Antiga coutada real, a Tapada de Mafra ainda mantém a vocação original mas actualmente oferece um conjunto de actividades de carácter desportivo e pedagógico em ambiente de floresta. A paisagem e as espécies em vias de extinção tornam este local de visita obrigatória.

Local privilegiado de lazer e caça de D. João V, o monarca que se tornou conhecido pelo enriquecimento arquitectónico do país com obras de grande vulto, como o Aqueduto das Águas Livres, a Tapada de Mafra foi mandada construir em 1747
pelo que ficou conhecido como «o Magnânimo», na mesma altura que o Palácio Nacional de Mafra.

Este imenso pulmão verde, que contrasta com os ambientes citadinos, dá pelo nome que hoje é conhecido a partir da implantação da República. Até então, apenas a corte tinha o privilégio de usufruir do espaço, que era utilizado como coutada de caça e palco de actos protocolares.

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Durante mais de seis décadas o muro que cerca a zona interdita o acesso ao público e apenas em 1994, após um período marcado pelo abandono e consequente degradação, a tapada abre as portas, permitindo visitas de forma organizada e com oferta de numerosas actividades, explicou à Jardins Margarida Gago, responsável pela pasta da educação ambiental.

A vocação inicial deste espaço foi preservada, o que lhe valeu o título
de Zona de Caça Nacional. A falta de espaço, por um lado, e de alimentos,
por outro, obriga ao controlo das espécies, sobretudo as de grande porte. «Seleccionamos os animais doentes para abate, ou seja aqueles que naturalmente seriam a presa mais fácil para o predador. Desta forma, conseguimos manter o padrão genético mais saudável», justifica Margarida Gago.

Observar as rotinas da vida selvagem

Nos 819 hectares da tapada vivem em plena liberdade gamos, veados, javalis, raposas, ginetos, saca-rabos e cerca de 50 espécies de aves de rapina, entre muitas outras espécies de pequeno porte. Para permitir o contacto mais próximo
com alguns destes animais, a tapada mantém em cativeiro cerca de
12 exemplares.

É que, tratando-se de espécies selvagens, pouco habituadas ao contacto humano, não se deixam observar facilmente em liberdade. Entre as espécies protegidas destacam-se um casal de lobos, oferecidos pelo Centro de Recuperação do Lobo Ibérico (CRELIM), instituição que fica paredes meias com a tapada e se encarrega dos cuidados e alimentação destes canídeos.

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Se for paciente, certamente conseguirá levar para casa fotografias desta espécie em vias de extinção. Com uma pitada de sorte e olhos de lince, pode ainda assistir ao inigualável voo da águia-de-bonelli, outra das espécies protegidas que fazem da tapada o seu habitat.

Regra geral, é a própria natureza que se encarrega da alimentação dos animais. No entanto, no Verão e nos meses em que a pastagem está mais seca são distribuídos por locais estratégicos da floresta bebedouros e comedouros.

Habituados à rotina ditada pelos temporizadores que a horas pré-definidas disponibilizam os cereais, alguns animais chegam mesmo a fazer as camas debaixo dos contentores à espera da refeição.

Sobreiro imponente com características únicas

Os encantos da tapada, porém, não se esgotam na fauna. A imensa floresta
é composta por numerosas espécies, entre as quais se destacam plátanos, sobreiros, pirliteiros, carvalhos, choupos, pinheiros e eucaliptos que fazem as delícias dos amantes da natureza.

Um dos ex-libris da tapada é o imponente sobreiro que a tapada alberga há mais de 50 anos. Trata-se de um dos maiores da Europa e, por isso, foi classificado como árvore de interesse público. Para que possa ter noção das dimensões desta espécie protegida, duas pessoas de mãos dadas não são suficientes para abraçar o tronco.

Além da imponência, este sobreiro tem a particularidade de não ser descortiçado há, pelo menos, cinco décadas, o que lhe confere uma casca com características únicas. Do trio de árvores classificadas que a tapada alberga, fazem ainda parte um castanheiro-da-Índia e uma olaia.

