A beleza eterna do Jardim das Amoreiras

É um dos mais tranquilos espaços ajardinados da capital e surpreende pelos exemplares de ginkgos biloba que lá crescem discretamente, oficializando o desenrolar das estações

A felicidade é uma invenção da cidade. A cidade foi inventada para esconder a morte do nosso quotidiano, para nos fazer crer na omnipotência, na vida eterna, na juventude sem fim, na felicidade. No campo não há felicidade. Há vida, há morte e, entre elas, sobrevivência. É isso que o campo lembra todos os dias a quem lá vive e trabalha. No campo, ao viver os ciclos anuais da vida e da morte, sabemos sempre o que nos espera e com o que contar. A morte. Os jardins na cidade têm essa função.

A de manter a boa morte presente nos nossos dias. Os jardins, em especial no inverno, são lembretes da nossa natureza cíclica e efémera, lugares onde os velhos aguardam o seu desenrolar e por onde passam, e brincam, crianças agasalhadas. O jardim das Amoreiras é um desses belos lembretes, uma embaixada de árvores desenhada entre casas com uma majestosa saída por debaixo de arcos que levam a água até à mãe. Este jardim foi coisa do marquês, o de Pombal, que o destinou para pasto de bichos-da-seda.

Mandou plantar 331 amoreiras para que as larvas se alimentassem e, assim, se pudesse alimentar a fábrica da seda. Mas não tardou chegou o futuro e com ele a irrelevância dos sonhos dos homens, mesmo dos que são marqueses. A fábrica definhou, as amoreiras foram substituídas por outras árvores e os bichos-da-seda terão arrastado as suas barrigas em direção a outros pastos. Hoje, no centro do jardim, há uma fonte onde os pombos bebem e à volta da qual se dispõem majestosos ginkgos biloba, árvores que são bem capazes de ter um lugar especial no Olimpo da Vegetalia.

A beleza resistente do ginkgo biloba

Dizem os da botânica que o ginkgo biloba é a espécie viva mais antiga que se conhece. Há dela registos fossilizados com mais de cento e cinquenta milhões de anos. Quando nós, mamíferos, ainda não passávamos de arganazes. Em 1945, quando o Enola Gay largou a bomba sobre Hiroxima, apenas uma espécie sobreviveu ao impacto atómico, só um ser vivo assim se manteve, um ginkgo biloba. Se não é um deus é, pelo menos, um seu representante na terra.

Estamos perante uma espécie talvez eterna, uma espécie com raízes neste planeta há mais de cento e cinquenta milhões de anos. Uma espécie à qual, por uso-capitão, o planeta pertence. Talvez o povo escolhido não tenha sido o hebreu, nem o árabe, nem o mamífero, nem tão pouco do reino animal. Talvez o povo escolhido para desfrutar da vida eterna tenha sido o ginkgo biloba do reino vegetal. No Jardim das Amoreiras, os ginkgos biloba parecem sacerdotes a oficiar o desenrolar das estações.

À volta do lago, onde bebem os pombos e as crianças molham as mãos, os ginkgos, como druidas, assinalam o passar das estações e fazem-no com particular intensidade no outono, quando se vestem de amarelo vivo para anunciar a chegada da estação de morrer. Depois as folhas amarelas caem e os ginkgos ficam nus. Mais a norte, duas tipuanas, que dão tecto às brincadeiras das crianças, manter-se-ão hesitantes todo o inverno. Talvez deixem cair as folhas, talvez não… Tudo depende do sol e da temperatura.

Junto às tipuanas, um quiosque atrai adolescentes que ali se experimentam jogando, entre eles, olhares, sorrisos, poses e palavras. Adolescentes de sangue quente pela turbulência hormonal mesmo nos dias mais frios do inverno. A sul, longe do altar dos ginkgos, a árvore-do-verniz segregará verniz dos seus frutos, cumprindo o seu estranho e incompreensível cerimonial vegetal. Perto dos ginkgos, mas a uma distância reverente, está uma árvore que a partir do outono, quando estes se vestem de amarelo, dá frutos vermelhos e saborosos por fora mas venenosos por dentro. A árvore chama-se teixo.

Texto: Pedro Bidarra (autor do livro «Rolando Teixo», publicado pela Editora Guerra e Paz, em 2013, de onde foi extraído este texto)

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