Fundão: Em Alcongosta passeamos na maior maternidade de cerejas do país

Esta é uma viagem à maior maternidade de cerejas do país. No Fundão, nos vales da freguesia de Alcongosta, aconchegam-se milhares de hectares de cerejais. De abril até junho por aqui há celebração. Primeiro com as cerejeiras floridas, depois com a Festa da Cereja. De permeio pode apadrinhar uma jovem cerejeira ou deleitar-se num piquenique.

Eu culpado me confesso. Culpado por anos a fio ver na beirã Serra da Gardunha pouco mais do que um último obstáculo na demanda da grande Estrela e das neves nas alturas. Duplamente culpado por ser um apreciador incondicional de cerejas, ansiando a sua época a partir de maio ou junho, dependendo dos humores do tempo, e somente as ver como produto de aquisição nos mercados. E ali mesmo, nos vales ensolarados da Gardunha, a meia dúzia de quilómetros da velocidade da A23 que tantas vezes me levou à Estrela, espraiando-se, habitam dezenas de quilómetros quadrados de pomares de cerejais.

Agora, num soalheiro dia de abril deste 2017, vogo ao sabor de um comboio turístico, lento e trepidante, mas obstinado na conquista das estradas municipais da freguesia de Alcongosta, no Fundão, concelho que conta mais de oito mil hectares de cerejais. E assim me redimo pelo segundo ano consecutivo. Primeiro porque passeio com vagar neste enorme maciço da Gardunha, depois porque me torno mais do que um provador passivo de cerejas. Estou na casa delas, nos cerejais em flor, onde dentro de algumas semanas brotarão em cachos as cerejas. E assim me sinto um privilegiado. Comigo está Patrícia Ramos, técnica de turismo do município do Fundão e apaixonada conhecedora da terra onde nasceu. O que inclui, obviamente, as necessárias explicações sobre esta Cereja Cova da Beira, um produto IGP (Indicação Geográfica Protegida) que também vamos encontrar nos concelhos vizinhos da Covilhã e Belmonte.

Fundão: Em Alcongosta passeamos na maior maternidade de cerejas do país

Com maio as primeiras cerejas:

Na altura em que esta peça é publicada, com maio já estreado, saem dos pomares do Fundão as primeiras cerejas rumo a diversos mercados, nomeadamente o nórdico, com capacidade para pagar a bom preço, próximo dos 50,00 euros o quilo, estas cerejas que inauguram a época. Mais tarde irão alimentar o mercado nacional, mas também o Chile, Brasil, Angola, Inglaterra, Países Baixos. “Um bom ano de cerejas pode render perto de oito mil toneladas deste fruto”, garante-me Patrícia, enquanto o comboio turístico franqueia uma curva apertada da estrada. A poucas dezenas de metros estende-se um campo tomado de branco. Contas feitas há mais de dois mil hectares em floração só nesta freguesia. Uma alvura que se presta a inevitáveis comparações entre a Gardunha e as neves da Estrela. Mas, aqui, esta “neve” não é produto de céus cinzentos, antes de dias tépidos e do trabalho incansável, não só do Homem, como também das obreiras dos cerejais, as abelhas. “São elas o elemento polinizador das cerejeiras. Uma boa polinização tem de ter vento fraco, abaixo dos 25 km/h, temperatura acima dos 12 ºC e tempo seco”, como me conta Patrícia, acrescentando, “só 5 a 10% das flores são fecundadas. Os produtores têm uma receita antiga para atrair as abelhas para os seus cerejais. Pulverizam as árvores com uma mistura de água, erva-cidreira e mel”. Cuidar de um pomar é muito do que contar com o pacto das abelhas. É um trabalho de ano inteiro que obriga a enxertos, a podas, a renovar os pomares a cada 15 anos, a selecionar as melhores variedades de cerejas, a escolher solos calcários, com pouca água e, no caso dos crentes, um pedido a São Pedro, que traga primaveras de tempo benigno. A cereja é fruto que gosta do frio na altura certa. Precisa de mais de 700 horas de temperaturas baixas no outono e inverno. Mas, depois, aproximando-se o estio, aprecia o calor.

