A pornografia também é um assunto de mulheres

Há muito que as imagens de sexo explícito deixaram de ser um assunto só de homens

Num recente estudo português, mais de metade das mulheres confessou consultar sites pornográficos. Afinal, estes também podem ser um bom afrodisíaco e até um truque eficaz no despertar do desejo...

Quando questionada com a pergunta «O que a atrai nos conteúdos pornográficos?», Carolina (nome fictício), de 35 anos, é rápida e direta na resposta. 

Diz mesmo que estes são «um excelente estímulo para obter excitação e mais prazer nas suas sessões de sexo a solo». «Não assisto a este tipo de conteúdos com o meu parceiro, mas gosto de o fazer quando estou sozinha», confessa. Estudos internacionais revelam que cerca de 30 por cento dos consumidores de pornografia são mulheres e num recente estudo português quase 57 por cento das entrevistadas confessaram consultar sites pornográficos.

Números que dão conta de uma nova tendência no campo da sexualidade feminina. A pornografia passou a ocupar o topo da lista dos afrodisíacos preferidos das mulheres, com cerca de 38 por cento das mulheres a assumir consultar sites pornográficos à procura de algo que as excite sexualmente, a maior parte das vezes quando estão longe dos companheiros.

Uma mudança cultural e social?

Várias investigações internacionais têm mostrado que as mulheres não são menos sexuais do que os homens, ao contrário do que dizem os estereótipos de diferenças de género. Um estudo nos EUA, citado pela Psychology Today, provou claramente que as mulheres escondem e reprimem a sua sexualidade, ao concluir que as mulheres estão mais interessadas em sexo casual, em países onde há menos risco de gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis, e em países desenvolvidos onde elas são menos dependentes dos maridos.

Hoje, as mulheres estão mais independentes e essa mudança social teve um impacto direto não só nas relações, como na forma como as mulheres vivem a sua sexualidade. «Ao longo dos séculos, as mulheres foram impedidas de explorar a sua sexualidade, de forma igualitária ao homem, sem que sentissem vergonha ou culpa», começa por referir o sexólogo Fernando Mesquita.

«E, por isso, o recurso à pornografia foi sempre reprimido no universo feminino e visto como algo que degrada e explora a imagens das mulheres. Hoje, as mulheres têm direito ao prazer. A pornografia já é vista com outros olhos e a própria indústria pornográfica já se apercebe da mudança de paradigma», analisa ainda o especialista.

A pornografia mais próxima das mulheres

A par desta mudança social e cultural, a internet facilitou o acesso à pornografia de forma descomprometida e totalmente anónima, o que permitiu às mulheres consultarem este tipo de conteúdos, sem se exporem. Por outro lado, outros estudos têm também mostrado que, apesar das mulheres verbalizarem sentir menos excitação perante material erótico e/ou pornográfico, elas têm níveis de resposta fisiológica de excitação semelhante aos homens.

A indústria pornográfica acompanhou estas mudanças e descobertas e, nos últimos anos, têm surgido filmes pornográficos conhecidos como feminist porn, feitos por mulheres e cujo público-alvo são as próprias mulheres. «Ao passo que a pornografia tradicional se foca essencialmente em grandes planos das penetrações e ejaculações, onde o homem é a figura central, neste novo estilo existe uma maior exploração dos sentimentos e do prazer feminino», refere Fernando Mesquita.

Um afrodisíaco eficaz

Embora muitas das mulheres que recorrem à pornografia o façam por entretenimento ou simplesmente por curiosidade, este tipo de conteúdo pode ser um excelente afrodisíaco e, em alguns casos, uma terapia eficaz para despertar o desejo sexual adormecido. «Usada com moderação, pode ser benéfica, pois pode favorecer a criação de fantasias sexuais», confirma Fernando Mesquita.

«E, consequentemente, facilitar o desejo sexual e, em casos clínicos específicos como o desejo sexual hipoativo (falta de libido) e a anorgasmia (dificuldade em atingir o orgasmo), na mulher, o recurso a conteúdos eróticos e/ou pornográficos pode ser uma ferramenta muito útil para aumentar a resposta sexual», acrescenta ainda. No entanto, o especialista alerta que é muito importante avaliar previamente a disposição da mulher para visualizar este tipo de material «caso ela não queira ou não se sinta confortável, é preferível procurar outras estratégias».

