Mais vale só do que mal acompanhada

As armas para ultrapassar o fim de uma relação

Se está a viver um desgosto de amor, acredite que é possível esquecê-lo! Quem garante é a psicanalista Mariela Michelena.

Maria Carolina. Era este o nome que iam dar à filha que tanto queriam. Isto depois do casamento, da lua de mel no Rio de Janeiro e depois de instalados no apartamento que pensavam comprar. Um telefonema, porém, destruiu todos os planos de Laura (nome fictício), uma mulher que ultrapassou a dor da traição.

De uma relação falhada, voltou a sorrir. Um caso da vida real que prova a teoria da psicanalista Mariela Michelena no livro «É possível Esquecer-te», publicado por A Esfera dos Livros. «O chão fugiu-me quando uma amiga me telefonou a dizer que o meu namorado tinha sido identificado numas fotos do Facebook [rede social de partilha de informação e imagens] em clima de cumplicidade com uma mulher», recorda à Saber Viver a jovem de 26 anos durante um mergulho nas suas memórias mais tristes. Como reage, afinal, alguém quando descobre que foi traída?

«Até ver com os meus próprios olhos, pensava tratar-se de um engano. Essa mulher que estava na fotografia podia ser uma prima ou uma amiga nossa», constata. Não era, infelizmente, alguém que conhecesse e logo percebeu tratar-se do fim. «Senti-me humilhada, enganada, revoltada. tudo o que acreditava desapareceu», desabafa. Aos 24 anos, Laura passou pelo pior momento da sua vida. perdeu o apetite e emagreceu 7 quilos. «Fiquei uma semana sem conseguir engolir qualquer alimento, fiquei a pesar 45 quilos», recorda.

Eu, ele e duas amantes

Juntos há dois anos e com uma mão cheia de promessas e juras de amor, Laura entrou numa tristeza profunda quando percebeu que não tinha sido enganada com uma, mas com duas mulheres. «Perceber que vivi numa mentira foi o pior. Sentia tanta raiva de ter acreditado nele e no amor. Tudo falso», desabafa. Ainda sem conseguir mentalizar-se do fim do namoro e com esperança não de voltar para ele mas de que ele lutasse por ela, Laura imaginava outra trama.

" Estar no Facebook do ex é suicídio. É ter motivos para chorar um fim de semana inteiro"

Mariela Michelena (psicanalista)

«Foi tudo tão rápido, ainda éramos amigos no facebook e eu acompanhava a relação toda com a amante. As declarações de amor constantes, tal e qual como me fazia… Ele nem deixou que eu percebesse que tudo tinha terminado», relembra hoje.

Ainda pensei que podíamos voltar ou, pelo menos, que ele tentasse reconquistar-me, até porque ele fazia jogo duplo e ligava-me muitas vezes a dizer que estava arrependido e que éramos feitos um para o outro», refere ainda. «Chegava a ter 15 chamadas dele no meu telemóvel», refere ainda. Mesmo a confrontar-se no Facebook com a troca de carinhos entre o ex-namorado e a amante, Laura viveu cheia de esperança durante três meses, até ao dia que tiveram a última conversa. «Percebi que já não conseguia voltar para ele, mesmo que ele quisesse, e pedi-lhe para parar de ligar-me, de procurar-me e, caso não o fizesse, estava pronta para mudar de cidade e de trabalho», sublinha.

Ele respeitou e, até hoje, nunca mais trocaram uma palavra. passaram-se dois anos. Dois anos cheios de altos e baixos. «Há mulheres que se sentem desvalorizadas quando são traídas mas eu não. Consegui desvalorizá-lo (a ele) em vez de me desvalorizar. Tentei defender-me com mais saídas, mais viagens, mais amigos. Continuei a arranjar-me, como antes», assegura. Nada, contudo, era «como antes», lamenta.

