Você sente-se

O que a ciência já descobriu sobre este estado emocional

  • Se está apaixonado, está provavelmente a sentir um misto daquilo a que os gregos chamavam «Eros» (amor enquanto emoção de afecto, atracção pela pessoa inteira) e «Porneia» (amor puramente físico).

    Pode até ser que sinta um amor tão desinteressado que mereça a designação de «Ágape». Ou, segundo a visão da antropóloga Helen Fisher, está a experimentar a segunda fase do amor, a atracção, que sucede à fase do desejo e antecede a terceira e última fase, a da ligação.

    Em termos neurobiológicos, aquilo que sente resulta de um fenómeno complexo. No seu cérebro estão em curso mecanismos que envolvem um grande número de actores químicos. São eles os responsáveis pelas sensações de confiança, crença, prazer e recompensa que o invadem e afectam o seu comportamento, muitas vezes de forma divertida para os outros e, quem sabe, (nada) embaraçosa para si.

  • Está cientificamente provado que, neste estado emocional, os compostos químicos produzidos pelo organismo causam alterações comportamentais. É por isso que...

    • Sente desejo intenso de estar próximo da pessoa amada.
    • Altera o seu comportamento quando está na presença dela.
    • É mais tolerante com a pessoa amada do que com a generalidade das pessoas (não reconhece ou ignora os seus defeitos).
    • Anda distraído e ausente, não consegue concentrar-se em nada que não seja o seu objecto de paixão.
    • Sofre de sintomas de «abstinência» quando não está com a pessoa que deseja.
    • Sente-se optimista e cheio de vida.
    • Tem vontade de estar rodeado de pessoas.
    • Sente-se mais criativo e entusiasmado do que é habitual.
    • Sente-se seguro e capaz de superar as suas limitações.

    Homens

    Alguns estudos mostram que, mesmo inconscientemente, tendem a preferir mulheres jovens, o que em termos evolucionistas é explicado pelo facto desta característica indicar uma maior possibilidade de gerar crianças saudáveis.

    Mulheres

    O mesmo tipo de estudos mostra que, mesmo inconscientemente, procuram no homem estatuto de riqueza/poder, o que em termos evolucionistas é explicado pelo facto desta característica indicar que pode ser um bom pai.

    • O lobo frontal do hemisfério direito é possivelmente a área mais activa do seu cérebro.
    • Se é do sexo masculino, estão mais activas as áreas do seu cérebro ligadas a estímulos visuais e erecção.
    • Se é do sexo feminino, estão mais activas as áreas do seu cérebro ligadas à emoção, atenção e memória.
    • O seu sistema nervoso autónomo (independente da vontade) está a produzir mais dopamina (o químico que o faz sentir feliz, exaltado, enérgico e motivado para a conquista) e menos serotonina (o que explica o facto de se sentir «obcecado» pela pessoa amada).
    • Estão, ainda, em causa a norepinefrina, um estimulante responsável pela euforia, insónia, perda de apetite e batimento cardíaco acelerado, e feniletilamina (uma anfetamina natural com efeitos estimulantes e antidepressivos que pode tornar-se viciante).

    Desta mistura de químicos cerebrais resultam ainda outros sinais que denunciam a paixão:

    • Rubor
    • Suor
    • Tremor das mãos
    • A sua respiração falha
    • Sente «borboletas no estômago»
  • Tudo irá depender dos seus objetivos. Naturalmente, sendo uma emoção agradável, quererá prolongá-la o máximo de tempo possível.

    No entanto, é certo, sabido e provado pela ciência que a paixão tem uma duração limitada, acabando por se transformar noutro sentimento ou simplesmente definhando.

    Comece por pensar no que quer. A sua relação atual pode ajudá-lo a chegar onde deseja a médio ou a longo prazo?

    Também pode optar por simplesmente viver a paixão um dia de cada vez e pensar no resto mais tarde. Se essa escolha for consciente, já estará a gerir esse estado emocional.

