Incapacidade orgásmica

Como ultrapassar as dificuldades que imepedem muitas mulheres de atingir o prazer pleno

Se não consegue ou tem, por regra, dificuldade em chegar ao orgasmo, este artigo é para si. A sexóloga Marta Crawford revela os erros que mais cometemos e que nos impedem de chegar ao pico máximo do prazer.

«Sinto-me excitada, muito mesmo, mas não consigo chegar ao orgasmo. Eu quero poder ouvir os sinos, ver as estrelas e as explosões a que tenho direito», diz Cristina. 

«Eu quero, mas será que posso? Ou será que sou uma mulher frígida?», interroga-se ainda. Este é o relato de Cristina que aos 30 anos nunca experienciou um orgasmo. Mas não pense que este é um caso isolado, nem sinta pudor, se, por acaso sentir o mesmo. Cristina não pertence a uma minoria. Os especialistas e os estudos comprovam-no. De acordo com estudos internacionais, entre 10 a 15 por cento das mulheres nunca conseguiu atingir um orgasmo. Em Portugal, a situação não é muito diferente.

A sexóloga Marta Crawford confirma, com base na sua prática clínica, que a percentagem de mulheres que não consegue ou tem dificuldade em atingir o orgasmo é significativa. «São muitas as mulheres que chegam ao consultório para falar da sua incapacidade ou dificuldade em chegar ao orgasmo mas, geralmente, o problema está na noção do que é um orgasmo que, muitas vezes, é errada», alerta a especialista.

«Muitas destas mulheres, bem como os seus parceiros, acham que o orgasmo tem que ser sentido durante o coito e com a penetração e esse é um mito que é preciso desmistificar», afirma ainda.

Afinal o que é o orgasmo?

O orgasmo é considerado o pico máximo da intensidade do prazer e excitação e cada mulher sente-o de maneira diferente. Os especialistas confirmam a complexidade do orgasmo feminino e dizem que não existe uma receita certa para a mulher lá chegar, mas garantem que não há nada melhor do que a mulher conhecer bem o seu corpo. Explorar o corpo, sozinha ou a dois e sem pressas, é a melhor forma de conseguir perceber o que lhe dá mais prazer. Mas, ainda antes disso, há outro passo fundamental, que é o de rever a noção que tem de orgasmo.

Marta Crawford alerta que «muitas vezes, a noção de orgasmo é associada a uma relação coital. Há uma ideia preconcebida de que o orgasmo tem de acontecer no decorrer de uma relação sexual, com penetração. E muitas das mulheres que dizem que não conseguem atingir o orgasmo atingem-no mas através da estimulação clitoriana. No entanto, acham que não é suposto ser assim». Um pensamento que está errado.

Segundo a sexóloga, «o orgasmo, independentemente da zona que é estimulada, clitóris, mamilos ou nádegas, é um orgasmo». Além disso, é através da estimulação clitoriana, durante os preliminares ou durante a penetração, que a maioria das mulheres consegue atingir o orgasmo. A mulher precisa dessa estimulação», frisa a especialista.

Porqué é tão difícil atingir o orgasmo vaginal? 

Alguns especialistas distinguem o orgasmo clitoriano do vaginal. Enquanto o clitoriano é aquele que ocorre com a estimulação clitoriana (manual ou oral), o vaginal é aquele que ocorre durante a penetração e, por norma, mais difícil de atingir. «A grande maioria das mulheres não consegue ter prazer sexual e atingir o orgasmo através da penetração», afirma Marta Crawford.

«Na maioria das vezes, a mulher precisa da estimulação clitoriana, antes ou durante o coito, para conseguir atingir o orgasmo. Se não houver essa estimulação, muitas delas vão fingir o orgasmo, porque acham que não é suposto sugerir ao parceiro um estímulo na zona clitoriana, ou porque os parceiros idealizam, erradamente, que a única forma possível é através do coito. Esta é uma conjuntura que se apresenta muito na clínica e que é preciso desmistificar», alerta.

Num recente estudo português, realizado pela sexóloga Vânia Beliz e citado na sua obra «Ponto
Quê – O Prazer Feminino» (Objetiva), 60 por cento das mulheres considerava a estimulação do clitóris a mais eficaz para chegar ao orgasmo. A explicação é simples. O clitóris é o ponto do corpo feminino com maior sensibilidade (contém cerca de oito mil terminações nervosas) e ele «encontra-se fora da vagina e, se não for usado no jogo erótico, dificilmente a mulher conseguirá chegar ao pico máximo do prazer», refere Marta Crawford.

«Já no interior da vagina, a realidade é diferente. Apenas dois a três primeiros centímetros têm terminações nervosas, sabemos que o resto é pouco interessante, em termos de sensibilidade», esclarece ainda a especialista. No entanto, sabe-se que a penetração é essencial numa relação, pelo envolvimento e união que permite entre os corpos.

Terei um problema?

A investigação tem demonstrado que as dificuldades em ter um orgasmo não se associam necessariamente a um mal-estar sexual ou a falta de satisfação com a vida sexual. O orgasmo é um fator importante para a satisfação sexual, mas este impacto é muito variável entre as mulheres. Um estudo recente realizado pela Sociedade de Obstetras e Ginecologistas do Canadá é prova disso, ao concluir que «muitas mulheres gostam da proximidade e intimidade física do sexo e estão satisfeitas». 

«Mesmo que ainda não tenham experimentado o orgasmo ou que, algumas vezes, não o consigam atingir», realça o documento. O mesmo estudo confirmou também que a estimulação clitoriana é a forma mais eficaz para chegar ao orgasmo, concluindo que apenas 1/3 das mulheres consegue atingir o orgasmo através da penetração e que 2/3 só chega ao clímax com recurso à estimulação manual ou oral.

