As (novas) relações amorosas

Estaremos mais exigentes e independentes ou, simplesmente, mais imaturos?

Os conceitos mudaram irreversivelmente. Nos relacionamentos modernos, procura-se viver o momento, sem fazer planos para o futuro e o casamento tradicional deixou de ser visto como o caminho certo para a felicidade.

O foco na qualidade das relações, o aumento díspar do número de divórcios, o adiamento do casamento e da maternidade marcam os dias que correm. 

E, aos olhos da psicologia, a falta de maturação psicológica que caracteriza a nova geração de adultos fizeram surgir, nas duas últimas décadas, novos formatos de relacionamento amoroso. São relações informais, onde não existe compromisso e a felicidade não passa pelo casamento tradicional, nem, em alguns casos, tão pouco, pela partilha do mesmo espaço e das mesmas rotinas. Surgem assim, com mais frequência, as chamadas amizades coloridas, os encontros sexuais esporádicos, mas também, as relações ioiô que vivem no drama constante da separação e da reconciliação.

A lista também abrange as relações poliamorosas que consideram ser possível amar várias pessoas ao mesmo tempo e ainda casais com relacionamentos sólidos mas que preferem manter o seu espaço e recusam-se a partilhar a mesma casa. Reunimos alguns casos reais e conversámos com os especialistas que nos ajudaram a descodificar estas novas relações e as suas verdadeiras motivações. Estaremos mais exigentes e independentes ou, simplesmente, mais imaturos?

Uma mudança cultural e psicossocial

Na última década, o número de divórcios por cada 100 casamentos duplicou, passando de cerca de 15 para mais de 30. «Em 2001, por cada dez casais que deram o nó, houve três que o desfizeram», aponta Sofia Aboim, investigadora, especialista em Sociologia da Família, no seu livro «Conjugalidades em Mudança» (Instituto de Ciências Sociais). A socióloga alerta também para as percentagens de casais a viverem juntos, antes do casamento, que quase duplicou, nestes dez anos.

Registos que constatam «o crescimento da informalidade na formação do casal», analisa a investigadora. Os psicólogos reconhecem esta mudança cultural e social e a sua influência na formação destas novas relações mas falam também do retardamento da maturação que faz adiar o compromisso ou, até mesmo, rejeitá-lo. «Hoje, tornamo-nos adultos muito mais tarde em vários aspetos psicológicos e um deles, muito importante, é a capacidade de assumir um compromisso», sublinha Quintino Aires.

«Se, há 40 anos, essa capacidade aparecia aos 20/25 anos, hoje vai aparecer aos 40/50 anos», refere o psicólogo clínico e sexólogo, acrescentando que «isso é visível noutras áreas». E exemplifica. «Também assisitimos a uma dificuldade das pessoas se comprometerem com um curso ou uma profissão», refere o especialista.

As amizades coloridas

Luísa, com 42 anos, um dos nomes fictícios, criados para garantir o anonimato dos testemunhos, foi apresentada a Miguel, numa saída à noite com amigos. Ficaram amigos, mas com o tempo, perceberam que havia algo mais do que amizade. «Fomos ficando mais íntimos e, assim, as coisas aconteceram», recorda Luísa. E, apesar da distância física (Miguel trabalha noutro país), ainda se encontraram, durante seis meses.

«Hoje, mantemos apenas a relação de amizade. Com a idade, tornamo-nos mais exigentes. Acho que não vale a pena investir em relações que estão condenadas a não resultarem. Neste caso, tínhamos a distância que nos separava. E, além disso, neste momento, tenho um estilo de vida que me deixa livre para fazer o que quero e não me agrada a ideia de perder essa liberdade», confessa Luísa, que há um ano terminou um casamento de dez anos.

O psicólogo e investigador Nuno Amado confirma que «com o aumento do divórcio e o adiamento do casamento e/ ou da maternidade, existem mais pessoas que não querem precipitar-se em relações sérias». No entanto, alerta para o perigo deste tipo de relacionamentos.

«É sempre um terreno escorregadio porque há uma probabilidade forte de haver um desencontro de expectativas. Qualquer tentativa de separação da vida sexual da afetiva pode falhar», alerta o especialista, aconselhando que «a melhor forma de gerir as expectativas é através de uma conversa franca. Quanto mais fica por dizer, mais espaço fica para o desencontro», realça.

O sex buddy

As amizades coloridas estão na moda. Existe amizade, intimidade e exclui-se o compromisso. Mas há casos em que só há espaço para a intimidade física. Não são amigos, nem consideram ter algum tipo de relacionamento, encontram-se em busca do prazer físico e nada mais. São encontros pontuais que ocorrem cada vez mais.