    Seja qual for a sua opção, a sua estratégia passa por duas etapas:

    1º Passo: Conheça-se a si mesmo

    2º Passo: Passe à prática

  • 1º cenário: Você está a perder a sua identidade A paixão é uma emoção positiva que o chama a sair de si e a «mergulhar» no outro.  Pode, contudo, ter problemas se este «mergulho» for demasiado fundo e implicar que se despersonalize. Tem razões para se preocupar se…

    • Começar a encarar o seu companheiro como uma «bóia de salvação», um modelo a imitar/obedecer.
    • Sentir necessidade de medir muito bem tudo o que diz ou se há coisas sobre as quais não pode falar.
    • Se se retrair ou sentir desconfortável na presença dele, mesmo que de forma inconsciente (observe a sua expressão corporal: mantém uma postura descontraída ou tende a «fechar-se», cruzando os braços e as pernas, e a medir os seus movimentos?).
    • Deixar de fazer coisas de que gosta para não desagradar essa pessoa.
    • Não se manifestar quando discorda de alguma coisa, pensando que não tem importância.

    Pode estar a viver uma situação de amor patológico, pelo que deverá procurar ajuda especializada.

    2º cenário: Você acha que o outro lhe pertence

    Se ao «mergulhar» se mantém demasiado centrado no seu ego, tenderá a ver o  companheiro como o seu troféu de «natação» e poderá estar prestes a «afogá-lo» no seu «mar» de ciúmes e controlo, o que pode ser prejudicial. Pode estar a viver uma situação de amor patológico. É importante que procure ajuda especializada.

    3º cenário: Você está sempre à procura de uma nova relação

    Quando estamos apaixonados o nosso cérebro produz, entre outras substâncias químicas, a feniletilamina, um poderoso neurotransmissor com efeitos estimulantes e antidepressivos. À medida que as relações amorosas evoluem, normalmente, o organismo vai-se tornando indiferente aos seus efeitos. No entanto, em alguns casos, esta substância torna-se viciante, fazendo com que algumas pessoas saltem de romance em romance, em busca de uma nova (e cada vez maior) «dose» de euforia, tal como se de uma droga se tratasse. Se isto se passa consigo e lhe causa sofrimento, está na hora de procurar ajuda especializada.

  • Diversos estudos demonstram a correlação entre emoções positivas, como é o caso da paixão, e condições de saúde física e mental favoráveis, nomeadamente...

    • O sistema imunitário fica fortalecido, pelo que estará menos susceptível a doenças.
    • A paixão aumenta a nossa capacidade de resistir a situações de vida adversas, isto é, potencia a resiliência.

    Por outro lado, os estudos mostram que a paixão dura, no máximo, entre seis meses e três anos. Se tudo correr bem, esse sentimento evoluirá naturalmente para um estado de bem-estar de maior tranquilidade e sobriedade que fornece os laços para que você e o seu parceiro permaneçam juntos (fase da ligação). Nessa altura, o seu organismo…

    • Vai tornar-se tolerante à feniletilamina (a hormona responsável pela euforia).
    • Produzirá endorfinas, o que provocará sentimentos de apego mais profundo, tranquilidade e segurança.
    • Produzirá oxitocina, a «hormona do carinho ou do abraço» (a mesma que é libertada durante o orgasmo), que diminui a resistência à proximidade e aumenta a confiança no outro.
    • Produzirá vasopressina, a «hormona da fidelidade», que permite associar o prazer sexual a características específicas do parceiro como o odor.
    • A partilha afectiva originará uma sensação duradoura de bem-estar.

    Se a sua relação for minada pelo ciúme ou pela dependência, as consequências serão muito diferentes. Pode ser afectado por problemas de ansiedade, baixa auto-estima, tristeza, com todas as consequências negativas que isso pode implicar. Nesse contexto, pode estar em causa uma perturbação psicológica, pelo que deverá aconselhar-se junto de um especialista.

  • Se a paixão que está a viver for marcada pelo ciúme, dependência, obsessão, é importante que procure ajuda especializada. O mesmo se aplica se tende a saltar de romance em romance assim que a «química» inicial se desvanece e isso não o faz sentir feliz.

    A psicoterapia, conduzida por um psicólogo/psicoterapeuta, aplica-se a todas as situações de sofrimento psicológico que a pessoa não está a conseguir resolver ou compreender pelos seus próprios recursos.

    Se suspeita de uma situação do foro médico (tumores, síndromas neurológicos, problemas endócrinos, etc.), um psiquiatra estará mais habilitado a fazer uma triagem.

    Caso contrário, poderá consultar um psicoterapeuta. Os bons profissionais têm noções de diagnóstico que lhe permitem fazer a triagem dos casos que necessitam também de apoio médico e psiquiátrico.

Fonte e revisão científica:

  • Vítor Rodrigues, psicólogo clínico e ex-presidente da EUROTAS - Associação Transpessoal Europeia