Celeste Rodrigues: "Ao ter um filho, a pessoa sente-se a mais rica do mundo, alta quando é baixa, bonita quando é feia"

Os Retratos Contados Foram ao Museu do Fado falar com a fadista Celeste Rodrigues, com o neto Diogo e com os bisnetos Sebastião e Gaspar.

Depois da publicação de parte da entrevista na revista Caras, partilhamos convosco agora a entrevista na íntegra.

Num documentário que o Diogo Varela Silva realizou, o Fado Celeste, a Celeste canta um fado em que a letra diz o seguinte ” Sei que a vida continua, mas vejo a passar na rua os meus tempos de menina...” Esses tempos de menina ainda continuam muito presentes na sua memória?

Claro que estão! Felizmente estão, porque fui feliz! É uma altura em que as pessoas têm sonhos, acham que tudo é belo, não se dá pelas dificuldades. Claro que os tempos de menina estão sempre presentes.

R.C. – A família Rebordão Rodrigues veio do Fundão para Lisboa em 1928; que recordações tem da sua infância?

Celeste – Do Fundão tenho poucas recordações pois era muito criança, vim para Lisboa com 5 anos. Lembro-me daquilo que a minha mãe nos contava, de vez em quando. Com 17 anos estive lá uns 15 dias, e na verdade essa é a recordação mais presente que tenho do Fundão. Mas lembro-me que o meu pai era músico e tocava numa banda. Todos os dias dava a volta à vila, e eu lembro-me ainda dessa música que a banda tocava. Tinha eu uns 4 anos. A Amália nasceu em Lisboa, mas foi por acaso. O meu pai foi tocar a Alpiarça e ficou em casa dos pais. A minha mãe estava no fim do tempo e por isso ela nasceu em Lisboa e depois foi para o Fundão. Foi lá batizada e lá ficou até aos 3 anos e meio. Só depois veio para casa dos meus avós. Por isso é que só conheci a minha irmã tinha eu 5 anos e ela 8. Até aí só a conhecia por retratos. Lembro-me de quando começámos a ir juntas às compras: eu falava à moda do Fundão e a Amália à moda de Lisboa. Eu dizia: “meia rate de açúcar, uma onça de chá,” que eram os termos de lá, e ela achava muita graça. Dizia sempre para ser eu a pedir, para depois se rir.

R.C. - Quando vieram viver para Lisboa, para que bairro foram morar?

Celeste - O meu pai arranjou um contrato para uma Sociedade de Recreio em Campolide. O contrato era de 2 anos e com casa, uma vivenda. Vivemos aí 2 anos. Quando terminou o contrato é que fomos viver para perto da minha avó materna, em Alcântara.

R.C. - É muito curioso ver duas irmãs, que não se conheceram logo desde que nasceram, mas só alguns anos mais tarde, que até então não tinham nenhuma convivência, passarem a ser inseparáveis - tanto que a vossa mãe dizia que pareciam “ o roque e a amiga.”

Celeste - Andávamos sempre juntas! Mas foi assim, logo que nos conhecemos, não nos largámos mais. Onde ia uma, ia outra. Chorava uma, chorava a outra - como se fossemos gémeas. Muitas vezes nem era preciso falarmos para nos entendermos. Bastava um olhar e uma sabia logo o que a outra queria. E foi assim pela vida fora. Guardávamos segredos sobre namorados. Namorávamos às escondidas, pois naquela altura não se podia namorar sem a autorização dos pais. Vestíamos as roupas uma da outra. Mas esse hábito das trocas de roupas ficou até muito tarde, até mesmo com as minhas outras irmãs isso também acontecia.

R.C. – Dos seus avós, que recordações tem?

Celeste - Da minha avó, não tenho grandes recordações. Era um bocadinho mais rígida, mais retorcida. Do meu avô, tenho recordações maravilhosas. Quando chegava do trabalho, os netos agarravam-se todos a ele, os meus irmãos, os meus primos, e ele levava-nos a todos nos braços. Era um velhinho simpático, muito querido, aos serões juntava-nos a todos e contava-nos histórias de medo, de terror. Íamos todos para a cama aos saltos…mas era muito querido. A minha avó, não! Os pais do meu pai não conheci bem. Só a minha avó paterna, era uma senhora magrinha, muito senhora do seu nariz, que saía à rua com o seu chapelinho… Não vivia connosco, era um bocadinho mais distante. Também tenho boas recordações dela, mas os netos que viviam com ela andavam «na linha».

Comentários