A Espiritualidade e a “pseudo-espiritualidade”

Nos dias de hoje tudo à nossa volta insta a uma espiritualidade fácil, rápida e descartável, características que nada têm a ver com o despertar da consciência e que se opõe ao desenvolvimento de uma verdadeira espiritualidade.

NASA/ESA/AURA/Caltech

Não nos enganemos: o caminho da espiritualidade não é fácil, não é uma fase, muito menos uma moda que chega e passa. A espiritualidade é um caminho que se escolhe, um caminho interior rumo ao despertar da nossa consciência, que como o próprio nome indica, tem implícita a concentração e o foco não no materialismo, mas no Espírito que desce e se manifesta na Matéria, animando-a de vida.

Espiritualidade vem do latim “spiritus”, que significa respiração ou sopro. Diz o Dicionário Michaelis, Espírito é o “Princípio animador ou vital que dá vida aos organismos físicos”. Num sentido mais lato, Espírito é aquilo que não tem forma, mas que sendo o Sopro, ou Verbo Divino, cria a Matéria e a anima. Por este raciocínio se depreende que é o Espírito que comanda a Matéria, e assim sendo, tudo o que nesta se manifesta - ou seja, no plano físico - tem a sua causa e princípio no plano espiritual, e não o contrário.

Seguindo esta ideia, a espiritualidade é a busca de respostas sobre os mistérios da Vida e do Cosmos por quem não as encontra no mundo material, no que lhe é explicado pela sociedade, e no que esta, de um modo geral, pratica. Essa busca, quando verdadeira, toma a forma de compromisso pessoal tomado de plena consciência, que implica uma vontade profunda de transformação e superação de si próprio, que necessita de todo o nosso empenho e de uma permanente auto-vigilância para se cumprir.

Cada vez mais nos é vendida a ideia de uma espiritualidade fácil e rápida, que passa por adquirir ou experimentar uma série de produtos e serviços que empregam em abundância termos de conotação espiritual e prometem resolver os nossos problemas, mudar a nossa vida, e ajudar-nos a nos tornarmos ”espirituais” de uma forma mais rápida. Duas coisas: nós já somos espirituais, precisamos é de tornar essa espiritualidade consciente e ativa; a via da espiritualidade não é fácil ou rápida.

A espiritualidade é um caminho longo e progressivo que tem em vista à nossa evolução. Mas não temos possibilidade de saltar etapas desse percurso. Podemos procurar acelerar o nosso desenvolvimento espiritual, o que é algo bem diferente, e que implica maior empenho e vontade, e também maiores desafios e responsabilidades. A evolução é o despertar do nosso potencial latente, do divino em nós. A existência da divindade dentro de nós - e não apenas fora de nós - é uma ideia natural em muitas partes do mundo. Um bom exemplo disso é a saudação nepalesa mais comum, “Namasté”, que significa “O deus que há em mim saúda o deus que há em ti”.

Na espiritualidade, tudo tem a ver com vivenciação, pois esta não pode existir apenas em teoria, em conhecimento não vivenciado ou não aplicado. É o grande Teatro da Vida: é através das muitas experiências pelas quais passamos e de tudo o que vivenciamos ao longo de múltiplas reencarnações, que a nossa consciência vai despertando, que ocorre a transformação interior e a evolução da nossa mónada, ou seja, da nossa essência espiritual. Então, retomando o ponto anterior, não vamos saltar etapas na nossa evolução só por nos rodearmos de experiências momentâneas, símbolos e palavras que não compreendemos. Isso é uma ilusão.

De facto, cada vez mais se utilizam abusivamente palavras e símbolos sagrados sem uma compreensão do que significam, e com propósitos que por vezes nada têm a ver com esse uso, vulgarizando-os. Por vezes os símbolos são utilizados erradamente, invertendo a sua rotação, e fazendo com que o seu significado - e energia gerada - seja o oposto, passando a significar involução em vez de evolução, por exemplo.

Um dos símbolos que mais é confundido - e que ilustra bem o impacto da inversão de um símbolo - é a famosa suástica ou cruz gamada: este é um símbolo milenar, gravado em muitos templos da Índia, do Tibete, da China e de outros países com influência hindu e budista, aparecendo por vezes gravado no peito de estátuas do Buddha. Na sua obra de referência “A Doutrina Secreta”, Helena Petrovna Blavatsky - reconhecida teósofa e cofundadora da Sociedade Teosófica - explicou que a suástica é por excelência um símbolo da Evolução Cósmica.

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