Primeiro veio o medo da solidão. «Tínhamos sempre programas e era complicado estar sozinha», confessa, mas, um ano depois e após uma viagem ao Brasil, Laura voltou a entregar-se a um homem, a amar, embora de uma forma diferente. «Demorei quase um ano a assumir o namoro. Decidi ir com mais calma, não queria atirar-me de cabeça, até porque é difícil esquecer o que vivi, pois faz parte da minha história, da minha experiência», refere.

O outro lado da separação

Também Pilar (nome fictício) se junta ao número de mulheres que já venceram um desgosto de amor e estão felizes ao lado de um novo companheiro. Ela, no entanto, está do outro lado. Do lado de quem abandona o barco. «Foi mais difícil decidir divorciar-me do que aceitar casar», começa por esclarecer, acabando, assim, com o mito de que quem abandona sofre menos. Errado.

Acaba por ser um desgosto de amor, à mesma, tal como explica a psicanalista, Mariela Michelena. «É mais difícil anunciar um divórcio do que um casamento porque é uma decisão individual e quando se decide separar está-se a fazer o luto. A relação já acabou, pensa-se nas palavras certas para não magoar o outro. Há dúvidas ainda a pairar na cabeça, há receio de tomar a decisão errada, do futuro desconhecido», afirma. Pilar partilha a mesma opinião e refere ter demorado um ano após a separação para ganhar coragem de pedir o divórcio.

«Eu sei que era, para ele, o fim. Sei que ele ainda vivia com esperança. Mesmo depois do divórcio, ele ainda tinha esperança», lamenta. Uma esperança que terá terminado quando soube que Pilar estava com outra pessoa e ia ser mãe. «Foi durante a minha gravidez que ele deixou de mandar mensagens e parece ter seguido o seu caminho», lembra Pilar, aliviada. Finais felizes que deixam para trás histórias de amor cheias de lágrimas, angústias e revoltas.

Depois do luto

Depois de se fazer o luto por um amor perdido, é o medo da solidão que mais atormenta quem sofreu por amor. «No que toca aos sentimentos, somos uns bebés, não somos adultos. É como se não tivéssemos braços nem pernas, somos dependentes. É um desamparo», brinca a especialista, realçando, a mudança como o ponto principal. «De um modo geral, resistimos a qualquer mudança. Agarramo-nos ao que somos, àquilo que conhecemos e ao que temos, mesmo sendo mau», refere.

De acordo com a especialista, a felicidade começa quando ganhamos consciência e decidimos mudar o que está mal. «Viver numa mentira é um mau negócio que dura pouco tempo e pode ter más consequências», alerta a escritora espanhola, incentivando a «reconstruir a vida». Segue-se, então, outro dos passos de maior destaque quando o assunto é voltar a ser feliz, cuidar de si!

«Faça consigo mesma o que faria se fosse a sua mãe. Se sabe que algo a magoa, evite-o e trate-se com carinho e delicadeza», sugere. E só, assim, após «abandonar a obsessão de estar sempre a pensar naquela pessoa a conseguirá esquecer», refere ainda a escritora.

3 passos para refazer a vida após uma separação

As ações fundamentais para conseguir ultrapassar uma separação:

1. Pare de chorar
Deixe de relembrar e de se lamentar pelo que perdeu e comece a programar aquilo que pode fazer com o que tem e aquilo que vai ganhar a partir de agora.

2. Olhe para a frente
Deixe de se torturar por causa do passado e viva o presente. Refazer a vida consiste em virar a página e, sobretudo, em pegar nas rédeas da própria existência, seja a sós ou acompanhada.

3. Aprenda a estar só
As separações e os divórcios são um sinal dos tempos que correm e nem todos desembocam na formação de um novo casal. Viver sozinho é, atualmente, uma experiência que, muito provavelmente, todos os adultos terão de atravessar em alguma altura das suas vidas. por isso, é melhor estar disposta a lidar com essa vida solitária e a apreciá-la, em vez de ficar presa no lamento do quão desgraçada é.

Texto: Teresa de Oliveira Martins com Marinela Michelena (psicanalista)

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