O Homem e a Natureza

“Quero eu e a natureza| E a natureza sou eu| E as forças da natureza| Nunca ninguém as venceu”| Fala do Homem nascido - António Gedeão

É na superior harmonia do êxtase que a vida se expressa e se multiplica, organizada em corpos, espécies e ecossistemas interativos: harmonias dentro de harmonias, sendo o ser humano a única espécie animal a ter abandonado o seu ecossistema (excetuando, talvez, nalgumas tribos).

É também, consequentemente, o único animal a ter criado um sistema substituto ao que o integrava harmoniosamente nos restantes ecossistemas.

À construção deste sistema substituto passou então o Homem a dedicar a sua atenção, colocando-o no topo das suas prioridades, quer individual, quer coletivamente. O Homem substitui, paulatinamente, o natural pelo artificial. E é a isto que chama civilização: a substituição do natural pelo artificial.

A civilização constrói-a o Homem sobre os escombros da Natureza, pela qual perdeu a veneração e o respeito enquanto valor essencial, substituindo esse valor pelo valor monetário e pela quantidade de poder que detém sobre tudo o resto. Fá-lo na embriaguês da conquista, sem se aperceber que quanto mais mergulha nas lutas de poder mais se esquece de quem é, mais se esquece da suprema harmonia que é a sua origem natural, igual à de todos os seres vivos.

Esquecido da superior harmonia que é (superior harmonia que é a expressão natural da vida), o ser humano cria para si um egocentrismo, uma persona, uma máscara, uma imagem de superioridade relativamente a todos os outros seres vivos. À expressão dessa imagem de superioridade, na sua luta por poder, o Homem chama economia, política, diplomacia, fazendo disso lei e… justiça. E cria regras morais em torno dessa justiça, valores de bem e de mal civilizacional que tornou normais: uma normalidade anti natural. Torna-se, assim, normal destruir o natural para desenvolver civilização, cultura, artificialidade. E quem, em equilíbrio por via da sua reposta naturalidade ou em desequilíbrio por via duma imposta inaturalidade, é confrontado com os seus atos, sairá julgado e condenado por uma sociedade inconscientemente normalizada incapaz de compreender o alcance daquilo com que interage.

Dado que, tal como os seres vivos na sua generalidade, o ser humano foi criado na e pela Natureza, não se lhe pode atribuir culpa pelas inconscientes manifestações de anti naturalidade que a própria Natureza lhe possibilitou. Na verdade, a Natureza dotou o ser humano com ferramentas que permitem que este se lhe oponha: a sua capacidade racional aliada à sua verticalidade corporal e a uns membros superiores com um polegar oponível aos restantes dedos.

Na sua superior harmonia a Natureza doou-se e doa-se para que este seu filho, Homem, possa experimentar a inconsciência da sua origem. E que também possa, consequentemente, experimentar a recuperação dessa consciência, rearmonizando-se e reidentificando-se com a Natureza que lhe dá vida: com a sua própria Natureza.

É que, contudo, não vive o Homem desligado da Natureza. Mesmo que os seus valores sejam exclusivamente financeiros, de imagem, de posse, de estatuto social ou político, de servilismo civilizacional ou de qualquer outra forma de afirmação do seu egocentrismo, o Homem sente o apelo da necessidade de respirar ar puro, beber água pura, alimentar-se bem, dormir bem, reproduzir-se… amar e ser amado dentro de um contexto saudável e natural. O apelo do natural nunca deixou de estar inscrito na nossa existência, na nossa vida, na nossa humanidade.

Há, pois, limites pessoais e civilizacionais de anti naturalidade que não podem ser ultrapassados, pois quando são ultrapassados dão lugar a dor, desarmonias, tensões, stresses, doenças, decrepitude… morte. E, por mais que fujamos da morte ou da doença, elas continuam aí para nos lembrar que o domínio da natureza não pode implicar o desrespeito pelos seus ritmos, pelas suas necessidades, pelos seus valores, pelas suas Forças.

(continua no próximo artigo: “Ecologia espiritual”)

Emanuel Vieira Afonso
(Alquimia espiritual – Terapias intuitivas)
Brahmi
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artigo do parceiro: Susana Krauss

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