«Porque além de haver mais pessoas fora de uma relação, quer pelo adiamento do casamento e maternidade, quer pelo aumento crescente do número de divórcios, há uma aceitação social de que o ato sexual não tem que acontecer entre membros de um casal», refere o psicólogo Nuno Amado. «São pessoas que não querem ter um relacionamento sério mas que têm desejo», acrescenta o especialista.

É o caso de Carolina, de 33 anos, que assume com clara descontração que nunca teve um relacionamento amoroso e ter um companheiro nunca fez parte dos seus ideais de vida. Ao longo destes anos, tem conhecido homens a quem chama de amantes, com quem foi tendo encontros, meramente sexuais. Alguns casos não passam de um encontro de uma noite, outros mantêm-se durante algumas semanas e, raramente, duram mais do que um mês.

«Sou uma mulher de paixões, não gosto da monotonia e da rotina das relações de longo prazo e, normalmente, canso-me dos homens, depois de dois ou três encontros. Talvez nunca tenha conhecido alguém que me despertasse sentimentalmente», desabafa.

As relações ioiô

Para o psicólogo clínico e sexólogo Quintino Aires, a incapacidade de assumir o compromisso é um reflexo da falta de maturação que se verifica nos jovens adultos atuais. Um estudo recente, citado pelo especialista, revelou que «46% dos portugueses até aos 35 anos, ainda não amadureceu». E é também esta imaturidade, segundo o especialista, a causa principal dos relacionamentos ioiô, que ora terminam, ora recomeçam.

Ana, de 38 anos, manteve uma relação deste género durante sete anos, que terminou recentemente, mas agora, garante que «é mesmo definitivo». Ao longo dos últimos anos, perdeu a conta ao número de vezes que terminou esta relação. «Sempre foi uma relação muito complicada. Desde o início, que, no máximo, estávamos duas semanas, sem discussões. Depois, surgia sempre um conflito qualquer e decidíamos terminar», recorda.

O psicólogo Nuno Amado alerta que «nunca é um bom fator de previsão de qualidade de uma relação que as pessoas já se tenham separado e reconciliado várias vezes». Quintino Aires é mais radical e diz que os relacionamentos ioiô são mantidos por pessoas que não gostam verdadeiramente uma da outra.

«Reconciliam-se porque, quando estão separadas, sentem saudade, desejo e angústia por estarem sós, mas depois voltam a terminar, porque, na verdade, não se amam. Duas pessoas que não olham da mesma forma para o mundo e/ou que não toleram a opinião uma da outra não se amam», sublinha o especialista.

O poliamor

A derrubar totalmente a estrutura tradicional de um relacionamento amoroso aparece o poliamor, um tipo de relacionamento em que cada pessoa tem a liberdade de manter mais do que um relacionamento ao mesmo tempo. Quem é adepto do poliamor defende que «não se trata de infidelidade, nem de promiscuidade, mas sim de uma honestidade total, em que todas as pessoas envolvidas estão a par da situação e se sentem confortáveis com elas».

Maria e Bernardo, ambos na faixa dos 30 anos, estão casados há um ano e assumem, com naturalidade, que tanto um como outro estão livres para se envolverem com outras pessoas. Já tiveram algumas relações extraconjugais, desde que estão juntos, mas, não passaram de encontros sexuais e, até ao momento, nunca se apaixonaram. No entanto, não excluem essa hipótese.

Vir a gostar de outra pessoa não implica, para eles, o fim do sentimento que os une. «Acima de tudo, privilegiamos a comunicação. Sempre que aparece uma pessoa nova que nos desperta interesse, consultamo-nos um ao outro para definir a melhor estratégia a adotar», conta Bernardo. E é precisamente essa honestidade que sossega Maria.

«Um dia pode surgir uma pessoa por quem nos venhamos a interessar amorosamente, mas isso não tem de afetar o que sentimos um pelo outro», diz. Para os psicólogos entrevistados, este formato de relacionamento materializa a incapacidade de criar vínculos emocionais, decorrente da imaturidade psicológica. Na opinião de Quintino Aires, «quem cria um vínculo emocional com uma pessoa rejeita naturalmente o envolvimento com outras pessoas».

Nuno Amado não acredita na sustentabilidade deste modelo a longo prazo e acha que, mais cedo ou mais tarde, o casal acaba por desistir dele. No entanto, ressalva que, «há exceções», como faz questão de sublinhar.

Juntos mas separados

Se alguns não conseguem assumir o compromisso por falta de maturidade, outros assumem-no, de uma forma informal, longe dos moldes tradicionais e «com alguma dose de egoísmo», analisa o psicólogo Quintino Aires. Mais um reflexo das transformações sociais que ocorreram nos últimos anos, na sequência da entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, que lhes permitiu obter uma independência financeira total e gerir as suas vidas, sem dependerem de um companheiro.

