O que se investiga num laboratório do sexo

As experiências que estão a ser desenvolvidas numa universidade portuense

O que acontece no único local em Portugal onde se fazem estudos científicos sobre a forma como reagimos física e psicologiamente quando o assunto é…. sexo?

A resposta está no fim de um corredor despovoado do piso zero da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, numa porta de madeira como tantas outras.

Colada à altura dos olhos, quase passa despercebida uma folha A4 de fundo cor de laranja com a inscrição «SexLab – Centro de Investigação em Sexualidade Humana – Sala 046», que se lê antes da lista de dez nomes que sabemos serem dos investigadores que aqui trabalham. Quem passa não identifica qualquer característica diferenciadora que possa justificar uma visita.

No entanto, este espaço integra uma rede internacional com equipas de vários continentes e coordenada pelo professor Erick Janssen do Instituto Kinsey, pertencente à Universidade do Indiana, nos Estados Unidos da América. E é aqui que homens e mulheres se dirigem para, voluntariamente, participarem em estudos sobre a sexualidade humana. Eis que a porta se abre...

Laboratório (quase) secreto

Paredes brancas, mesas e cadeiras de madeira, estantes com material de escritório, uma secretária com um computador. E, na parede do fundo, uma porta. A ausência de batas brancas e tubos de ensaio não deixa adivinhar que estamos num laboratório. Somos recebidos por Joana Carvalho, doutorada em psicologia e uma das investigadoras da equipa. «Esta é a sala onde recebemos os participantes, explicamos os objetivos do estudo e os pomos à vontade», conta.

«O estudo propriamente dito decorre aqui, num ambiente privado», diz enquanto atravessamos a porta do fundo. De frente, uma zona com quatro poltronas pretas e, à esquerda, separada por um biombo preto com vidro fosco branco, uma poltrona branca e uma secretária com um computador. Estamos diante do palco principal das experiências científicas que aqui decorrem.

A ciência dos filmes

«Toda a experiência decorre neste computador. Passamos clipes de natureza sexual para induzir a resposta genital. No intervalo, há questões a que os participantes respondem com o rato do computador, sobre o que sentiram relativamente aos filmes. Durante esse tempo, é avaliada a resposta genital», descreve a investigadora, segundo a qual o teor dos filmes varia em função dos objectivos.

«No primeiro estudo que fizemos tínhamos filmes sexualmente explícitos (pornográficos) em que há um enfoque muito grande na interação genital entre os atores, e filmes românticos, em que se vê ou adivinha uma cena de sexo, mas os genitais nunca são filmados. Queríamos avaliar essa diferença porque sabemos que pode ter impacto na resposta sexual, quer fisiológica quer emocional», refere.

Resposta sexual = fisiologia + emoções

A diferença entre resposta sexual fisiológica e subjetiva (ou emocional) é fulcral para perceber o trabalho aqui desenvolvido. Como nos explicaria Pedro Nobre, o fundador e investigador responsável do SexLab, «a resposta sexual fisiológica (associada nos homens, à ereção e, nas mulheres, à vasocongestão genital) e a resposta sexual subjetiva (o prazer e a excitação que sentimos) nem sempre são completamente concordantes».

«O que se passa na nossa cabeça, o que sentimos como excitante e nos causa prazer, nem sempre é exactamente igual ao que se passa na nossa resposta genital. A correlação está longe de ser perfeita», acrescenta ainda. Para recolher dados fisiológicos são usados instrumentos adequados à anatomia masculina e feminina, enquanto os subjetivos são obtidos pelas respostas aos questionários. O cruzamento entre ambos é, como sublinhou Joana Carvalho, «o que nos confere o rótulo de laboratório na área da psicofisiologia do sexo».

Homens versus mulheres

Comparar os dois tipos de resposta sexual em homens e mulheres foi, precisamente, o objetivo do primeiro estudo desenvolvido no SexLab, em 2009. Alguns resultados foram inesperados. Foi a primeira vez que uma investigação científica constatou que os níveis de prazer e de excitação das mulheres eram mais elevados do que os dos homens, «independentemente de os filmes serem mais ou menos explícitos, o que foi uma surpresa», relata Pedro Nobre.

Por outro lado, «como já esperávamos, a nível subjectivo as mulheres responderam mais aos filmes românticos, embora a resposta genital tenha sido maior nos filmes explícitos, quer nos homens quer nas mulheres». Isto mostra que, «independentemente de o nosso corpo responder de forma sexual, nem sempre um homem e, sobretudo, uma mulher, interpreta isso como um sinal de que está sexualmente excitado ou a ter prazer».

À porta fechada

Isto não faz mal, pois não? Não vou apanhar um choque?. Estas são perguntas frequentes de quem participa, a par da preocupação com a privacidade. Para desmistificar e atenuar ansiedades, a preparação dos potenciais participantes é fulcral. Quem chega à etapa de participação, assina o consentimento informado que já recebeu por email, mas pode desistir a qualquer altura. Durante o visionamento dos filmes «não há contacto direto com os investigadores, a comunicação é feita através de walkie-talkie, a não ser que haja um problema técnico», assegura Joana Carvalho.

