Viajar para comer

O que um foodie faz para levar a sua paixão ao limite

Se, para uns, a comida é apenas uma forma de sobrevivência, para outros é pura paixão. Estes últimos intitulam-se foodies e veem nas viagens uma oportunidade de descobrir novos sabores.

Os foodies elevam a comida a um patamar superior. No entanto, desengane-se se está a pensar que gostam apenas de comer boa comida. Estes adoram também saber mais sobre a sua história e conhecer novos ingredientes.

Muitos fazem quilómetros para provar determinado prato. Tanto são vistos em restaurantes caros como também em tascas típicas. Tudo em nome de experiências únicas que começam no palato mas depressa atingem todos os sentidos. A norte-americana Elyse Pasquale é uma foodie quase de nascença. Enquanto a maioria das pessoas se lembra das festas de anos e dos primeiros dias na escola, ela não tem dúvidas que as suas recordações de infância estão associadas à comida e a mais marcante aconteceu em Londres aos sete anos.

«Foi a primeira vez que provei borrego e, na altura, senti que era o melhor prato que alguma vez tinha comido. Foi aí que decidi que haveria de experimentar todo o tipo de comida onde quer que estivesse», conta. O facto de ter começado a viajar com os pais cedo ajudou-a nessa tarefa e há anos que dedica o «tempo livre para explorar o mundo e a comida local», desabafa ainda Elyse Pasquale.

Já visitou 65 países e está a meio do projeto que intitulou Foodie International, cujo objetivo inicial era fazer 1.600 quilómetros, durante um ano para provar 100 das melhores comidas do mundo. No entanto, de um ano o projeto passou para três e, no final, o número de experiências gastronómicas irá ultrapassar a centena. A ideia surgiu em 2010, quando estava a aprender a fazer presunto numa quinta na região italiana da Toscana.

«Senti-me numa espécie de sociedade secreta e, nesse momento, decidi que iria fazer da comida, das viagens e da cultura a minha profissão», diz. Rodrigo Menezes, que ficou conhecido do grande público por ter participado no programa de televisão «Masterchef», é um dos poucos portugueses que se considera um foodie e também ele se lembra do momento de viragem neste amor pela comida.

Olhava para a comida de forma utilitária, embora já gostasse de ir à Mealhada comer leitão e de a mãe cozinhar muito bem, até ao dia em que foi jantar a casa de um amigo e provou um bife de atum braseado numa cama de tomate e de pontas de espargos. «Os sabores desse jantar
transportaram-me para outra dimensão e fizeram-me procurar na comida a diferença e, hoje, estou ligado a esta área profissionalmente», refere.

Paixão quase futebolística

Dos foodies, Rodrigo Menezes diz que são mais do que simples apaixonados pela cozinha. «Falamos sobre comida com a mesma paixão de que se fala de futebol. Vivemos a cozinha, somos apaixonados pelos ingredientes, queremos saber quem são os chefs e as suas equipas, queremos conhecer a história da gastronomia e saber que tipo de nutrientes estamos a ingerir para nos aproximarmos o mais possível de uma alimentação equilibrada», refere.

«Saber comer também é importante. Não temos problemas em admitir que para nós a felicidade é, por exemplo, comprar um livro de cozinha ou um utensílio para cozinharmos», sublinha ainda. Elyse Pasquale concorda e diz que «a comida é a única coisa que une todas as pessoas e culturas». A norte-americana vê a comida como «história viva de um lugar» e, cada vez que viaja, abrem-se novos caminhos para experiências magníficas, sem nunca esquecer a história por detrás do prato que está a provar.

Através do Foodie International, Elyse Pasquale quer mostrar aos viajantes como a comida pode transformar as suas viagens, «permitindo ver a cultura onde estão com outros olhos». Rodrigo Menezes não poderia estar mais de acordo. «Comer a comida local é a melhor forma de aprender a cultura de um sítio e descobrir novos ingredientes, e os portugueses têm esse espírito», desabafa.

