Nos silêncios da floresta da Gardunha na apanha de cogumelos

A pretexto do “Festival do Cogumelo” na aldeia de Alcaide, no Fundão, saímos para o campo acompanhados por um dos maiores especialistas portugueses nestes fungos. Com José Matos embrenhamo-nos nos bosques da Serra da Gardunha e entramos no mundo encantado. Há, contudo, perigos. O cogumelo é delicioso à mesa mas também pode ser mortal.

Há nos cogumelos um mistério que nos atrai. São efémeros, ariscos, deliciosos mas também perigosos, até mesmo mortais. Eclodem nas sombras da floresta, alimentam o nosso imaginário, revestem-se de formas e de cores únicas na natureza. Não possuem raízes nem folhas. No fundo, o que levamos ao prato quando degustamos, por exemplo, um arroz de cogumelos, não é mais do que o resultado da frutificação de alguns fungos. Um “não é mais” que muito tem para contar. No mundo há dezenas de milhares de espécies de cogumelos e a sua curta vida reveste-se de factos singulares. Em Portugal, um cantinho da Beira Interior, no concelho do Fundão, torna-se entre novembro e o início da primavera algo a que podemos chamar como reino encantado. Nos bosques de carvalho, castanheiro, pinheiro, entre outras castas vegetais, eclodem perto de duas centenas de espécies de cogumelos.

Caminhamos na vertente norte da Serra da Gardunha, a meia encosta entre o largo vale, a Cova da Beira, e o pico da montanha. Com o final de outubro as sombras do bosque, húmidas e tépidas, tornam-se o pasto ideal para a eclosão dos cogumelos, não só no solo, como também nos troncos das árvores. José Matos, ex-comissário de bordo da TAP, acompanha-nos numa saída micológica. Um apaixonado e especialista em cogumelos que há pouco mais de uma dezena de anos pouco ou nada conhecia acerca deste “quarto reino, depois do animal, vegetal e mineral”, como nos explica.

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A diversidade de espécies de cogumelos identificadas no concelho do Fundão.

José Matos associa-se todos os anos à festa que anima a aldeia de Alcaide no concelho do Fundão. A terra ganha em novembro novo estatuto, torna-se a “Aldeia Cogumelo” e faz desta marca motivo para o festival “Míscaros”. Localidade com pouco mais de 500 habitantes, recebe até 30 mil visitantes, como aconteceu em 2016 segundo dados da autarquia. Esgrime bons argumentos; com as tasquinhas improvisadas pela própria população e onde se provam produtos locais, com a animação de rua, onde atuam grupos de bombos da aldeia de Lavacolhos, com apresentações culinárias e saídas de campo, como aquela a que agora nos juntamos.

Nos cerca de 20 hectares da sua propriedade, a Quinta Vale D'Encantos, José Matos chega a identificar perto de 160 espécies de cogumelos. Volvidos 13 anos de vida no Fundão, o especialista ainda se surpreende com o que descobre. “Quase todos os anos encontro espécies novas”, sublinha enquanto calca o terreno húmido com uma longa vara. Um bordão que é boa ajuda na hora de arrebitar o chapéu de um míscaro escondido na folhagem seca. José Matos obriga-nos a acelerar o passo nestes caminhos exigentes. Escutamos: “todos os cogumelos têm toxinas, algumas desaparecem com a cozedura, outras não”, explica o nosso guia, para sublinhar o aviso que fez no início da caminhada: “na dúvida não recolha cogumelos silvestres”. Uma advertência com todo o sentido. No chão, entre os nossos pés, estão dois pequenos exemplares de Amanita phalloides. Em Portugal também os conhecemos como “cicuta verde”. “Veneno puro”, adverte José Matos, “são responsáveis por 90% das mortes por ingestão de cogumelos”. Um grama deste cogumelo mata uma pessoa. Ainda na categoria dos cogumelos potencialmente perigosos, deparamo-nos com um que de inocente tem só o currículo que deixou nas histórias de encantar. O Amanita muscaria, de chapéu vermelho e pintinhas brancas deve ficar apenas no cesto das histórias da carochinha. Curiosamente, como nos diz o nosso interlocutor, “as lesmas comem a muscaria e não morrem. Infelizmente ainda não se conseguiu descobrir o seu antídoto”. Noutro sentido e de acordo com José Matos, “três estudantes da Universidade do Porto conseguiram desenvolver uma antitoxina para o Amanita phalloides. Já foi testada em animais. Deviam receber o Prémio Nobel da Medicina”. O especialista lança a frase com ar grave. Não há sorrisos.

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Puro veneno. À esquerda um Amanita Phalloides, alguns gramas são o suficiente para matar um ser humano adulto. À esquerda um Amanita muscaria, altamente tóxico.

Um risco para a saúde pública que não se coloca neste Festival como sublinha Paulo Fernandes, presidente da câmara municipal do Fundão. “Todos os cogumelos servidos à mesa, sejam míscaros, frades, boletos ou sanchas, são inspecionados por autoridade alimentar, antes e durante o festival. Acresce que uma parte substancial dos cogumelos que podemos degustar no decorrer do festival, nos arrozes, nas feijoadas, grelhados, em sopas, provêm de cultura, são adquiridos junto de empresa certificada”.

Na próxima página fique a conhecer os perigos que ameaçam os cogumelos da Gardunha.

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