens.

É uma apaixonada da História de Portugal?

Orgulho-me de ser portuguesa, descendente de uma das figuras mais emblemáticas da nossa história, D. Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável. Como não podia ser apaixonada pela História de Portugal?

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Nasceu na Suíça e estudou em Paris. Nunca deixou de estar atualizada em relação a Portugal e à sua história?

Em casa, fosse onde fosse, os meus pais sempre cultivaram a nossa matriz portuguesa. É verdade que somos uma família com raízes e laços por todo o mundo, sobretudo em França e que se comunica entre nos em três idiomas em simultâneo: o português, o inglês e o francês. Mas é em Portugal e com as “coisas” portuguesas que nos sentimos em casa.

Vai continuar a escrever livros tendo como protagonistas figuras da nossa história?

Certamente que sim, embora também gostasse de fazer uma incursão pela história de França. O meu marido descende dos reis franceses, a minha avó, Diane de Gramont de Coigny, era de uma grande família nobre francesa. É natural que não fique só pelas figuras da história de Portugal.

Não gostaria de escrever um romance com personagens dos nossos dias?

Gosto da minha maneira de ser: uma mulher dos nossos dias a olhar para grandes personalidades de outros tempos. Gosto dessa distância.

As figuras históricas são mais fascinantes?

Talvez por isso mesmo, pela distância que há entre nós e elas. Mas também há personagens tão fascinantes no século XX!

Já escolheu a protagonista do seu próximo romance?

Talvez… Mas por agora vamos deixar respirar Maria Francisca de Sabóia…

Vive entre o Estoril e Évora. Escreve nas suas duas casas?

Gosto especialmente de estar em Évora. Sinto-me mais inspirada. Uma casa muito rica em história, uma cidade fascinante. Em Évora concentro-me melhor. No Estoril disperso-me mais. Por isso mesmo, Évora tem resultado ideal para a escrita.

É responsável pela atividade cultural do Palácio Cadaval em Évora. O que é mais gratificante neste trabalho?

Fazer de uma casa muito antiga um ponto de encontro do século XXI. Criar dinâmica e deslumbrar pessoas oriundas dos quatro cantos do mundo. Manter vivo o nosso património!

Com o seu marido, o príncipe Charles-Philippe d’Orléans, duque d’Anjou, tem participado em missões humanitárias na Etiópia, Cambodja, Sérvia e Egipto. Como tem sido esta experiência?

Uma experiência muito gratificante, mas, na maior parte das vezes, muito perturbadora. Por exemplo, encontrar quem não tenha simplesmente água e… pensar os litros que nós desperdiçamos por dia… só porque a temos com fartura. Cada uma dessas viagens é um abanão na minha vida. Mas ainda bem que tenho o privilégio de as fazer. Dou graças a Deus por isso, por poder contribuir para fazer melhor.

Está preocupada com as convulsões no mundo?

Ainda muito nova, o meu pai falava-me muito da atualidade do mundo. Ele lia os jornais mais importantes e ouvia todos os noticiários. Deixou-nos esse hábito que faz com que nunca estejamos fora da actualidade. E, naturalmente, sempre muito preocupados. Mas o importante é reagir. Somos uma família que reage, que faz, que contribui e… que trabalha muito. É uma forma de lutar por um mundo melhor.

(Texto: Palmira Correia)

artigo do parceiro: Top Fama

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