Falamos dos casais que mantêm uma relação sólida e duradoura, mas que optaram por cada um ter o seu próprio espaço. A socióloga Sofia Aboim, no livro já citado, fala de «um movimento de individualização da vida familiar». O caso de Sara de 39 anos e de Francisco de 42 retrata bem esta tendência. Namoram há cinco anos mas vivem em casas separadas e é assim que pretendem
manter-se.

«Se algum dia o casamento vier a acontecer, tenho a certeza que será em moldes diferentes dos tradicionais. Será apenas uma oficialização, uma bênção e não uma obrigatoriedade de partilhar tudo, inclusivamente um espaço», refere Sara. «Gosto de ter os meus momentos, os meus tempos para fazer máscaras hidratantes ou aquelas arrumações de gavetas mais intensas, que nos ajudam a descomprimir», refere.

«O Francisco tem o seu espaço para se encontrar com os amigos sempre que quer, para receber em casa quem quer, sem ter que cumprir horários ou dar grandes justificações. Só estamos separados no espaço, porque enquanto afastados, mantemos o contacto permanente. Confiamos um no outro e esperamos sempre que as saudades e a vontade de estar um com o outro sejam o motor de tudo isto», admite.

O fenómeno dos casais que optam por não ter sexo

Estudos norte-americanos recentes revelam que entre 15 a 20% dos casais não têm sexo mais do que 10 vezes por ano, o que os especialistas definem como sendo uma «relação sem sexo». No entanto, sabe-se que o conceito de abstinência sexual é muito variável. Há quem considere que não está numa relação sem sexo, apesar de ter relações apenas uma vez por ano, ou até a cada dois anos.

No Japão, as relações sem sexo são categorizadas como o mais recente fenómeno sexual e não caracterizam apenas as relações de longo prazo, onde o desejo sexual pode estar, apenas, adormecido. É também entre os casais mais novos que a tendência se confirma, mas com contornos diferentes.

Se, nos casais que já estão juntos há mais de vinte ou trinta anos, a opção de não ter relações sexuais é consentida por ambos os membros, porque não há desejo sexual, nos casais jovens, os motivos são outros. Os especialistas falam numa «sexualidade egocêntrica», como muitos a caracterizam.

Em «O império dos Sem Sexo», um documentário francês sobre o tema, emitido pela RTP2, são referidas como principais razões para a abstinência sexual a dificuldade de comunicação entre os japoneses e a preferência pelo prazer imediato e sem esforço, onde cada um procura obter prazer, individualmente, recorrendo ao mercado da pornografia e das sexshops.

No Japão atual, o casal desaparece para dar lugar aos indivíduos e o sexo deixa de ser um elemento de construção da identidade do casal, para passar a ser uma simples questão de alívio. Será que o Japão é essencialmente diferente ou estará apenas mais avançado? Não será também o sexless uma tendência dos novos relacionamentos, consequência do ritmo de vida atual, onde nos resta cada vez menos tempo para investir na qualidade das relações?

Questões que deve fazer, para perceber se ama o seu companheiro e se a sua relação está (ou não) em risco:

1. Partilham a mesma visão sobre o mundo?

Uma falsa verdade sobre o amor é que os opostos se atraem. O que atrai é a compatibilidade de olhares sobre o mundo. Tal como duas pessoas que não toleram a opinião uma da outra, não se amam.

2. Admira o seu companheiro?

Amar implica ter uma admiração grande pelo outro. Uma admiração ao ponto de quase o poder colocar como um heroi. E esta admiração tem que existir numa relação que se queira manter estável a longo prazo.

3. Riem e brincam juntos quando fazem sexo?

O à vontade e o prazer que existe durante o sexo, que não deve ser inferior a uma vez por semana (excepto quando existem fatores externos altamente stressantes como uma situação de desemprego, por exemplo), denuncia a qualidade de uma relação.

4. Arriscam experimentar novas práticas sexuais?

Se respondeu sim, então, não precisa de se preocupar porque não é pelo sexo que, um dia, a sua relação, vai terminar. Se a sua resposta é negativa, então está na altura de ter uma conversa franca com o seu parceiro para partilharem preocupações e medos e, juntos, encontrarem soluções para despertar a vossa vida sexual. Esse é o desafio.

Texto: Sofia Cardoso com Joaquim Quintino Aires (psicólogo clínico e sexólogo) e Nuno Amado (psicólogo clínico especialista em psicologia do amor e investigador)

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