Catarina Furtado em entrevista

As motivações altruístas da atriz e apresentadora que já conta com 20 anos de carreira (fotos)

Formada em dança pelo Conservatório Nacional de Lisboa, abandonou a carreira de bailarina devido a uma lesão lombar. Inspirada pelo entusiasmo que o seu pai, Joaquim Furtado, tinha pelo jornalismo seguiu-lhe as pisadas. Começa a trabalhar em televisão em 1992. Fez formação na London School of Acting e tem participado em filmes, telefilmes, peças de teatro e séries.

Quando, em 1999, Catarina Furtado assumiu o papel de Embaixadora da Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), a sua vida mudou para sempre. A partir de então deixou de ser apenas uma cara conhecida da televisão para, aproveitando o mediatismo da profissão, lutar contra as desigualdades do mundo em desenvolvimento.

O ano de 2012 voltou a ser um ano importante na sua vida. Acabada de comemorar 20 anos de carreira, partilha o projeto que acaba de lançar com o coração e fala sobre as suas motivações altruístas, que a levaram a criar a associação Corações Com Coroa há cerca de um ano e meio.

Que balanço faz do seu papel enquanto Embaixadora da Boa Vontade do UNFPA?

Ter sido convidada há 12 anos pelo então secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para esta missão, mudou a minha vida porque lhe deu dimensão, profundidade e realidade. Sei que tenho sido uma privilegiada (com uma educação voltada para o altruísmo, acesso a serviços de educação e saúde, oportunidades de trabalho e uma relação direta entre o esforço e a recompensa) e cada vez que mergulho nas desigualdades sociais, sinto que temos obrigação de exercer os nossos deveres enquanto cidadãos do mundo.

Como surgiu a ideia de criar a associação Corações com Coroa (CCC), a que preside?

A CCC nasceu no seguimento do meu trabalho voluntário para o UNFPA e dos documentários que tenho feito para a RTP no programa «Príncipes do nada», com peças em Portugal. Achei que, neste momento de crise, fazia sentido dar um contributo ao nosso país, não deixando de estar atenta ao mundo que nos rodeia.

Qual é a preocupação central da CCC?

Ao lado das pessoas certas, Ana Torres e Ana Magalhães e dos restantes órgãos sociais e voluntários, iremos tratar os temas que o UNFPA também aborda, nomeadamente a igualdade de oportunidades (e de género), a saúde materna, o combate à discriminação, a violência doméstica e de namoro, a maternidade e paternidade adolescente, o planeamento familiar... Queremos promover uma cultura de solidariedade, de cidadania e de respeito pelos direitos humanos de cada uma e de todas as pessoas.

Quais são os parceiros da associação?

Vamos trabalhar em rede com escolas, centros de saúde, autarquias. Queremos estar próximos das pessoas, promover campanhas de intervenção, trabalhar com grupos de reflexão e encontrar os parceiros ideais, nomeadamente Estado e empresas conscientes da importância do exercício da sua responsabilidade social. Coerência, transparência e rigor são os princípios orientadores pelos quais se rege a CCC.

Este é o seu projeto de vida?

É a concretização de um sonho que nasceu do trabalho que tenho feito no terreno para o UNFPA, da recolha da realidade que toca diretamente ao coração, daí também o nome Corações com Coroa. Estar atenta aos outros e poder contribuir com o lado mais mediático da minha profissão para uma melhoria da promoção dos direitos humanos e de cidadania é a missão da minha vida e, portanto, esta associação é um legado que deixo em termos daquilo em que acredito.

A apresentação oficial da CCC foi acompanhada, no final de 2012, da conferência «As Meninas e as Mulheres em Primeiro Lugar». Porquê este tema?

A desigualdade de género é gritante no mundo em desenvolvimento e está escondida no mundo desenvolvido. Na Europa, as mulheres e as crianças são quem mais sofre o impacto da crise. No último ano, Portugal desceu 12 patamares em relação à igualdade de género.