Além disso, lembra ainda que o recurso à pornografia poderá ajudar as mulheres a enriquecerem o seu reportório sexual, o que não significa que melhore a satisfação sexual. Segundo o especialista, «esta depende essencialmente de aspetos relacionados com a qualidade da relação amorosa (sentimento de intimidade e partilha), de variáveis cognitivas (capacidade de fantasiar e focar a atenção no seu comportamento durante a atividade sexual), de um parceiro atento às necessidades e preferências sexuais da parceira e da presença de orgasmo», sublinha.

Os perigos da ficção

Para as pessoas mais influenciáveis, o uso sucessivo de pornografia pode levá-las a criar uma imagem da atividade sexual, da mulher e do homem, que, na maioria das situações, não corresponde à realidade. «Quando se fica viciado neste tipo de material, as mulheres reais deixam de estar à altura do desejado, o que faz com que se invista menos na relação amorosa ou em novas relações», refere Fernando Mesquia.

«Além disso, neste tipo de filmes, a atividade sexual é muito mecânica, ou seja, não há lugar para dificuldades ou atrapalhações durante o sexo. A pornografia deve servir para estimular o casal e não para substituir o sexo real entre eles», explica o especialista, frisando que «é importante que os casais a usem como uma espécie de afrodisíaco para as suas próprias relações sexuais e não se limitem a fazer um copy/paste do que vêm nos filmes».

Quando se torna um vício

«A visualização de pornografia pode ser um entretenimento sexual altamente excitante, visto que permite às pessoas serem voyeurs dentro de limites seguros e legais», diz Fernando Mesquita. Se, por um lado, a Internet facilitou o acesso a este tipo de conteúdos e criou uma oferta infindável, por outro, também fez aumentar o número de casos de pessoas com adição à pornografia e, muitas vezes, o que está por detrás desta adição «não é tanto o próprio conteúdo dos sites, mas a variedade de estímulos que potencia esta dependência», alerta o especialista.

A dependência é difícil de reconhecer pela pessoa que está viciada, como acontece com outras adições, mas aos olhos dos que a rodeiam estes sinais podem ser bastante claros. Segundo Fernando Mesquita, «se o tempo que a pessoa dedica a este comportamento prejudica as relações sociais e profissionais, se a pessoa deseja parar este comportamento e não consegue, e se isso lhe provoca acentuado mal-estar, estamos perante alguém dependente da pornografia».

O que gostam de ver as mulheres portuguesas?

Dados de um recente estudo português revelam os hábitos e as preferências das mulheres portuguesas:

- 56,9% entrou em sites pornográficos e 7% gastou mais de seis horas por semana nesta atividade. Sendo que uma grande percentagem, destas mulheres, pertence à faixa etária dos 21 aos 30 anos.

- 29,6 % refere que visita por entretenimento, ao passo que 38,3% procura algo que as excite sexualmente e 47,8% fazem-no por curiosidade.

- 69,6% procura imagens de relações entre homens e mulheres, enquanto 28,7% procura encenações de fantasias, 22,6% filmes pornográficos hardcore, 21,7% imagens de homens e 19,1% filmes pornográficos softcore, entre outros.

Pornografia versus realidade

Não tente reproduzir o que vê. O recurso à pornografia pode ser uma mais-valia para alimentar fantasias e partilhar de experiências no casal, porém é importante que reconheça que não é obrigada(o) a fazer as acrobacias ou as posições do Kama Sutra representados nos filmes. No sexo, o mais importante é que o casal tenha prazer. Não devem fazer algo para o qual não se sentem suficientemente à vontade.

A maioria da pornografia transmite a fantasia de que o sexo pode ocorrer sem comunicação. As boas relações sexuais exigem negociação, comunicação mútua, honestidade e respeito. De resto, dentro dos limites definidos e estabelecidos pelo casal, tudo o resto é permitido.

Texto: Sofia Cardoso com Fernando Mesquita (psicólogo clínico, terapeuta sexual e sexólogo)

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