Dois investigadores que o participante conheceu previamente recebem, no computador da primeira sala, os dados captados em tempo real, apresentados como linhas cujas oscilações traduzem as alterações detetadas (por exemplo, uma para a avaliação genital, uma para a respiração, outra para a frequência cardíaca). Mais tarde, «há um processo de análise até transformar cada linha num número, tratado através de ferramentas estatísticas», explica a investigadora.

Os motivos para participar

«Nunca tivemos dificuldade em completar nenhum estudo em laboratório por falta de voluntários», refere, satisfeito, Pedro Nobre. «Perguntamos a todas as pessoas por que é que vêm, colocamos várias hipóteses e o que dizem mais é o desejo de contribuir para o conhecimento científico», conta.

Mas, para lá desta explicação, afigura-se outro tipo de motivos. Imediatamente após a experiência «a questão que mais colocam, que pode ser dita de várias formas, no fundo é Eu sou normal?» e, nas entrevistas finais, «dizem, no essencial, que gostavam de saber mais sobre si próprias». Em suma, «há uma necessidade legítima de perceber até que ponto é que a sua resposta sexual é normal», já que «faltam espaços onde isso seja discutido», sustenta.

Os efeitos na nossa vida

A preocupação com o que «é normal» é, justamente, uma tendência que os estudos já mostraram ser perigosa. «A comparação com um padrão irrealista é um fator de risco psicológico tanto para homens como mulheres, embora com temas específicos para cada género», sublinha Pedro Nobre. Por isso, afirma, uma das implicações práticas dos estudos é a certeza de que «podemos fomentar a saúde sexual promovendo crenças menos irrealistas, mais saudáveis, mais flexíveis».

Daí que desconstruir mitos, perpetuados de geração em geração, entre pares, pela família e na comunicação social seja fulcral, reforça o investigador. «Fala-se muito sobre sexo (o que é isso de ser tabu?) mas, muitas vezes, de forma errada. A diversidade na sexualidade é extremamente importante e deve ser defendida. É importante estarmos disponíveis para perceber se o que pensamos ser normal é, de facto, realista», refere. E isso tanto é válido para investigadores como para cada um de nós.

Pensamentos que minam o prazer

Eis o que a investigação já revelou serem os mais comuns para cada um dos sexos:

O que elas pensam

- «Eu não devia estar aqui, isto não é para mim». Estes são pensamentos característicos de mulheres mais conservadoras que mais dificilmente estão abertas a pensamentos mais sexuais ou eróticos.

- «Será que ele gosta do meu corpo?», interrogam-se. Em muitas mulheres, a forma como se sentem com o seu corpo e a atração que imaginam projetar pode ser uma forma de bloqueio.

- «Será que sou capaz? Será que ele falhou por minha causa?» é outra das interrogações comuns. Muitas mulheres autobloqueiam o seu prazer graças a ideias irrealistas sobre o seu desempenho, como acharem que não é normal não atingirem o orgasmo durante a penetração e/ou que para serem verdadeiramente mulheres têm de ser sexualmente ativas ou ter orgasmos múltiplos.

O que eles pensam

- «Um homem deve ter sempre ereção, conseguir sempre penetração». Homens que pensam assim encaram o desempenho sexual como dever ou missão masculina. Tendem a interpretar situações sexuais negativas (sem origem numa doença e que podem ser ocasionais) como sinal da sua incompetência, muitas vezes a um nível catastrófico, o que os torna mais vulneráveis à repetição do insucesso.

O impacto do fracasso

Um dos últimos estudos desenvolvidos incide sobre o impacto do fracasso. Homens e mulheres sem disfunção sexual viram um filme e responderam a um questionário sobre o que sentiram. A alguns, os investigadores disseram que a sua resposta sexual estava ser menor do que o esperado. Depois, todos viram mais um filme, o que permitiu analisar o impacto da falsa situação negativa.

Naqueles que receberam feedback negativo, o prazer psicológico baixou significativamente no segundo filme e foi inferior ao de quem não recebeu feedback. Mas não houve diferenças fisiológicas. Contudo, uma parte dos que receberam feedback negativo tiveram uma boa resposta psicológica. O que os distinguiu foi terem tido mais pensamentos eróticos e emoções positivas e menos pensamentos e emoções negativos.

As conclusões não deixam margem para dúvidas. Um insucesso sexual ocasional pode ter impacto nas experiências seguintes. Apesar de se poder continuar a ficar excitado fisicamente, o prazer que se sente pode ser afetado. A capacidade de ter pensamentos eróticos e emoções positivas parece proteger do surgimento de dificuldades sexuais, mesmo quando as coisas correm mal.

Texto: Rita Miguel com Joana Carvalho (investigadora) e Pedro Nobre (investigador responsável pelo laboratório português SexLab)

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