«Não é por acaso que, quando alguém nos diz que vai de férias para determinado sítio, a primeira coisa que dizemos é: conheço aí um restaurante onde tens de ir. Há muitos séculos nos metemos nas caravelas e demos a conhecer ao mundo, entre outras coisas, novos ingredientes», realça ainda este apreciador de bons sabores.

A melhor experiência

Quando perguntámos qual a melhor refeição que Elyse Pasquale e Rodrigo Menezes já comeram, a resposta não se fez esperar. A norte-americana diz que foi em Quioto, no Japão, num pequeno restaurante kaisaki (comida tradicional nipónica). «Foi uma refeição maravilhosa, na qual todos os detalhes foram meticulosamente pensados. O equilíbrio entre cores, texturas, sabores e sazonalidade foi perfeito», recorda.

«Mas também gostei de várias refeições em San Sebastián, em Espanha, no restauranre Arzak e em Pienza, em Itália, no Latte di Luna», acrescenta ainda. O português recorda vários momentos áureos a comer mas há dois que se destacam pela simplicidade e pela explosão de sabores. «Comi uma dourada feita por um pescador, na ilha da Madeira, que me ficou na memória», afiança.

«E eu até sou um homem de carne, mas a dourada, acabada de pescar, temperada apenas com orégãos, alho, colorau e sal, um tempero pouco habitual para peixe, estava divinal. O outro aconteceu na zona de Guimarães e foi a primeira vez que experimentei trufa branca. O prato era uma simples omelete com foie gras mas a trufa branca elevou-a para um patamar superior», faz questão de realçar.

Portanto, não é preciso ser nada de complicado para captar a atenção dos foodies, por isso, é normal vê-los nos melhores restaurantes mas também nas tascas. «Uma das maravilhas da gastronomia é a especificidade que cada ingrediente dá a um prato», salienta Rodrigo Menezes, que viaja, «não só para comer coisas boas mas também estranhas». A caneja de infundice da Ericeira foi uma das coisas mais estranhas que já provou.

«É um peixe que fica a apodrecer durante 15 dias e tem um sabor muito intenso», explica. O mesmo acontece com Elyse Pasquale, que já comeu escorpiões fritos em Pequim, camarões vivos em Xangai e Copenhaga, cabeça de porco cozida na Toscana, porquinho-da-índia em Lima, pepino do mar cru em Tóquio, bucho de carneiro em Glasgow, crocodilo em Nova Orleães e batido de bacon em Nova Iorque.

Gastronomia italiana e japonesa

Rodrigo Menezes é um defensor da gastronomia portuguesa e realça o facto de termos uma cultura gastronómica única e «excelente em todas as regiões», como demonstra no programa «Gosto de Portugal», que apresenta no canal 24 Kitchen. Elyse Pasquale já ouviu falar da nossa gastronomia e Portugal está na sua lista de países a visitar este ano, juntamente com a Finlândia, Equador, Chile, Zâmbia, Africa do Sul, Azerbaijão, Qatar, Vietname e Hong Kong.

Tal como Rodrigo Menezes, as suas cozinhas de eleição são a italiana e a japonesa. «Sou fã da comida da japonesa por toda a cultura que está por detrás do seu conceito, isto é, comida servida à temperatura do corpo, os temperos usados, o facto de os ingredientes não serem muito cozinhados e, claro, a sua qualidade. Já o fascínio pela gastronomia transalpina vai além da comida, deriva também «da forma como é confecionada e da maneira como eles vivem a refeição em família», explica Rodrigo Menezes.

«É um ritual único do qual já tive o privilégio de fazer parte em casa de amigos italianos e, dessa forma, as refeições têm ainda mais sentido. Sim, porque posso estar a degustar a melhor refeição do mundo mas, se estiver sozinho, a comida não tem o mesmo gosto», sublinha. Este é outro aspeto que define os foodies, pois gostam da partilhar a sua paixão pela comida com os amigos e família e até despertar sentimentos semelhantes nos outros. «Comer faz-nos felizes!», remata Rodrigo Menezes.

