Amor é...rachar as despesas

Juntar os trapinhos deixou de ser uma aventura amorosa para se tornar uma necessidade nos dias de hoje

Os jovens querem emancipar-se. Sair da casa dos pais e experimentar a aventura de viver sozinhos, mas nos dias que correm não é possível alugar uma casa, pagar água, luz, gás, alimentação e ainda…a indispensável internet, com ordenados mínimos ou pouco mais.

Esperar que os anos passem e que a crise devolva estabilidade e bem-estar às pessoas não é uma solução viável para quem tem o fogo da juventude à flor da pele e não tem como parar o relógio do tempo. Pelo que a vida tem de ser vivida ou como diria o Jorge, nosso entrevistado “a troika não pode comandar o meu destino. Tenho de ser dono do meu caminho, tenho de ter escolhas”.

O rapper nas horas livres, arquitecto em início de carreira durante o horário de expediente, namora com Joana há seis anos e sozinho já não consegue suportar as despesas de um andar que alugou no Bairro Alto quando o emprego era certo e o dinheiro ao fim do mês também.

“Sugeri à Joana que iniciássemos uma vida em comum e aproveitássemos o meu andar. Ela estuda de dia e de noite trabalha numa pizzaria. Nada é certo, mas se não começamos por algum lado, o namoro esmorece, pois já andamos neste chove não molha há algum tempo…”

A ideia “roubaram-na” de um casal amigo que planeou ao milímetro a sua vida em comum. Ana e António analisaram, numa fase inicial, todos os custos: “ Não foi difícil. Fizemos uma experiência de uma semana de gastos, desde a net wireless em casa que poupa duas internets móveis, passando pela compra de alimentos. Por exemplo, sai mais barato proporcionalmente um frango do que comprar dois meios. O facto de termos só uma televisão por cabo em casa, também ajuda, enfim é todo uma gestão de casados, só que sem papel passado”, confidencia a técnica de turismo.

“É uma utopia pensar que por sermos dois as despesas são a dobrar. Conseguimos até pôr de parte algum dinheiro para alguma eventualidade. Quer dizer, a ideia era fazermos uma viagem, mas nesse aspecto não há poupança possível: são mesmo duas viagens com valores a dobrar!”, refere António.

Mas também há casos inversos. Júlia já vivia sozinha. Aos 29 anos e com a família no interior teve de contar cedo com a sua própria sobrevivência. Mário começou por partilhar a casa, dividindo apenas a sala, a cozinha e a casa de banho. Mas os serões em conjunto intensificaram-se e acabaram por avançar na relação de amizade. “Não estava à espera nem preparada. Deixei-me levar e agora temos contas para pagar em conjunto e já fazemos planos para uma casa mais pequena, mas melhor localizada. É que deixamos de precisar de dois quartos…”, confessa a rir a designer de interiores.

O seu companheiro António partilha da sua alegria: “Afinal, a crise para mim até trouxe benefícios. Provavelmente temos de saber olhar para o lado mais positivo da vida. Acredito que isto vai passar. A próxima batalha é o crédito no banco que está difícil”.

Ainda assim, a concessão de crédito por casal parece ser mais facilitada do que individualmente. As garantias são outras, apesar de cada vez estar mais limitado. Rachar despesas e viver junto pode ser uma ideia em crescendo nos dias que correm. Os casamentos são caros e as casas também. Até as despesas de divórcio já são equacionadas nesta época. O melhor mesmo é deixar o tempo passar, como fará a Lídia, funcionário pública de 31 anos: “Sonho em casar-me. Reunir todas as pessoas de quem gosto numa boda à séria. Vou adiar o sonho, pois neste momento não há lugar para loucuras.”

artigo do parceiro: Nilza Rodrigues

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