Atenas, a capital de Hellas

O navio atraca no porto de Pireu depois de uma viagem através da noite pelo Egeu. O mítico porto, que desde há mais de 2000 anos faz a ligação de Atenas às ilhas e ao mundo mais além, é a porta de entrada para essa cidade que foi tão central na História da Humanidade pelos seus contributos culturais, civilizacionais e até mitológicos.

Apesar de hoje em dia a cidade com nome de Deusa ter algo de infernal, nomeadamente a poluição e o trânsito caótico, ela ainda tem interesse mais que suficiente para justificar uma visita profunda e cuidada. Atenas é uma cidade que vale principalmente pelo riquíssimo património que possui, encimada pela Acrópole, mas não é só de pedra que a capital da Grécia é feita, existem nela muitas outras coisas e experiências para ver e viver.

A visita a Atenas faz-se de cima para baixo, partindo do “alto da cidade”, que em grego se diz Acrópole. Neste planalto sobranceiro a toda a cidade, 150 metros acima do nível do mar, foram construídos pelos gregos antigos o Partenon, templo maior de Atenas, e o Erecteion, templo dos deuses do campo. Estas construções datam da era de ouro de Atenas, tendo ao longo dos séculos seguintes sido alteradas na sua forma e uso em função do seus ocupantes sucessivos. Os Romanos alteraram as divindades a quem os templos eram consagrados, os Bizantinos transformaram o Parténon numa igreja dedicada à Virgem Maria, com o Ducado de Atenas, passou a Catedral, tendo o Palácio Ducal sido erguido também na Acrópole. Depois da conquista da Grécia pelos Otomanos, o Parténon foi usado como o quartel generao do exército, sendo uma das construções da Acrópole transformada no harem pessoal do Governador. Mais tarde, em 1687, o cerco veneziano, e o consequente bombardeamento a que foi sujeito, trouxe-lhe estragos consideráveis uma vez que estava a ser usado como depósito de pólvora. Com a Guerra grega de independência, iniciou-se um processo de “helenização” da sociedade (nome feliz que vem de Hellas, o nome grego para Grécia, que é o preferido pela população local), que fez com que as estruturas pós-Bizantinas fossem eliminadas. Nos anos recentes o sítio arqueológico tem estado em permanente renovação, para lhe devolver o estado mais próximo do original possível.

Descendo do monte que aproxima os gregos do Olimpo, a residência sagrada dos seus doze deuses principais, chega-se ao Museu da Acrópole, uma instituição, que em 2009 foi re-aberta em grande splendor para albergar o conjunto de coleções dos achados arqueológicos da Acrópole. É aqui que estão as esculturas originais que ainda existiam nas ruínas, que foram substituídas no local por réplicas. Isto faz com que a visita à Acrópole não fique complete sem uma visita ao seu museu. Ambos fazem parte de um todo deste extraordinário monumento que mais que grego é de toda a Humanidade.

Por boa parte da cidade, e até mais além, na sua periferia, existem monumentos e sítios arqueológicos que mostram vestígios da Grécia Antiga. Entre os mais importantes contam-se o Templo de Zeus, pai de todos os deuses Helénicos, a antiga Ágora, o teatro de Dionísio, a Ágora Romana. Atenas é uma cidade que merece pelo menos 3 dias de visita, tal é a riqueza do seu património construído, ao qual se juntam ainda inúmeros museus recheados de peças vindas de todo o país, continental e ilhas.

Uma visita a Atenas não fica completa sem conhecer os seus bairros mais tradicionais, onde a vida é feita a ritmos de antigamente. Os mais interessantes são Plaka e Anafiotika. O primeiro é um bairro essencialmente comercial, um emaranhado de ruas que evidenciam a natureza bem sul europeia das suas gentes e tradições. As lojas sucedem-se lado a lado com restaurantes de cozinha tradicional, onde se vive o culto da mesa à grega, com alegria, animação e muito ruído. As ruas de Plaka estão permanentemente recheadas de gente, locais e turistas, fazendo um passeio por este bairro uma agradável experiência de vida de rua em Atenas. Anafiotika é um mundo à parte da cidade, apesar de se localizer no seu coração, na encosta norte do monte da Acrópole. Aqui respire-se o ambiente das Cíclades, as ilhas que fazem da Grécia um dos destinos mais extraordinários do mundo. As casas do bairro foram construídas a partir de 1841 por trabalhadores vindos da ilha de Anafi, daí o seu nome. Os seus descendentes ainda constituem a boa parte do tecido urbano de Anafiokia. Com eles trouxeram a estética pura, quase virginal, da sua ilha, criando um oásis de calma e beleza no centro de Atenas. Nas ruelas e becos de Anafiotika o tempo anda mais devagar, os silêncios imperam, vestidos de charme e tranquilidade. É um bairro branco, decorado com plantas coloridas nas sacadas e nos sopés das portas, onde os veículos motorizados têm dificuldade em entrar, onde gatos dormem pachorrentamente à sombra alheios aos turistas que passam. Para quem nunca foi às ilhas, um passeio em Anafiokia é um entrada num maravilhoso mundo novo, profundamente envolvente. Para quem conhece algumas das centenas de ilhas do Egeu, é como voltar a uma casa conhecida, para matar saudades de quotidianos semi letárgicos que raramente se vêm no mundo corridor dos nossos dias. É este o grande encanto deste país, Hellas, intimista e mágico como poucos, sem dúvida uma visita obrigatório em alguma altura das nossas vidas.

Miguel Júdice

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