Catarina Sobral em entrevista

As ambições e os planos da ilustradora que já venceu um prémio internacional

Prefere utilizar materiais riscadores e a técnica de colagem. Mas o que gosta mesmo é adicionar textura aos desenhos que cria. Apesar de não lidar habitualmente com crianças, na Feira do Livro Infantil de Bolonha, em março de 2014, Catarina Sobral foi surpreendida por um prémio internacional, atribuído pelo seu trabalho no livro «O meu avô». Uma distinção que lhe abre novas portas. «Os desafios agora são os novos livros que ainda estão por vir», desabafa, em entrevista à Saber Viver.

O que significa para si ser considerada a melhor ilustradora para a infância com menos de 35 anos?

Na realidade, o prémio da Feira de Bolonha com a Fundação SM não deve ser tão largamente interpretado. O meu trabalho foi escolhido por um júri de três elementos que tinham para avaliar apenas 41 ilustradores já previamente seleccionados para a mostra. E por mais que hajam critérios objetivos para inferir a qualidade de uma ilustração, em certa medida acaba por ser uma escolha subjetiva.

É certo que a Feira de Bolonha é o principal certame internacional dedicado à ilustração para a infância e a mostra dos ilustradores é o principal gesto curatorial da Feira. O Annual é uma referência para editores de todo o mundo e a exposição, depois da feira, viaja para várias cidades japonesas. Se só a seleção para a mostra já representa uma enorme visibilidade e a deste prémio é, de facto, inigualável. Não é apenas um reconhecimento da qualidade do meu trabalho, é também uma alavanca para novos projetos e a confirmação da entrada do meu nome no circuito internacional do livro.

Tendo em consideração que o seu público-alvo são as crianças, que cuidados e preocupações tem de ter quando desenha?

Nenhum. Para bem da literacia visual das crianças, é importante que vejam livros com diferentes linguagens gráficas e estilos artísticos. Já o contrário é preocupante. Se os livros forem bons, não importa se a ilustração é mais realista, abstracta, monocromática ou colorida… Tem é de ter qualidade.

Procura ter sempre um lado pedagógico e educativo nos desenhos que faz ou essa não é, de todo, uma das suas preocupações?

Essa não é, de todo, uma preocupação. Um bom álbum ilustrado não deve ser restritivo ou estereotipado. Eu preocupo-me, sobretudo, em desenhar livros que deem maior liberdade de interpretação, que sejam mais abertos a contribuições do leitor, para que ele possa mudar o final, inventar novos diálogos, ler de trás para a frente, etc…

A sua infância foi uma inspiração para seguir esta área?

Talvez. Mas, quando imagino um livro, faço-o como se fosse para mim. Faço um livro que gostaria de ter. Não é pensado exclusivamente para crianças. É um objeto artístico, para miúdos e graúdos.

Recorda-se de momentos da sua infância que serviram para ganhar inspiração no momento de ilustrar?

Algumas pequeninas coisas do quotidiano, provavelmente comuns a muitas outras crianças...

Para si, quais são as principais diferenças entre os desenhos de antigamente e os de hoje?

Como noutras áreas artísticas, também a ilustração procura sempre caminhos que ainda não foram testados. Aquilo que já se experimentou, a nossa herança visual, serve-nos de background para novas linguagens. E, para além de agora ser muito mais fácil reproduzir com fidelidade qualquer tipo de ilustração e não ser preciso pensar na forma de reprodução antes de começar a ilustrar, com a rapidez e facilidade com que os computadores nos ajudam a testar novas linguagens, atualmente as possibilidades são imensas.

Em termos semânticos, já há muito tempo que a ilustração não é a iluminação (decoração e redundânia) do texto, mas hoje em dia, cada vez mais, os ilustradores exploram as relações de incongruência e contraponto entre ilustração e texto.

Quais as técnicas de ilustração que mais utiliza?

Gosto mais de utilizar materiais riscadores e colagem. Se pinto com pincéis, são sempre grandes manchas de cor e, geralmente, misturo outros materiais para lhes acrescentar textura. Mas sou muito experimental e, entre pastéis, lápis, marcadores, carimbos, etc, uso de tudo um pouco!

Tem filhos ou sobrinhos ou lida habitualmente com crianças?Qual costuma ser a sua relação com elas?

Não, não tenho nem costumo lidar com crianças…

Fale-nos um pouco do seu percurso profissional e dos seus planos para o futuro. Como é que gostava que a sua carreira evoluísse?

O meu percurso como ilustradora começou quando publiquei «Greve», um álbum das edições Orfeu Negro, em 2011. Depois, comecei a colaborar com alguns jornais e revistas e continuei a fazer livros de imagens. O «Achimpa» (Orfeu Negro) em 2012 e, em 2014, o «Vazio» (Pato Lógico), «O meu avô» (Orfeu Negro) e «Limeriques Estapafúrdios» (Editora 34 no Brasil). Em 2013, participei num livro das edições Les Bas Bleu, juntamente com outros quatro ilustradores, intitulado «Citybox: Lisboa?». Atualmente, colaboro com várias editoras e algumas revistas. Eu já estou a fazer o que gosto. Os desafios agora são os novos livros que ainda estão por vir.

Texto: Luis Batista Gonçalves

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