Os especialistas aconselham a procurar ajuda especializada, se sentir que a sua vida sexual não está bem, nunca teve um orgasmo, tem dificuldade em atingi-lo ou sente que a sua intensidade se alterou e esses factos estão a afetar a sua relação e autoestima. Nesses casos, podemos estar perante uma anorgasmia, uma perturbação do orgasmo feminino que designa a incapacidade ou dificuldade em atingir o orgasmo.

As causas mais comuns

A avaliação de um especialista nestas situações é fundamental. As causas podem ser diversas. Podem ser psicológicas (depressão ou ansiedade, stress, dificuldades de comunicação, conflitos não resolvidos, diferenças no desejo entre os elementos do casal e/ou uma educação conservadora) ou físicas (determinadas doenças, como a diabetes ou a esclerose múltipla, alterações hormonais ou a toma de certos medicamentos, como antidepressivos).

No entanto, Marta Crawford esclarece que, na maioria dos casos, as causas são do foro psicológico e a solução passa por pequenas mudanças. «Muitas mulheres que se queixam da sua incapacidade em atingir o orgasmo têm muita dificuldade em deixar-se ir, controlam muito a situação, no ato sexual e mesmo, muitas vezes, fora do ato sexual, na sua própria vida, têm estas características de bastante controlo das situações e a natureza do orgasmo é exatamente o contrário, é o deixar-se ir», diz.

«É o descontrolo absoluto, o deixar que as coisas fluam até a um determinado limite, sem medo e, portanto, aquelas mulheres que têm uma forte componente de controlo da sua própria personalidade, têm, muitas vezes, dificuldade em atingir o orgasmo. Não quer dizer, contudo, que as mulheres que sejam assim tenham dificuldade em atingir o orgasmo, mas muitas que não conseguem têm esta característica», salienta ainda.

Os erros que impedem o clímax

Noutros casos, esta incapacidade ou dificuldade está relacionada com a falta de estimulação ou com uma estimulação insuficiente. E nesse aspeto somos bem diferentes dos homens. Enquanto eles conseguem disponibilizar-se quase automaticamente para o sexo, nós precisamos de mais tempo, tanto em termos físicos, como psicológicos. Marta Crawford explica que «as mulheres, além de demorarem mais tempo para se esquecerem das preocupações do dia a dia e se focarem no sexo, fisicamente, também o corpo da mulher leva mais tempo a atingir o nível de excitação desejável.

«Se o homem passar logo para uma relação com penetração, provavelmente, o corpo da mulher nem se alterou fisiologicamente, de forma a receber bem o pénis. Tal como o pénis se altera, de uma flacidez passa para uma ereção, o corpo da mulher também muda, embora apenas internamente, há uma adaptação do aparelho vaginal para que este possa rececionar melhor o pénis», explica a especialista.

Por outro lado, há mulheres que ainda têm algum pudor sexual, que não se sentem bem em expor-se fisicamente, o que faz com que fiquem mais inibidas e não se libertem o suficiente para conseguir chegar ao clímax, ou mulheres que, simplesmente, têm dificuldade em por de parte as suas preocupações e em entregar-se totalmente ao ato sexual. «A mulher precisa de um enquadramento que, muitas vezes, não acontece, por falta de tempo», sublinha a sexóloga.

Durante o ato sexual, algumas posições também podem ajudar a atingir o orgasmo mais facilmente. Marta Crawford recomenda as que se poderão revelar mais vantajosas a este nível. «Há algumas posições que são mais eróticas e esse erotismo pode ser mais estimulante, outras que permitem determinadas penetrações (mais profundas, por exemplo) e que proporcionam mais prazer. Cada casal deverá encontrar a posição que dá mais prazer e a combinação física que melhor encaixa», refere.

Pensar mais em sexo pode ser a solução?

Os especialistas dizem que, em alguns casos, pode ser, de facto, o suficiente. Pensar em sexo ao longo do dia pode ajudá-la a preparar-se para o sexo e a obter mais rapidamente o nível de excitação ideal para ter mais prazer durante o sexo. Marta Crawford confirma que «a maior parte das mulheres não pensa tanto em sexo como os homens. Enquanto eles, em média, têm dois ou três pensamentos eróticos ao longo do dia, as mulheres, não tiverem nem um».

E esta diferença pode, por vezes, ser a única responsável pela falta de sintonia entre o casal. Um vai estar naturalmente mais entusiasmado do que o outro e, se a iniciativa partir sempre dele, também mais dificilmente a mulher irá estar preparada. Por isso, o truque está em pensar mais em sexo.

«Fantasie, recordando, por exemplo, o último contexto sexual que adorou», sugere a sexóloga. «A rapidez e a falta de erotização criam uma forte insatisfação que leva a que a mulher não tenha excitação suficiente e, em consequência, que não queira ter sexo com frequência», alerta ainda a especialista.

Os 3 tipos de orgasmo

Há especialistas que distinguem três tipos de orgasmo:

- Orgasmo clitoriano, que ocorre quando o clitóris é estimulado.

- Orgasmo vaginal, quando o chamado ponto G feminino (situado na entrada da vagina) é estimulado com a penetração e desencadeia o orgasmo.

- Orgasmos múltiplos, que correspondem à sucessão rápida de orgasmos, sem intervalos de repouso.

Texto: Sofia Cardoso com Marta Crawford (psicóloga clínica e sexóloga)

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