Volta ao mundo em locais sagrados

Espaços que proporcionam experiências únicas para turistas ousados e aventureiros (fotos)

Existem locais e experiências que atraem multidões. Apesar de ter registado sempre uma grande procura, nas últimas décadas o turismo de cariz religioso e espiritual conseguiu mobilizar um crescente número de turistas. Pessoas que estão dispostas a percorrer grandes distâncias para observar sítios e construções com significados e simbologias muito próprias. Muitos não hesitam mesmo em ir a pé para chegar aos de mais difícil acesso. Estes são alguns dos locais mais procurados por este tipo de viajantes:

- Mosteiro de Jokhang em Lassa e Monte Kailash no Tibete

Construído no ano 647, o mosteiro de Jokhang, na capital tibetana, é o coração espiritual da cidade e tido como o mais sagrado dos mosteiros budistas. Diariamente, centenas de peregrinos confluem para aqui, prostrando-se no chão. Jokhang, classificado como Património da Humanidade pela UNESCO, acolhe o Festival da Oração Monlam, que junta centenas de monges de outros mosteiros budistas. O monte Kailash, a 6638 metros de altura na cordilheira dos Himalaias, é outro local de culto no Tibete.

Para os budistas é o centro do universo, para os hindus a morada de Shiva, mas jainistas e bönpos também o veneram. Todos os anos é visitado por milhares de peregrinos que fazem a pé os 52 km que circunscrevem o monte. Budistas e hindus percorrem o caminho no sentido dos ponteiros do relógio, jainistas e bönpos no sentido inverso. Alguns peregrinos defendem que o caminho deve ser feito num só dia mas, por norma, dura três.

A época do Festival de Oração Monlam, que decorre entre o quarto e o décimo-primeiro dia do calendário tibetano é uma das alturas para visitar o Mosteiro de Jokhang. Quanto ao Monte Kailash, a melhor altura para ir é entre maio e setembro. A escalada ao cume da montanha é, no entanto, interdita nas quatro religiões que o veneram, pelo que terá de o observar a partir da sua base.

- Lalibela na Etiópia

A 640 quilómetros de Addis-Abbeba, a 1500 metros de altitude, fica Lalibela, também chamada Jerusalém do Deserto. São 11 igrejas e um mosteiro escavados na rocha, construídos nos séculos XII e XIII a mando do rei Lalibela, com o objetivo de ali erguer uma nova Jerusalém. Como os edifícios foram escavados na rocha, a construção começou, literalmente, pelo telhado. O mais famoso dos edifícios é o templo dedicado a São Jorge, em forma de cruz grega, mas todo o local foi considerado património da Humanidade pela UNESCO.

É a fé, mais do que a importância histórico-cultural que, todos os anos, leva milhares de peregrinos cristãos ortodoxos a Lalibella. Fazem quilómetros a pé, muitas vezes descalços ou às costas de um burro, envergando um longo xaile branco (o gabi) e um turbante. Nas proximidades, mulheres que querem ter filhos e não conseguem engravidar e doentes mentais são mergulhados numa espécie de poço, na esperança de encontrar uma cura para os seus males.

O alojamento é feito pelos locais que garantem guarida e alimentação. O período do Natal ortodoxo, a 7 de janeiro, é a melhor altura para visitar este local. Na sua bagagem não se esqueça de incluir um bastão, pensos para as bolhas e algo para espantar as moscas, que chegam a ser muito incómodas e irritantes.

- Festas do Monte Carmel em Saut d’Eau no Haiti

Reza a lenda que, no século XIX, no Haiti, Nossa Senhora do Carmo apareceu a um camponês sobre uma palmeira, junto a uma cascata, a cerca de 60 quilómetros de Port-au-Prince. Mais tarde, temendo que à volta do local se multiplicassem as superstições, um padre francês mandou cortar a árvore, mas isso não impediu que, em pouco tempo, esta se tornasse no principal local de romagem para os haitianos.

Desde então, todos os anos, entre 14 e 16 de julho, milhares de haitianos dirigem-se a pé, de mota, de transportes públicos ou em viatura própria para as festas da Nossa Senhora do Carmo e também para venerar Erzulie, uma divindade feminina haitiana, numa cerimónia que mistura o sincretismo católico e o vudu. Os peregrinos, que friccionam o corpo com perfumes e ervas e mergulham em roupa interior sob a queda de água, vêm pedir fertilidade e a cura para doenças.

- Hajj em Meca na Arábia Saudita

O hajj, a peregrinação a Meca, é um dos cinco pilares do Islão e é a maior concentração de carácter religioso no mundo. É suposto que todos os muçulmanos, com condições físicas e financeiras para viajar até Meca, cumpram o hajj pelo menos uma vez na vida. A sua decisão não pode prejudicar ninguém, pelo que os peregrinos devem acautelar a situação de familiares que dependam de si. Se a viagem for prejudicial para alguém o hajj é invalidado.Por norma, a primeira parte da viagem é feita de avião, seguindo-se depois um percurso a pé.

Ao aproximarem-se de Meca os peregrinos entram no estado ihram. Usam roupas brancas não cosidas, não podem cortar o cabelo ou as unhas, manter relações sexuais, contrair matrimónio ou envolver-se em lutas. À chegada à grande mesquita de Meca, os peregrinos dão sete voltas à Kaaba (o grande cubo coberto por um pano negro), no sentido inverso ao dos ponteiros do relógio e seguem depois para Mina, onde acampam e passam a noite. O dia seguinte é passado no chamado Monte Arafat (que é, de facto, uma planície), a rezar e a ler o Corão.