Em 1993, um violento incêndio dizimou centenas de hectares de vegetação. As zonas afectadas foram reflorestadas e as árvores plantadas encontram-se devidamente cercadas para não servirem de alimento aos animais. Como medida preventiva, na zona junto ao muro, a intervenção privilegiou a plantação de freixos, plátanos e outras espécies folhosas que têm a particularidade de atrasar
a propagação do fogo.

Na época de fogos a tapada é vigiada com especial atenção sobretudo a partir do posto situado no ponto mais alto do recinto. Se o Sol espreitar, não perca a oportunidade de o visitar. Oferece uma paisagem ímpar, com vista sobre a serra, o palácio e o mar que banha a Ericeira.

Desportos e caminhadas para todas as idades

A visita à tapada pode ser feita de comboio ou a pé e tem início no Portão do Cudeçal. Caso prefira fazer exercício físico, tem a opção de três percursos pedestres. A Tapada oferece numerosas actividades para todos os gostos e faixas
etárias. Caça, BTT, arco, tiro e besta, são alguns dos desportos possíveis
de praticar. Para os menos dados a estas modalidades, existe a opção de visitar os dois núcleos museológicos.

O Museu da Tojeira conserva animais embalsamados, apreendidos em caçadas ilegais, assim como pegadas, dejectos e peles de algumas espécies. O objectivo da exposição é dar a conhecer aos mais pequenos as características da vida animal. Aliás, as crianças são os principais visitantes da floresta.

No ano passado, a tapada recebeu mais de 20 mil estudantes. E não é por acaso: do vasto leque de actividades, grande fatia é constituída por acções pedagógicas de acordo com as faixas etárias dos jovens.

O Museu de Carros de Tracção Animal, por sua vez, reúne uma colecção de breques, aranhas, coupés e outros tipos de veículos do séc. XIX. Pela sua dimensão e características, a tapada não se esgota numa visita. Se decidir visitá-la este mês pode contemplar as crias dos javalis.

Veja na página seguinte: O que acontece a partir de Abril de cada ano

A partir de Abril de cada ano, tem possibilidade de conhecer a tapada à noite para descobrir os rituais dos animais impossíveis de observar fora deste período ou ao amanhecer para desfrutar dos sons mágicos do despertar da floresta.

Antes de sair de casa, certifique-se que tem roupa e calçado confortáveis. Caso opte pela visita à noite ou de madrugada deve precaver-se com uma lanterna.

A tapada é propriedade da Régie Cooperativa, divida entre o Estado, a Câmara Municipal de Mafra, a Liga dos Amigos de Mafra e outras entidades. As receitas da bilheteira e da venda dos produtos da floresta (madeira, pinhas e caça), assim como alguns projectos a que se candidata, permitem a sobrevivência deste oásis a poucos quilómetros da capital.

Os percursos que pode fazer

De comboio

Visita aos cercados dos animais em cativeiro e museus, com duração de duas horas. Só ao fim-de-semana. A partir de € 5,00.

Pedestres

Ribeirinho
Percurso junto às linhas de água com passagem na cerca dos gamos e veados ao longo de quatro quilómetros. Tem duração de duas horas. A visita guiada custa € 5,50.

Tojeira
Com 7,5 quilómetros, dura cerca de três horas e meio e inclui uma visita aos cercados. Custa € 7,00.

Boavista
Percurso com mais de três horas, com inclinação acentuada. Privilegia a contemplação da flora e das aves de rapina. Inclui visita guiada e custa € 7,00.

Outras sugestões:

BTT
É fornecido um mapa com as instruções do percurso com três horas. Custa € 20,00 e exige bicicleta própria.

Nocturno
Nas noites de lua cheia entre Maio e Outubro.

Amanhecer
Entre Março e Outubro.

Mais informações em www.tapadademafra.pt

Texto: Rita Gonçalves