Japão, diferente entre iguais

O que é desvalorizado na nossa sociedade é aqui elevado a uma forma de arte

O sol nascente do Império Japonês ainda não se levantou e já há muito que o Tsukiji, o mercado central de Tokyo, acordou para a sua loucura do dia-a-dia. Tudo começa às 3 da manhã com a chegada do peixe, que aflui ao Tsukiji vindo dos quatro cantos do Mundo. O mercado estende-se por 20 hectares cobertos, onde pululam milhares de pequenas bancas de venda, muitas delas na posse das mesmas famílias há gerações. A melhor forma de o visitar é não pensar na orientação e deixar-se perder sem rumo no labirinto, descobrindo a cada passo espécies de peixes, mariscos, moluscos e cefalópodes que não conhecemos nos nossos mercados. A experiência é inigualável.

Dentro da sua organização, o Tsukiji é o local mais desorganizado de Tokyo. Tudo o demais na cidade é perfeito, desde a limpeza das ruas, ao cumprimento rigoroso dos horários dos autocarros, aos motoristas de táxi de luvas brancas, à imaculada beleza de tudo o que nos rodeia. Os japoneses possuem um sentido estético sem par, que aplicam até nos elementos mais básicos do quotidiano. Coisas que seriam desvalorizadas pela nossa sociedade ocidental são aqui elevadas a uma forma de arte. A apresentação dos produtos nas lojas, a sublime delicadeza dos embrulhos, as vénias com que somos presenteados a cada instante. É quase comovente estar rodeado de tanta perfeição.

A ordem e civismo que definem a essência do Japão são elementos visíveis das suas tradições milenares, muitas delas assentes na família imperial, que é a mais antiga linha dinástica contínua do Mundo. Esta longevidade só foi possível com a ajuda da divinização do Imperador, que era considerado um descendente directo dos Deuses. Ainda assim, a história da família imperial não esteve isenta de grandes sobressaltos. Na verdade, ao longo dos séculos o poder executivo sobre o país transitou para as mãos de várias famílias de senhores da guerra, os chamados Shoguns. Os cinco principais shogunatos: Soga (530-645), Fujiwara (850-1070), Minamoto (1192-1331), Ashikaga (1336-1565) e Tokugawa (1603-1867), efectivamente comandaram o Japão, e muitas das obras de arte que sobreviveram até aos nossos dias a eles se devem. As mais belas estão sem dúvida a algumas horas de bullet train de Tokyo, em Kyoto.

Os shoguns construíram palácios, templos e jardins que visavam demonstrar o seu poder e garantir que os Deuses estariam sempre do seu lado. No total a cidade possui mais de 2000 templos budistas e xintuístas, alguns dos quais foram declarados Património da Humanidade.

Kyoto é também casa para as últimas representantes da milenar arte de “Geisha”. Um verdadeiro ícon do Japão, as geishas são artistas (é esse aliás o significado da palavra) que se dedicam ao entretenimento masculino através de artes como a dança, a música, a interpretação e o canto. Na sua forma tradicional, da qual restarão apenas algumas centenas no Japão, as geishas não são prostitutas, estando mesmo tais práticas mais carnais vedadas pelo seu rígido código de profissão. As geishas genuínas são difíceis de encontrar, ficando normalmente confinadas às okiya onde residem, apenas saindo pela calada da noite com as suas aprendizes, maiko, para irem ao encontro dos abonados clientes dispostos a pagar algumas centenas de euros pelos seus graciosos serviços. Nas ruas do bairro de Gion, a zona mais tradicional de Kyoto, a maioria das supostas geisha que se vêem são turistas assim vestidas para viverem uma experiência de geisha. Esta “brincadeira” é um exemplo da deliciosa naiveté deste povo que tão facilmente nos encanta com a sua pureza. As pessoas, as paisagens, os monumentos, a gastronomia, a arte… não faltam razões de peso para visitar o Japão.   


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