Fundão: Em Alcongosta, passeamos na maior maternidade de cerejas do país

Toco nas pétalas destas flores delicadas, “cada uma fornecendo 3 ml de néctar com 60% de açúcar”, leio no guia que trago para o terreno. Tento imaginar como dentro de um mês cada um dos botões se tornará numa sumarenta cereja. E de como este fruto, em Junho (de 9 a 11) será capaz de atrair ao Fundão, mais concretamente aqui, a Alcongosta, 40 mil visitantes para a “Festa da Cereja”. O culminar de um calendário anual em torno deste fruto com origens asiáticas que, desde 2004, lhe tem tirado parte do carácter sazonal e que convida o forasteiro a visitar a maternidade das cerejas. Atualmente não trincamos apenas a carne da cereja do Fundão, também a bebemos em licor, em chá, a saboreamos nos bombons criados pelo chefe chocolateiro António Melgão, ou no pastel doce desenvolvido na Escola Profissional de Hotelaria do Fundão (um pastel que curiosamente quase não se encontra nas pastelarias locais). O município detém a patente deste acepipe semelhante, no folhado, ao pastel de nata. A receita para a confeção tem segredo. Um fruto que fora das fronteiras do Fundão já fez mexer as cozinhas de chefes como José Avillez, Miguel Laffan, Miguel Castro e Silva, Kiko Martins, Vítor Sobral e Hugo Nascimento e atraiu marcas como a Compal, Santini ou Yonest que desenvolveram edições limitadas com cereja.

Fundão: Em Alcongosta, passeamos na maior maternidade de cerejas do país

António, o homem que faz cestos há 71 anos:

Deixo o comboio e os campos na companhia de Patrícia Ramos. Vamos visitar, aqui mesmo na pacata Alcongosta uma testemunha de um tempo quase perdido. O senhor António, 80 anos de vida, natural desta freguesia, há 71 anos que labora num oficio historicamente ligado à apanha e transporte das cerejas, a produção de cestos de verga em madeira de castanho. A oficina de To Nunes, como é conhecida, é território singular. Poucos metros quadrados são espaço suficiente para juntar as ferramentas do ofício, dezenas de cestos e outras peças em verga, “coisas que eu e a minha mulher fazemos e que vão tendo saída aqui e nas feiras”, artefactos que marcam a afeição clubística deste artesão e uma exposição com milhares de canetas de plástico muitas com marcas promocionais. “Uma ´entretenga`. Há muitas pessoas que aqui chegam e deixam as suas canetas”, diz-nos este beirão, enquanto se presta a explicar-nos a sua arte. Um labor que começa na montanha com a seleção das vergas de castanheiro. “Em dezembro e janeiro cortamos as madeiras e vão para uma cova para manterem a humidade. Assim não partem”, explica-nos António. Mais tarde a madeira será tostada, ripada num “podão”, altura em que vai para a “mula”, um enorme artefacto onde o mestre cesteiro se senta para, com um cutelo, desbastar a madeira. Um processo que continua com um banho de água durante um dia. Só então se inicia, verdadeiramente o processo de entrelaçamento do cesto. “Levo duas horas a fazer um cesto, mas como vê, é trabalho de meses”. O produto final vende-o António entre 15,00 a 20,00 euros, dependendo do tamanho da peça. O artesão sabe que está entre os últimos da sua linhagem, “há 70 anos havia mais de 200 oficinas aqui. Hoje, para além da minha, há um velhote de 90 anos a fazer cestos e um rapaz que aprendeu comigo”.

Na próxima página saiba como pode apadrinhar uma tecedeira e viaje até à aldeia de Janeiro de Cima.

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