As mulheres, apesar de representarem o maior numero de licenciados, são também as que menos oportunidades têm nos lugares de topo das administrações das empresas e a sua participação é minoritária nos lugares de decisão. São elas que asseguram o trabalho informal, que cuidam das crianças e de pessoas dependentes e recebem, em regra, salários mais baixos que os homens.

Nos países em desenvolvimento as diferenças entre géneros são ainda maiores?

Tenho-me deparado com casos reais, como meninas que não sabem que podem ter uma opinião, mães que nunca receberam qualquer tipo de atenção por isso não sabem o que é cuidar, mulheres que veem os seus filhos morrer à nascença apenas porque não existe eletricidade para se fazer uma cesariana, bebés que ficam órfãos assim que nascem... Mortes evitáveis que fazem crescer a indignação.

Esta experiência deu-lhe, portanto, a bagagem necessária para criar a sua própria associação...

Sei hoje, pelo que já vivi e vi, que tenho legitimidade para falar e para tentar apoiar, apesar de não ser nem técnica de intervenção, nem política. Sei qual o caminho que gostaríamos que a CCC tomasse, que fosse um pilar fundamental na construção de uma sociedade mais justa, sem a sopa dos pobres mas com oportunidades iguais, com estímulos para os mais desfavorecidos e que promova os direitos humanos.

O que tem aprendido com o trabalho de campo realizado para as Nações Unidas?

Ver morrer crianças e mulheres transforma-nos para sempre. Senti que a minha vida só passaria a fazer sentido se o meu investimento, ainda que tenha de repartir o tempo com a minha profissão, fosse na construção de um percurso coerente de intervenção social, diretamente com as pessoas, mas também através de uma linha condutora de apoio a mudanças de mentalidade junto dos decisores e dos jovens.

O facto de ser mãe modificou a forma como encara esta sua missão?

Ter tido dois partos naturais, assistidos e em condições maravilhosas, faz com que deseje o mesmo para qualquer mulher no mundo e com que a minha batalha tenha um caráter de urgência.

Como vê a saúde materna e infantil em Portugal, no contexto do Serviço Nacional de Saúde?

É, de facto, um grande exemplo de boas práticas. No entanto, a gravidez adolescente e o planeamento familiar, grande amigo do combate à pobreza, têm de ser considerados com outra dedicação. O investimento na prevenção é determinante. As mulheres portuguesas têm de ter outro tipo de tratamento patronal no apoio à gravidez e pós-parto.

Considera que a solidariedade também tem efeitos positivos em quem a pratica?

O altruísmo faz bem a tudo e até à pele! Mas a grande conquista é quando essa consciência não está visível. Quando é natural vivermos melhor e mais intensamente porque estamos a viver de dentro para fora e não ao contrário. A vida é demasiado curta para nos perdermos nas nossas missões. Temos direitos e deveres e temos de ter a coragem para os pôr em prática cada dia.

Como podemos ser solidários em tempos de crise?

Fazer formação em voluntariado, para quem tem algum tempo disponível, é uma ótima opção solidária. Hoje o voluntariado em Portugal está muito profissionalizado e isso faz com que seja voluntário quem pode e não quem quer porque é preciso praticar-se um voluntariado responsável e com formação.

Como é que uma pessoa pode ajudar a associação Corações com Coroa?

Pode tornar-se sócio ou sócia em www.coracoescomcoroa.com, enviando um e-mail para coracoescomcoroa@gmail.com ou através do Facebook em www.facebook.com/coracoescomcoroa.

Quer deixar uma mensagem aos leitores da revista?

Vamos acreditar que a união faz mesmo a força e que, se todos estivermos a remar numa mesma direção, podemos alcançar alguma harmonia. Sociedade civil, governos, organizações não governamentais, filantropos, empresas, juntos podemos combater a desigualdade social e de oportunidades e a exclusão social.

Texto: Vanda Oliveira com Carlos Ramos (fotos)

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