E, depois do parto, como fica o sexo?

Estratégias para recuperar o desejo no período após o nascimento do bebé

Será que existe dia e hora para retomar a vida sexual após o nascimento de um filho? Especialistas falam de dois a seis meses de recuperação, estudos mostram que depende da idade, do parto e até do tipo de relacionamento.

Luísa, 34 anos, foi mãe pela segunda vez no início do ano. Oito semanas após o parto sentia-se pronta para voltar a ter sexo sem limitações. Mas recorda que nem sempre é assim.

Quando o primeiro filho nasceu, passaram-se seis meses sem saber o que era um orgasmo. «Quando o nosso primeiro filho nasceu, estava mergulhada a duzentos por cento na maternidade. Esqueci-me que era mulhere companheira. A troca de fraldas, acordar para dar de mamar, as febres e os choros, tudo isto desgastou-me e pensava em tudo menos em sexo. O meu marido sentia-se excluído e a nossa relação chegou a estar ameaçada», recorda.

Segundo um estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa Infantil de Murdoch, na Austrália, o regresso a uma vida sexual satisfatória após o nascimento do primeiro filho, pode levar até seis meses. A pesquisa mostra que 16% das mulheres só faz sexo seis meses depois do nascimento do primeiro filho, enquanto 41% retoma mês e meio depois do parto. Mas, no caso de ser um segundo filho, o tempo de espera é geralmente inferior.

A erotização da relação

«Quando o meu segundo filho nasceu, recuperei o desejo sexual de forma muito mais rápida. E, ao contrário do que aconteceu da primeira vez, fui eu quem tomou a iniciativa», confessa Luísa. «O parto foi normal e penso que isso facilitou. Dois meses depois do nascimento, comecei a ter sexo sem limitações. Aliás, ainda durante esta última gravidez sentia até mais vontade em ter sexo. Penso que esta mudança face ao primeiro filho teve a ver com a questão emocional e psicológica. Sentia-me mais liberta, sem pressão, muito mais descontraída», diz.

Uma das chaves para que o casal volte ao sexo após o nascimento de um filho é a erotização da relação. Para Fernando Mesquista, sexologista e terapeuta de casal, a questão dos papéis é fundamental. «Há casais que, por vezes, se esquecem de que a mulher não é apenas mãe e o homem não é apenas pai», sublinha.

«É importante que a relação a dois mantenha o erotismo, que namorem, que tenham bolhas de oxigénio sem a criança e que, quando as têm, não as desperdicem limitando-se a falar sobre os filhos. Para as crianças é também positivo crescer a ver o pai e a mãe como casal que namora, que troca olhares de cumplicidade, que se elogia», acrescenta ainda.

Falta de desejo

Para Ana, de 30 anos, a recuperação do desejo sexual após o parto foi complicada não pelas noites mal dormidas ou recuperação física mas, sobretudo, pela imagem que tinha de si, do seu corpo. «Dois meses depois de ter sido mãe, confesso que não sentia a mínima vontade de ter sexo com o meu companheiro», desabafa.

«Apesar da recuperação física ter decorrido dentro do previsto, cada vez com menos dores e já com o check-up médico feito, sentia-me emocionalmente de rastos. Era incapaz de me despir à frente dele. Que desejo sexual pode despertar um corpo dentro de uma cinta do tipo espartilho e de um soutien de amamentação?!», afirma. É inevitável aprender a lidar com o tempo de espera ainda que se faça exercício físico ou tratamentos estéticos.

Os estudos comprovam que existe uma quebra do desejo sexual após o nascimento de um filho causado pela oscilação hormonal. A principal causa é a diminuição da testosterona, responsável pela libido, e o aumento da prolactina, hormona responsável pela amamentação. «É perfeitamente normal que uma mulher depois de ter um filho leve algum tempo até querer voltar a ter sexo», assegura Fernando Mesquita.

«Não apenas pelas várias alterações do seu estilo de vida, as adaptações que tem de fazer com a chegada do novo elemento à família, mas também por questões biológicas», afirma. E lembra que este não é um comportamento típico exclusivo das mulheres, também muitos homens acusam uma quebra de desejo. Há, muitas vezes, pensamentos e emoções contraditórios na fase pós-parto.

Se, por um lado, existe a felicidade e até cumplicidade entre o casal com o nascimento de um filho, por outro, há o desgaste físico, a ansiedade e a pressão de corresponder às expetativas criadas por nós mesmas e pelos outros. «Sentia-me numa roleta de emoções, por um lado, a alegria de ter sido mãe, de poder amamentar, de estar a viver um período magnífico. Mas, por outro lado, a culpa de estar a falhar nos restantes papéis, sobretudo no de companheira», diz Ana.

«Confesso que cheguei a masturbá-lo mesmo sem me apetecer, porque ficava com medo que ele fosse procurar prazer fora de casa. Sentia-me insegura. Mas o meu parceiro é fabuloso, nunca me pressionou e até brincava, dizia que agora é que eu tinha um peito atraente! Foi graças ao apoio dele e à paciência que teve comigo que, aos poucos, despertei para o sexo. A primeira vez não houve penetração mas foi tudo muito intenso», refere.

«Algumas semanas depois, já estávamos a ter sexo dentro do normal, apesar dos horários estarem cingidos aos do bebé. Para mim a questão da imagem é importante, procurei exercitar-me mais e comprei lingerie nova. Mesmo estando ainda a amamentar, troquei aqueles soutiens horríveis por outros bem mais sensuais e senti-me melhor comigo mesma – isto a juntar ao apoio dele foi o que detonou de novo o desejo», conclui Ana.