Muitos peregrinos aproveitam a viagem para visitar Medina, onde está o túmulo de Maomé. A melhor altura para ir é nos primeiros dias do décimo-segundo mês do calendário islâmico. Tenha, todavia, em conta que só os muçulmanos podem participar no hajj. O acesso de não muçulmanos a Meca é muito condicionado.

- Caminho huichol em Wirikuta no México

A comunidade huichol, no estado de San Luis Potosí, no México, procede à apanha ritual do cacto peyote de dois em dois anos, entre outubro e março. É aos jicareros, os guardiões da tradição, que cabe fixar a data certa em que milhares de pessoas seguirão em jejum, primeiro, de autocarro, e, depois, por mais 100 quilómetros a pé, até ao território sagrado de Wirikuta, nos arredores de Real Catorce. Ali, os peregrinos, seguidores do rito wixarica, aguardam que o grupo de caçadores detete uma camurça (sinal da presença do espírito hikuri) e lancem as suas flechas.

É este o sinal para o início da colheita do cacto alucinogénio. Depois do jejum prolongado, o consumo do peyote (que só o povo huichol tem autorização para colher em Wirikuta) provoca sonhos e alucinações. Esta é uma tradição cada vez mais ameaçada, que um número de inteletuais mexicanos tem vindo a defender e apoiar. O período entre outubro a março é o melhor para o visitar. Tenha também presente que só os huichol podem colher o peyote em Wirikuta. A mochila deve incluir velas, cabaças, plumas e flechas.

- Khumba Mela em Haridwar, Allahabad, Nashik e Ujjain, na Índia

Aquela que é a maior peregrinação de massas hindu é também considerada a maior reunião pacífica à escala mundial. De quatro em quatro anos, alternadamente nas cidades indianas de Haridwar, Allahabad, Nashik e Ujjain tem lugar uma peregrinação que dura cerca de mês e meio e durante a qual milhões de peregrinos tomam parte num banho ritual. Haridwar é banhada pelo Ganges, Allahabad fica na confluência do Ganges com os rios Yamuna e Saraswati, Nashik está nas margens do Godawari e Ujjain nas do Shipra.

É para estas águas que confluem os fiéis que, durante a peregrinação, também alimentam os pobres e os homens santos. Entre janeiro e março de 2013, 100 milhões de pessoas dirigiram-se a Haridwar. A próxima Khumba Mela começa a 14 de julho de 2015 e desta vez terá lugar em Nashik.

- Ilha de Shikoku no Japão

A rota dos 88 templos, na ilha de Shikoku, no Japão, é hoje uma das mais importantes peregrinações para budistas e xintoístas. O caminho desenrola-se ao longo de 1400 quilómetros de relevo acidentado e vegetação frondosa e, se for feito a pé, pode levar entre dois a três meses a cumprir. Tem mais de 100 mil visitantes por ano, que procuram seguir os passos do monge Kukai, nascido na ilha no século VIII, um poeta e mestre de caligrafia, criador da primeira escola livre no Japão.

Aos 88 templos oficiais, juntam-se outros 20 secundários, num total de 108. O percurso segue o sentido dos ponteiros do relógio e começa em Tokushima, no leste da ilha. Os peregrinos usam camisas brancas e chapéus de palha cónicos, a que juntam um bastão com um pequeno sino, no qual está inscrito dois companheiros de caminho (sinal de que o peregrino é acompanhado por Kukai) e um saquinho de pano com orações.

À chegada a cada templo toca-se o sino, recitam-se textos sagrados, cantam-se mantras, medita-se e termina-se com uma oferenda. A pé, de bicicleta, de mota ou de autocarro são os melhores meios para lá chegar. Os mais corajosos, após o fim o percurso, voltam para trás, no sentido inverso. É costume local oferecer comida, água e sal aos peregrinos, como oferenda a Kukai, por isso é ofensivo recusar as ofertas.

- Santiago de Compostela em Espanha

A visita ao túmulo do apóstolo Santiago Maior marca o fim da peregrinação a Santiago de Compostela. Para lá chegar, os peregrinos percorrem centenas de quilómetros a pé, a cavalo ou de bicicleta. Mas há quem chegue em autocarros de turismo. Aquela que é a principal peregrinação europeia teve início no século IX, mas há quem defenda que os seus caminhos retomaram o itinerário seguido pelos ritos pagãos cujo término era mais a norte, no cabo Finisterra.

Depois de alguns anos de esquecimento, a partir dos anos 80 o Caminho de Santiago ganhou nova popularidade e, hoje, o número anual de visitantes ronda os 300 mil. Para aqueles que percorrem os últimos 100 quilómetros a pé, a Oficina do Peregrino da Catedral de Santiago emite uma Compostela. No final de 2011 o número total de Compostelas emitido foi de 183 mil, em 1989 não ultrapassavam as 5760.

No Ano Santo Jacobeo (sempre que 25 de julho calha a um domingo, o próximo é em 2021) são outorgadas indulgências a todos os fiéis que visitem a catedral, rezem uma oração pelo Papa e se confessem e comunguem nos 15 dias anteriores ou posteriores à visita à catedral de Santiago de Compostela. 25 de julho é uma das melhores datas para visitar o local. Pensos e creme para as bolhas, para quem vai a pé, são fundamentais na bagagem.

Texto: Susana Torrão com Francisco Mora (diretor do departamento de turismo religioso da Geotur)

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