Chefs pelo mundo

Se os foodies viajam para conhecer mais sobre a gastronomia, os grandes chefs não lhe ficam atrás e há viagens que lhes mudam o trajeto como comprovámos durante o Internacional Festival Gourmet, no Villa Joya, em novembro de 2013, durante o qual tivemos oportunidade de falar com três estelas da cozinha internacional. Um deles foi Gaggan Anand, que está a revolucionar a comida indiana no restaurante Gaggan em Banguecoque.

Os outros foram David Thompson (que lidera na mesma cidade da Tailândia o Nham, o 32º restaurante na lista dos 50 melhores restaurantes do mundo) e Enrico Cerea, chef do Da Vittorio, um restaurante em Bérgamo, em Itália, com três estrelas Michelin, muito elogiado por quem já teve oportunidade de o experimentar.

A cozinha de Gaggan Anand

Na cozinha do Gaggan, em Banguecoque, retorna todos os dias à sua Índia natal para fazer aquilo que os críticos e ele próprio chamam de gastronomia indiana progressiva. «Usamos as receitas antigas mas usamos técnicas científicas para lhe dar uma apresentação e até texturas diferentes», diz e, para isso, muito contribuíram os meses que passou em Espanha, na Fundação El Bulli, do chef Ferran Adrià.

«Foi uma experiência que me mudou não só profissionalmente mas como pessoa. Foi lá que entendi que a comida é uma transformação física e química», explica. Gaggan Anand não tem dúvidas de que «viajar traz-nos outras perspetivas da comida» e nesta sua visita a Portugal descobriu que há vários ingredientes que «a gastronomia portuguesa tem em comum com a indiana, como o piri-piri».

Este chef lembra que, «se Vasco da Gama não tivesse existido, talvez não houvesse especiarias no mundo inteiro». A sua próxima viagem gastronómica será a Goa mas antes vai-se dedicar a estudar a história da gastronomia portuguesa. «Vou partir da origem para perceber a comida goesa», revela este foodie.

Os sabores tailandeses que inspiraram David Thompson

Até 1988, altura em que viajou para Banguecoque, este australiano nunca tinha pensado dedicar-se à cozinha. No entanto, o contacto que teve com a rica gastronomia tailandesa mudou-lhe os planos. Desde essa altura, tirando uns anos em que esteve em Londres para abrir aquele que foi considerado o melhor restaurante tailandês no estrangeiro, a capital tailandesa tem sido a sua casa e a cozinha tailandesa a sua grande paixão.

«É uma das grandes gastronomias do mundo e, no passado, foi mesmo um pilar da cultura do país. Os tailandeses exprimiam a sua hospitalidade, as suas obrigações, a sua generosidade, os seus compromissos e até religiosidade através da comida», refere. David Thompson realça que «tanto se come bem nos restaurantes como na rua e isso deve-se ao facto de ser uma gastronomia onde há um equilíbrio de sabores, texturas e ingredientes ímpar, conseguindo-se uma sequência exata de sabores: salgado, amargo, doce e ácido».

A paixão gastronómica de Enrico Cerea

É um dos grandes chefs italianos e partilha com os foodies a paixão pela comida. «A cozinha é paixão, coração e amor», afirma, lembrando que nasceu no meio e, desde pequeno, ajudava os pais no Da Vittorio, restaurante que hoje lidera com os irmãos. Mas mesmo com essa herança, as viagens também fizeram de Enrico Cerea o que é hoje. «Passei por vários restaurantes do mundo, onde tive grandes professores e absorvi o melhor de cada um», sublinha.

Em Bérgamo, apesar de estar longe do mar, confeciona o melhor peixe de Itália e acredita que o sucesso da gastronomia transalpina no mundo se deve à grande variedade de ingredientes bons de norte a sul do país que são invejados em todo o mundo. «Temos o melhor tomate, a mozzarella e outros queijos, o salame, a carne e o peixe», exemplifica.

Texto: Rita Caetano

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