Redescobrir o prazer

Após seis meses a um ano, é suposto a vida sexual do casal ter voltado ao que era, mas adaptada à nova realidade de agora terem um filho, afirmam vários especialistas em terapia de casal. Para que isso aconteça é importante investir na criatividade, na imaginação, na erotização e não se acomodar à falta de desejo. Se inicialmente for preciso, marque na agenda o dia em que vai ter sexo.

Pode parecer algo forçado e é, mas terá resultados positivos. «Investir em carícias, momentos a dois, assistir a filmes eróticos, preliminares e apostar na criatividade para novas formas de prazer ou posições e lugares é um desafio que ajuda a impulsionar a retoma do desejo sexual», garante Fernando Mesquista. Joana conta como acabou por esquecer a ideia «Sexo depois do parto? Nunca mais!» depois de ter sido mãe, pela primeira vez, aos 38 anos.

«Não só suportamos estoicamente as dores do parto, como também conseguimos voltar a fazer sexo como se nunca tivesse acontecido nada com a nossa querida vagina. Mas não é fácil! Acredito que cada caso é um caso porque os partos e as recuperações não são todas iguais. No meu caso, o parto foi magnífico, ao contrário do pós-parto, muito doloroso e difícil. No primeiro mês e meio, estava convicta de que nunca mais voltaria a fazer sexo, nem sequer a ter vontade», recorda Ana.

«Mas não é verdade. À medida que recuperamos fisicamente e nos começamos a sentir mentalmente mais fortes, a vontade surge. As primeiras vezes ainda podem ser dolorosas e o recurso a um lubrificante pode fazer maravilhas. O mais difícil é gerir o tempo e a vontade. A nossa vida muda radicalmente e as prioridades também», frisa.

O papel do companheiro

O modo como o parceiro está na relação após o parto é fundamental na recuperação do desejo sexual. Também eles passam por alterações de estilo de vida e são igualmente obrigados a adaptarem-se à nova situação. Cobranças para que haja sexo estão fora de questão. Aliás, Joana, acredita que é com o nascimento de um filho que a relação é posta à prova. «É nesta altura que percebemos se ao nosso lado temos um homem ou um rato. Felizmente, tenho um homem ao meu lado», afirma.

«Um super companheiro que me ajuda em todas as tarefas, que divide comigo todos os momentos da vida do nosso filho e que não me cobra a ausência de uma vida sexual tão ativa como antes do bebé nascer. Pelo contrário, nos primeiros dois, três meses de vida do meu filho, que agora tem sete meses, acredito que ele estivesse quase tão extenuado quanto eu e a vontade de fazer sexo também fosse bem menor», salienta.

«Hoje, a frequência passou a ser bem diferente, ainda estamos na fase de uma a duas vezes por mês. Mas o que importa é bem mais a qualidade e, nas poucas vezes que o fazemos, é intenso e muito gratificante», refere ainda Joana.

Quando ele é o problema

O mesmo não se passou com Rita, de 29 anos, cujos problemas para retomar a vida sexual vieram do lado do parceiro. «Três meses depois de ter sido mãe já me sentia pronta para voltar a ter sexo com o Miguel, porém houve resistência da parte dele. Tentei mais do que uma vez que me penetrasse mas ele perdia a ereção. Ainda antes desse tempo houve momentos em que nos envolvemos mas acabávamos por chegar ao orgasmo masturbando-nos», recorda.

«Isto aconteceu várias vezes até que procurámos ajuda profissional. O Miguel assistiu ao parto e aquelas imagens criaram-lhe um bloqueio. Ele via-me apenas como a mãe da nossa filha. Ao fim de algumas sessões de terapia, conseguimos recuperar os nossos momentos de prazer», assegura.

9 ideias para recuperar o desejo pós-parto

1. Respeite o ritmo de recuperação física e emocional. Não crie demasiadas expectativas nem pressões para retomar a vida sexual.

2. Reinvente o prazer com o seu parceiro neste período. Seja criativa e experimente novas posições, novos lugares e até diferentes horários.

3. Invista em preliminares enquanto não se sentir confortável quanto à penetração. Pode ser uma boa forma para recomeçar.

4. Masturbação e sexo oral podem abrir caminho para voltar ao sexo com penetração. O uso de lubrificantes facilita.

5. Alimente o erotismo. Ver ou ler contos eróticos estimula as fantasias. Porque não usar brinquedos sexuais ou começar com um jogo de tabuleiro de cariz sexual?

6. Sexo urgente e rápido faz milagres na reaproximação, sobretudo, quando uma noite romântica com sexo demorado e lingerie ultra sensual pode ainda não ser possível.

7. Não pense em fraldas e choros enquanto estiverem os dois sozinhos. Abstraia-se por momentos do seu papel de mãe e veja-se como amante e companheira.

8. Crie uma rede de ajuda para que possa deixar temporariamente o bebé. Mesmo que esteja ainda a amamentar, pode retirar o leite previamente.

9. Dar asas à imaginação é fundamental. Se ainda se sentir insegura com o seu corpo, porque não vendar o seu parceiro e iniciar um jogo erótico?

Texto: Rita Esteves com Fernando Mesquista (sexologista e terapeuta de casal)

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