Desempregada cria empresa de estafetas de bicicleta

Entrevista a Patrícia Cardoso que nos relata a história de Asas nas Rodas

Chama-se Patrícia Cardoso, tem 36 anos e uma vontade de vencer inabalável. Ficou desempregada, uma história como tantas outras que vão crescendo no nosso país, mas está a dar a volta ao infortúnio inspirada na vontade de mudar o mundo e fazer mais pelo país. Patrícia arregaçou as mangas, saiu da sua zona de conforto e criou uma empresa, apoiada pelo marido e pela filha de sete anos. Asas nas Rodas é o nome de,- imaginem!- uma empresa de estafetas dirigida por uma mulher e que usa a bicicleta como principal instrumento de trabalho. É barato, não polui, faz bem à saúde e… ao ego da nossa entrevistada que, apesar de tudo, reconhece que ainda há muito caminho para percorrer. Na ciclovia…de preferência!

Como surgiu a ideia do Asas nas Rodas?

O projeto Asas nas Rodas surgiu essencialmente porque gosto de bicicleta e da liberdade que nos proporciona. Surgiu ainda pela procura de trabalho de estafeta, que sempre gostei de fazer, e numa pesquisa constatei que é um trabalho sempre feito por homens. E porque não uma mulher fazer a diferença e servir de exemplo a tantas outras que estão no desemprego….

Porquê este nome?

Este nome surgiu, para já, em português porque há uma tendência generalizada a que tudo o que surja de novo em Portugal tenha nomes em inglês. Não quer dizer com isto que não seja aberta a outras culturas, mas sou portuguesa, tenho orgulho no que de melhor se faz em Portugal,..porque não marcar a diferença com um nome em português do mais simples possível e que traduza o conceito de rapidez, mesmo que essa rapidez seja feita em bicicleta?

Já alguma vez tinha experimentado esta aventura do empreendedorismo?

Não, mas com 36 anos e uma personalidade que tem uma vertente aventureira, decidi dar o passo...Como diz o ditado: Vai e se der medo vai com medo mesmo! Um bom princípio.

O que teve de fazer para pôr o projeto de pé?

Abdicar da minha zona de conforto, ou seja um trabalho de 12 anos que já nada me dizia, nem me faria evoluir como profissional e até me colocava numa situação de grande instabilidade. Pensei na minha qualidade de vida e no que poderia fazer para alterar um pouco não só a minha vida, mas a dos outros também. E queria deixar ao mundo uma pequena marca que sirva de exemplo.

Como tem corrido até agora?

È um trabalho que vai levar o seu tempo até obter os resultados que quero, uma vez que o carro e a mota estão muito enraizados na nossa cultura, como auxiliar de trabalho e de família. Exemplo disso é que 50% das deslocações de carro são feitas num raio de 3km e 10% são feitas até 5 km. Essa tem sido uma das principais dificuldades? Romper com hábitos?

Sim. Fazer com que as empresas acreditem que a bicicleta pode ser um bom transporte de carga e que pode, a maior parte das vezes, substituir o carro assim como contribuir para um melhor desempenho profissional. A bicicleta ainda é vista como um instrumento de lazer e não um veículo auxiliar quer de trabalho, quer de família. Mas para mudar as mentalidades estamos cá nós, os profissionais da bicicleta.

" A bicicleta ainda é vista como um instrumento de lazer e não um veículo auxiliar quer de trabalho, quer de família. Mas para mudar as mentalidades estamos cá nós, os profissionais da bicicleta"

Tinha outras alternativas além de abrir uma empresa?

Sim, o procurar um novo trabalho que me preenchesse, mas gosto de desafios e como nunca vivi um grande, decidi apostar.

Que formas de rendimento tinha até ficar desempregada?

Trabalhei durante 12 anos numa livraria online.

Quem a apoiou/apoia mais nesta fase?

Sem qualquer margem para dúvidas, a minha filha e o meu marido. A minha filha, apesar de só ter 7 anos, já tem uma visão do mundo que muito me agrada. Foi sobretudo ela a minha fonte de inspiração, ou seja desde o seu nascimento, o "bichinho da Natureza e da criança" ficou cada vez mais aguçado em mim. A visão que tenho do mundo é que tenho de fazer mais e melhor para que o exemplo seja dado. É bom poder ver que os nossos exemplos florescem neles. E o marido porque sendo um adepto fervoroso de carros, cada vez mais se converte à bicicleta, nem que seja para lazer e para não me deixar ir abaixo nos momentos maus.

Na sua opinião, como é que o governo poderia ajudar mais estes novos desempregados?

Hoje em dia é muito difícil para o governo ajudar qualquer desempregado, por causa da nossa economia que não é de subsistência. O nosso governo muitas vezes só vê números, não está no terreno para se aperceber o que se passa. O país evoluiu, mas essa evolução, como tudo na vida, traz o mau e o bom, e tem havido muita fuga de "cérebros" para o estrangeiro. A meu ver podia apostar mais nas pessoas e menos nos números, ou seja as pessoas de 40,50 ou mesmo 60 anos ainda têm muito para dar ao país, muitas delas mais do que as de 20 ou 30. Deveria apostar mais no que de melhor se faz em Portugal, deveria incentivar todos a dar o seu contributo para o país e a não viver de subsídios. Deveria apostar mais na formação técnica e profissional e não tanto no ensino geral, pois existem muitos talentos que se perdem. Deveria ter um programa de incentivo ao empreendedorismo pois gera mais emprego.

Que conselho dá a quem fica subitamente sem emprego?

É uma frase cliché, mas não desista, não ponha a emigração como primeira alternativa, o país é nosso, somos nós que o construímos. Dê o seu contributo no que de melhor sabe fazer para a sociedade. Tenha metas, objetivos garra e força para vencer mesmo que ao princípio não lhe traga o pretendido. Não desista, nós somos exemplo para muitos e o comportamento gera comportamento, algum dia a nossa sorte vai chegar.

"O governo deveria apostar mais no que de melhor se faz em Portugal, deveria incentivar todos a dar o seu contributo para o país e a não viver de subsídios"

E a quem está com emprego e não sabe o dia de amanhã?

Eu mesma fiquei nessa situação por isso pense muito antes de dar um passo, mas se tiver condições mínimas económicas e psicológicas saia da sua zona de conforto e lute... lute pelos seus sonhos. A vida é para viver e não sobreviver.

Sobre o futuro...o que tem a dizer?

Quanto ao futuro não sei...sei o que quero no presente e é nele que vivo, Quero ser um pequeno exemplo para todos, de modo a poder mudar mentalidades. Pode ser utópico mas não é impossível!

artigo do parceiro: Nilza Rodrigues

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